Um estudo diz que esse é um caminho com apenas um sentido

O inseto que os cientistas usaram para descobrir a não reversibilidade
Os biólogos evolucionários vêm pensando há muito tempo se a história particular de cada ser vivo poderia correr no sentido contrário. É possível que as proteínas do nosso corpo retornem às antigas formas e funções que tinham há milhões de anos?
Examinando a evolução de uma proteína, um grupo de cientistas disse que a resposta é não. Eles perceberam que as mutações tornam praticamente impossível que a evolução reverta sua própria direção. “-As mutações queimam a ponte que a evolução acabou de cruzar”, disse Joseph W. Thornton, um professor de biologia da Universidade do Oregon e co-autor de um trabalho nos pesquisadores em grupo, na atual edição da Nature.
O biólogo belga Luis Dollo foi o primeiro a considerar uma possível reversão da evolução mas concluiu, em uma declaração de 1905, que um organismo nunca volta ao seu estágio anterior. Essa observação foi mais tarde chamada de Lei de Dollo.
Para saber se ele estava certo, os biólogos tiveram que reconstruir a história da evolução. Em 2003, um grupo de cientistas estudou as asas do bicho pau – qualquer inseto da ordem Phasmatodea). Eles descobriram que seus ancestrais comuns tinham asas, mas apenas alguns dos descendentes as perderam. Mais tarde, alguns dos que perderam as asas desenvolveram-nas novamente.
Ao contrário do que possa parecer, esse estudo não refuta necessariamente a Lei de Dollo. O bicho pau pode desenvolver, de fato, um novo tipo de asas, mas não fica claro o quando essa troca pode ser entendida como uma evolução reversa no nível molecular. Os insetos teriam voltado atrás em sua exata bioquímica original para construir asas, ou descobriram uma nova rota, desenvolvendo, essencialmente, novas proteínas?
Dr. Thornton e seus colegas observaram de perto a evolução reversa, no nível molecular. Eles estudaram uma proteína chamada glucocorticóide receptor, que ajuda os humanos e muitos outros vertebrados a competir para agarrar um hormônio chamado cortisol e que então comanda um gene defensivo
Comparando o receptor com a referida proteína, os cientistas reconstruíram a sua história evolutiva. Por volta de 450 milhões de anos atrás, ela começou a modificar seu formato. O novo formato permitiu a ela agarrar apertadamente outros hormônios, mas fracamente o cortisol. Depois, há mais de 40 milhões de anos, o receptor mudou seu formato de forma tão drástica que se tornou muito sensível ao cortisol, mas sem capacidade de agarrar os outros hormônios por muito tempo.
Durante estes quarenta milhões de anos, Dr. Thornton descobriu, o receptor mudou em 37 pontos, mas só 2 desses pontos fizeramo receptor sensível ao cortisol. Outros 5 pontos impediram o receptor de agarrar outros hormônios. Quando ele sofreu essas 5 mudanças, ele começou a se comportar como um novo gucocorticóide receptor.
Dr. Thornton percebeu que se ele tentasse a operação reversa, ele poderia ter de volta o novo glucocorticóide receptor dentro de um ancestral. Então, ele e seus colegas teriam feito a operação reversa na mutação para a antiga forma.
Mas para a surpresa de Dr. Thornton, o experimento falhou. “-Tudo o que nós conseguimos foi um receptor completamente morto”, disse.
Para descobrir por que eles puderam ir na direção a frente, mas não para trás, eles examinaram novamente o velho e o novo receptor. Eles descobriram 5 novas mutações que foram cruciais para a transição (do velho para o novo). Se eles tivessem revertido essas cinco mutações, o novo receptor teria se comportado como um antigo.
Baseado nesses resultados, Dr. Thornton e seus colegas concluíram que a evolução retrógrada falhou em 2 capítulos. No primeiro, o receptor adquiriu 7 mutações que o fizeram sensível ao cortisol, mas não para outros hormônios. No segundo, adquiriu as 5 mutações extras, que Thornton chamou de mutações restritivas.
Essas mutações restritivas podem ter se adaptado bem quando o receptor agarrou o cortisol. Ou elas podem não ter surtido efeito algum. Em ambos os casos, essas cinco mutações adicionaram twists e rabos ao receptor. Quando o Dr. Thornton tentou retornar o receptor à sua forma original, esses rabos e twists tinham desaparecido.
Dr. Thornton argumenta que uma vez que a mutação restritiva foi desenvolvida, elas tornaram praticamente impossível para o receptor desenvolver novamente a forma original. As cinco chaves de mutação não puderam ser revertidas porque os receptores tornariam-se inúteis. Nem poderiam as 7 mutações restritivas serem revertidas – aquelas mutações tinham pequeno efeito. Então, não houve como a seleção natural favorecer indivíduos com mutações reversas.
“-Eu nunca vou dizer que evolução reversa é impossível”, disse o pesquisador. “-Mas eu acho que ela só pode ser levada a cabo quando envolve traços muito simples, como quando uma única mutação está envolvida”, completa
“-Quando novos traços são produzidos por várias mutações que influenciam uma às outras, a complexidade fecha a possibilidade de evolução reversa”, conclui o biólogo.








