1 0 Archive | janeiro, 2010
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Casal anticonsumista vive sem geladeira e TV em SP

MAURÍCIO KANNO
colaboração para a Folha Online

Você acha que seria possível viver sem geladeira? E sem televisão? O casal Juliana Morari, 26, e Lúcio Tamino, 27, vive assim. E muito bem, pelo que dizem. Há dois anos, mudaram-se de uma região mais urbana da metrópole de São Paulo para a serra da Cantareira, nos limites do município, onde consomem “somente o necessário”.
“Já que procuro sempre comer frutas e legumes frescos e não consumo nada derivado de animais, que estraga fora da geladeira, não preciso dela”, explica Juliana, que se identifica como pesquisadora de dança. Ela planeja no máximo experimentar um sistema africano de refrigeração com vasos de cerâmica.

Artista plástico Lúcio Tamino, 27, em sua casa na serra da Cantareira, onde vive “somente com o necessário” com a esposaSobre a falta de TV, diz : “Assim, evitamos o apelo comercial que chega tanto pela TV como por lanchonetes e outras grandes lojas”
Eles são um exemplo de até onde podem chegar cidadãos preocupados com o ambiente –e, no caso deles, também com a saúde, os animais, e o “todo à sua volta”.
Relatório publicado pelo Worldwatch Institute na semana passada apoia atitudes como a deles. A organização, baseada em Washington, tira o foco no governo e em acordos internacionais. Avisa que o desenvolvimento sustentável do planeta e a luta contra o aquecimento global passam por uma renúncia ao consumismo.
Juliana diz que não compra produtos “supérfluos”, ainda mais quando são industrializados, como biscoitos recheados e iogurte.

ingredientes que podem fazer mal”, diz. Quando o casal precisa mesmo de algo industrializado, como óleo, opta por cooperativas. “Priorizo produzir eu mesma biscoitos e pães caseiros para nosso consumo.”
O sustento financeiro do casal vem de Lúcio, artista plástico. Mas, como evitam o consumismo, não necessitam de muito dinheiro, diz Juliana.
O único eletrônico que declaram possuir em casa é um computador, por onde atualizam site contando sua experiência.
Absorvente reaproveitável
Há outros que não têm um estilo de vida como o de Juliana e Lúcio, mas, ainda assim, buscam renunciar ao consumismo. A Folha Online ouviu casos curiosos de renúncia às compras tidas como excessivas. Algumas medidas, como a da professora Tânia Regina Vizachri, 23, chamam a atenção.
Em vez de utilizar absorventes íntimos descartáveis, ela adotou os chamados “abiosorventes”. São de pano reutilizáveis.
“Isso evita ter que ir sempre comprar na farmácia e produzir mais lixo”, explica ela. “Além disso, há os produtos químicos do produto industrializado que também causam impactos.”
Divulgação

Abiosorvente, absorvente íntimo feminino reutilizável com impacto ambiental reduzidoO site do produto estima: “cada uma de nós irá consumir, ao longo da vida fértil, algo em torno de 10 mil absorventes descartáveis, que ficarão aí pelo mundo por volta de uns cem anos pelo menos”.
E quando seu celular quebra, você pensa em consertar ou compra outro? Como muitos desses aparelhos são baratos, o biólogo Leandro Sauer Carrillo, 26, aponta que a tendência é mesmo comprar outro. “As pessoas não se preocupam com o que vai virar depois o produto”, diz.
“O visor do meu celular quebrou há cerca de dois anos, depois de um ano de uso”, conta ele. “Ao invés de jogar fora, consertei, por 10% do valor do aparelho.” Outra aventura do aparelho foi molhar –problema que ele diz ter resolvido ao secá-lo.
Hoje Leandro não está mais com o celular, mas o deu em boas condições de funcionamento para sua mãe, atual usuária.
Arquivo pessoal

O biólogo Leandro Carrillo, 26, sugere pensar por uma semana antes de fazer uma compraUma semana para pensar
Outra preocupação do biólogo é na hora de fazer qualquer compra: “Antes pense no seu custo-benefício por uma semana”, sugere ele. “Se, no fim do período, ainda quiser comprar, OK. Senão, provavelmente era algo que você acabaria não usando.”
Ele exemplifica com a última coisa em que pensou em comprar: uma máquina de fazer suco que viu em propaganda na televisão.
“Parecia legal, mas depois, ao ver funcionar, percebi que desperdiçava partes da fruta que também poderiam ser aproveitadas, gerava muito resíduo”, conta Leandro, que desistiu da compra.
Outro objeto de consumo que o biólogo cobiça há cerca de quatro anos é uma TV LCD. Mas recusou até hoje a compra pela decisão consciente de esperar: “A tecnologia avança muito rápido, logo vai ter outra opção mais avançada”, pondera.
“Além disso, quanto tempo vou ter para isso? Se eu tiver uma TV pior provavelmente vou ter até menos vontade de assistir e vou poder fazer outras coisas mais saudáveis.”

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20. jan, 2010
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O mundo é muito barulhento

Estudo de antropólogo canadense disseca o mundo dos ruídos produzidos pelo homem e pela natureza durante os séculos.

Por Luís Paulo Domingues

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É possível conviver com o barulho deste mundo?

Grande estudioso de ambientes acústicos, o canadense R. Murray Schafer conseguiu reunir em seu livro “A Afinação do Mundo” um panorama legível e profundo sobre o problema dos ruídos em diversos lugares e épocas. Levando sempre em conta os aspectos culturais, Shafer localiza, através de extensa pesquisa documental e de campo, os excessos e desvios dos barulhos que o ser humano teve e tem que suportar ouvir em seu dia-a-dia.
Segundo o pesquisador, mesmo em tempos mais antigos, como na Idade Média, o homem poderia evitar barulhos irritantes e melhorar a qualidade de vida, o conforto sensorial e as paisagens sonoras. Mas é com a sociedade contemporânea que Shafer mais se preocupa. Nunca antes na história houve níveis de ruído tão intensos e freqüentes quanto agora. Isso, segundo ele, deteriora a vida das pessoas muito mais do que elas pensam. Os níveis de stress e as ocorrências de doenças relacionadas ao stress nunca foram tão grandes e os ruídos intermitentes da sociedade moderna estão totalmente relacionados a isso.
Shafer também faz uma diferenciação bem clara e lógica dos ruídos segundo figura e fundo, ou seja, ruídos de frente, aqueles que a gente nota conscientemente, e ruídos de fundo, aqueles que são tão perenes em nossa vida e que, na maioria das vezes, nem chegamos a perceber. Por exemplo: o ar condicionado do escritório, que as pessoas só ouvem se prestarem atenção ao barulho.
Alguns ruídos também, segundo ele, são característicos de uma cultura: é o que ele chama de marca sonora, como o apito de uma fábrica em uma cidade industrial, ou a buzina dos carros em uma cidade grande. Esses mesmos ruídos podem ser considerados como sinais sonoros, pois têm o claro objetivo de avisar um grupo de pessoas sobre alguma coisa.
O problema é que a atenção dos governos e das instituições que tratam do assunto se voltou para a busca de uma solução para a altura dos ruídos apenas recentemente. Isso porque, culturalmente, os ruídos altos sempre estiveram associados ao poder. Nas batalhas da antiguidade, por exemplo, as trombetas ensurdeciam os soldados antes das lutas e eles corriam contra o inimigo batendo pesadamente as espadas nos escudos, o que criava um sentimento de ameaça e pânico no oponente.
Depois da Revolução Industrial o problema teria aumentado, obviamente pelo trabalho incessante e barulhento das imensas máquinas. Quanto mais barulho, mais poderosa parecia aquela corporação industrial. Esse poder de produção e liderança social teria também levado os ruídos incômodos para dentro das casas do cidadão comum. Liquidificadores, televisão, rádio, batedeira elétrica… tudo sugeria que o poder de compra já havia chegado àquela casa, seguindo os ditames da “American Way of Life”.
Com os carros, o mesmo fenômeno. Até os anos 1970, ter um carro que fazia estrondos ruidosos era visto como status. Depois dos anos 70 isso começou a mudar, através de leis que limitavam e suprimiam os ruídos que chegavam às ruas.
Shafer também fala sobre os moozaks, o que chamamos de música de elevador. Os moozaks são usados até comercialmente em ônibus, aviões e elevadores, e são feitos para acalmar as pessoas e mantê-las presas às suas ações cotidianas, numa relação (segundo o autor) extremamente anti-revolucionária entre patrão e funcionário.
O pesquisador conta que esses ruídos são usados em corredores de prédios comerciais, como forma de controle dos freqüentadores. Muitos moozaks, contudo, acabam existindo naturalmente, pelos barulhos intermináveis e intermitentes da pulsação da cidade, ou mesmo da natureza.

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18. jan, 2010
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CURSO DE MATEMÁTICA BÁSICA

ALUNOS DO 3º ANO 2010 e VESTIBULARES. CURSO DE MATEMÁTICA BÁSICA. CONFIRAM O HORÁRIO:

  • SEGUNDA, 25/01/2010 – 9h:00 – 12h:00
  • TERÇA, 26/01/2101 – 14h:30 – 17h:30
  • QUARTA, 27/01/2101 – 14h:30 – 17h:30

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15. jan, 2010
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D’Incao adquire super câmera de alta velocidade

D’Incao inova com High Speed Camera

Mantendo sua tradição de equipar seus laboratórios com o que há de mais avançado no universo científico dedicado à educação, o D’Incao Instituto de Ensino adquiriu uma High Speed Camera para realizar experimentos científicos extremamente apurados.
Para quem não se lembra, as High Speed Cameras apareceram pela primeira vez na mídia nos programas realizados pela Discovery e pela Geografic Channel, e eram responsáveis pelas imagens em super slow motion de altíssima precisão.
Com o auxílio da High Speed Camera, os alunos do D’Incao Instituto de ensino estarão mais uma vez em vantagem perante as outras escolas em tudo o que se refere aos experimentos científicos.
Veja imagem no vídeo abaixo.

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Maluf, Clodovil e CIA

Há diferenças, sim, quando um voto é jogado fora por protesto.

Luís Paulo Domingues

clodovil

Clodovil Hernandes, pelo menos, levou a alta costura brasileira para o mundo. No Congresso, sua atuação foi pífia. Já Maluf é pífio em tudo.

Eu não tenho nada contra o Maluf. É claro que como jornalista eu só posso falar mal dele. Mas, como pessoa, eu não tenho nada contra. Na verdade, eu queria é sentar com ele um dia no bar do Japa e perguntar: “-Velho, o q-que tá acontecendo?” Só pode ser algum problema sério, talvez psiquiátrico.
Desde que eu era pequeno, só ouço o nome do Maluf envolvido com processos judiciais. As propagandas sobre suas grandes obras em São Paulo se esvaziam quando a imprensa noticia que foram exatamente essas obras as maiores causas de seus imbróglios com a justiça. Nos últimos tempos, com a nossa polícia federal e o Ministério Público muito mais atuantes, a situação do Maluf piorou muito, a ponto de ter sido preso e mantido na cadeia por uns tempos. Tudo bem, depois ele saiu, candidatou-se a deputado federal e ganhou.
É claro que ele não tem a mínima intenção de fazer alguma coisa no Congresso. O negócio do Maluf é o poder executivo, é lá que dorme seu paraíso de satisfação e que se desenvolvem os germes de sua possível doença.
Maluf tornou-se uma figura folclórica. As pessoas riem de suas aventuras e desventuras políticas e processuais, torcem por ele ou por sua prisão. Assim, nós vamos assistindo, aplaudindo, sendo coadjuvantes do nosso próprio espetáculo trágico, patético e bufo.
Existem muitos “Malufs” no Brasil. O Paulo é só um símbolo do coronelismo urbano paulista. Ele foi eleito com uma enxurrada de votos, mas desta vez os votos não vieram da ala que diz acreditar no slogan do “rouba mas faz”. Essa espécie de eleitores, graças a Deus, está em franca extinção. Os votos vieram de sua peculiaridade folclórica. É nessas pessoas, que costumam “provocar barracos” em público, que os indecisos e os que nunca pensaram em se decidir acabam votando. E com este tipo de pensamento: “-Ah, já que eu tenho que votar mesmo, vai o Maluf que já tá aí na mídia.”
A prova disso é a eleição do finado Clodovil. É óbvio que entre Clodovil e Maluf há diferenças oceânicas. Maluf precisava do cargo por causa da imunidade parlamentar, já que é réu em “n” processos, Clodovil precisava de um novo emprego. Clodovil é quem processava os outros, geralmente programas e redes de TV que usaram sua imagem e/ou ficaram lhe devendo na época em que trabalhava nessas empresas.
O salário de deputado federal é menor que o de um apresentador de TV, mas como Clodovil já havia passado por todas as emissoras e brigado com a direção de todas elas, não deixa de ser um grande quebra galho. O mais legal é que ele nunca fez questão de esconder isso. Uma vez, diante da recorrente pergunta “o dinheiro traz felicidade?”, Clodovil respondeu: “-Pode até não trazer, mas eu prefiro chorar dentro de uma Mercedes do que (sic) dentro de um ônibus lotado”.
O eleitor que escolheu Clodovil o fez pelo mesmo motivo que os eleitores de Maluf: “-Já ta na mídia, mesmo!”. Ou escolheu para protestar, como na época em que não havia urnas eletrônicas e os cariocas votaram em um hipopótamo chamado Cacareco. Clodovil e Maluf são os Cacarecos da era das urnas eletrônicas. O problema é que, na época do voto escrito, Cacareco (o hipopótamo) foi impedido de tomar posse, mas hoje, tanto Clodovil quanto Maluf assumiram seus cargos. Maluf está legislando – pelo menos é o que se supõe – sem problema algum.
Outros candidatos folclóricos, eleitos por suas ações e identidades pitorescas, foram Enéas (que também já passou desta pra melhor) e Frank Aguiar. Não é possível crer que o Enéas faz, fez ou pretendia fazer alguma coisa pelo Brasil (algo que ultrapassasse sua contribuição quixotesca à indústria do entretenimento). É claro, portanto, que votar no Enéas é uma atitude de protesto.
E o “Cãozinho dos teclados”? Frank Aguiar foi acusado de bater em Renata Banhara, a “famosa” atriz, jurada e participante de games na TV. Além disso, e de sua contribuição duvidosa à música popular brasileira, quais são suas propostas? O que ele colocaria na pauta do Congresso? Depois de seus milhares de votos, “desencanou” de ser deputado e “virou” vice-prefeito de São Bernardo do Campo.
Algumas figuras eleitas, como Fernando Collor e Augusto Farias (este era suplente, mas já assumiu), estão na nebulosa e perigosíssima região entre os folclóricos e os que realmente têm apoio e crença em suas intenções. Isso é um perigo, pois eles recebem votos dos dois lados e ainda contam com uma porção de eleitores que realmente acredita neles. Podem, também, ter comprado votos em seus currais eleitoreiros em Alagoas, mas eu me recuso a ter um pensamento tão vil.
Esse tipo de “voto folclórico” é ruim para o país, mas uns são piores que outros. Preferiria que o Clodovil continuasse lá, pintando seu gabinete. É melhor que ver o Maluf pintando o sete.

Por Luís Paulo Domingues

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06. jan, 2010
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Notícias de uma terra insólita

Luís Paulo Domingues

dinheiro

Esconder o dinheiro na cueca é um símbolo da anarquia moderna. Mas da anarquia que só sobrevive chupando as tetas do Estado.

“Caminhoneiro persegue e atropela mototaxista.”
“Bebê jogado em fosso no Paraná sobrevive.”
“Tio de rapaz que matou quatro da própria família diz que ele era boa pessoa.”
“Policiais inspecionam ônibus onde rapaz armado com facas manteve reféns por cerca de 45 minutos.”
Dessas quatro manchetes de jornal publicadas no ano passado, apenas a última não se referia a acontecimentos ocorridos no Brasil. Foi no Japão e a polícia conseguiu que o rapaz se entregasse. Se fosse a polícia do Rio, era capaz de eles incendiarem o ônibus com todo mundo dentro.
Humor negro a parte, nestes últimos tempos, a impressão que se tem é que o mundo virou de cabeças para o ar, e não estou me referindo apenas à violência. Leiam, por exemplo, estas outras notícias:
“Casal tem gêmeos negro e branco na Alemanha.”
Aí já parece que ocorreu uma ironia Divina. Logo na Alemanha, o país que amarga a história de comandar um genocídio racista que vitimou 6 milhões de judeus e mais uns tantos de outras raças ditas “inferiores”?
E esta, então?
“Bento XVI afaga coala e conhece mamífero raro.”
Qual teria sido o intuito do Papa ao se entregar a tão insólita tarefa?
Eu sei que o que choca mais, nos últimos tempos, são as mortes provocadas por policiais, em operações atarantadas no Rio de Janeiro. Morte (é bom frisar) das vítimas e de inocentes que passavam. Sejamos justos com o Rio: no Paraná também aconteceu uma, na qual os policiais não só enfiaram o carro da polícia “de frente” (na contramão) no carro das vítimas, como também deram um tiro na boca do condutor e mataram a passageira. O comentário dos policiais? “-Chama ajuda que deu merda.”
Como assim, deu merda? Isso é comentário que um adolescente flagrado pichando um muro faria quando a patrulha chegasse, não de policiais em ação que falham e matam “por engano”.
Existem também aquelas notícias que são absurdas, mas que nós nem nos damos conta, talvez porque já nos acostumamos:
“São Paulo está sem chuva há 19 dias seguidos.”
Bom, pelo jeito isso não deve ser normal, do contrário não seria manchete. As de enchentes também, de tanto a gente ver, já encheu. Nós não ligamos mais.
“Policial é assassinado na frente de casa, na zona norte de São Paulo.”
Aí está uma notícia que conta também o lado trágico dos policiais. Olhando por este prisma, pode parecer que o mundo está acabando, que todo o juízo humano está se estagnando e estamos pendendo, inexoravelmente, para o fim dos tempos. É claro que se não tomarmos cuidado isso pode mesmo acontecer algum dia, mas, como eu já escrevi nesta coluna algumas vezes, quando que foi bom? Em que era da humanidade as ações humanas não estavam recheadas de patologias?
Drácula, por exemplo – o verdadeiro, príncipe da Valáquia no século XIV -, gostava de ver seu próprio povo agonizando em estacas de madeira. Enchia campos de 3 por 1 quilômetros com pessoas trespassadas de baixo para cima para tentar espantar os turcos. Ah, e tinha que passar a estaca pelo lado direito do corpo, para não pegar o coração e o sujeito durar mais.
E os vickings? Você acha que era normal estar com sua família, em sua aldeia litorânea, e de repente ser surpreendido por uma horda de pessoas barbudas que falavam uma língua ininteligível e ver toda sua família morrer a machadadas?
A verdade é que o mundo sempre foi trágico e sempre será. O que difere alguns seres humanos de outros, porém, é a capacidade de perceber que a dor deve sempre ser suprimida, por algum motivo que nem sempre fica claro – e que talvez seja o bem.

“Adolescente tenta decolar com aeronave do aeroporto de Rio Preto.”

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06. jan, 2010
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O cigarro e os alienígenas

Algumas considerações (nem sempre) muito pertinentes sobre a lei do Serra.

Luís Paulo Domingues

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Este cara não seria Bogart sem o cigarrinho.

Há algum tempo, foi institucionalizado o mais novo frenesi dos paulistas. Povo completamente alucinado, os paulistas têm agora um novo assunto para ocupar o tempo e puxar papo: a lei anti-fumo (sei lá se isso tem hífen e nem quero saber).
Em primeiro lugar, esclareço que sou a favor da lei – pelo menos lá no Bar do Garcia o ambiente se tornou respirável, até os fumantes notaram. Mas o que não dá para aguentar é o fato social, o deslumbre, a sanha dos não fumantes. Alguns deles, geralmente de idade avançada, decidiram traçar uma cruzada contra o fumo, a ponto de, agora, até onde é permitido fumar fica parecendo que não pode.
Minha amiga estava em frente ao Shopping e viu três pessoas acendendo um cigarro no meio da rua. No meio da rua pode!!!! Mas uma senhora que passava com a filha começou a gesticular lá da outra calçada, dizendo que eles deveriam ir fumar em casa, pois estavam prejudicando a saúde dos não fumantes.
Eu disse que se tratava de uma cruzada dos não fumantes, mas podemos dizer, inclusive, que se trata de uma causa xiita. Quase terrorista.
A caça às bruxas está decretada e talvez as autoridades só se deem conta disso quando o primeiro fumante for linchado ou empalado em praça pública por estar fumando. Eu conheço alguns caçadores de bruxa – a maioria não tem nada o que fazer – que recorreriam sem pestanejar a ações super drásticas, como queimar tabacarias e executar sumariamente seus proprietários.
O frenesi da lei anti-fumo revela uma característica atávica do brasileiro. Na impotência de ir até Brasília e tirar o Sarney a tapa de lá de dentro, o brasileiro prefere eleger a bola da vez para ficar enchendo o saco. No momento, em São Paulo, são os fumantes. Mesmo os que fumam dentro da lei. No Brasil, é a gripe suína. Já recebi “n” e-mails com teorias da conspiração sobre a gripe – um deles envolvia um plano de ET’s para dominar a Terra.
A lei anti-fumo, por outro lado, é a redenção dos maconheiros. Eternamente empurrados para a marginalidade, os maconheiros se sentem agora no mesmo nível de subversão dos fumantes de Marlboro. Minha mãe está se sentindo praticamente uma atriz dos filmes do Truffaut. É uma incompreendida.
Falando em Marlboro e em maconha, por que será que o governador não pula com os pés no peito da indústria de cigarro? Não é tão confortável quanto pular no peito do fumante, é óbvio. Mas se faz tão mal, qual é a diferença entre o executivo da Philip Morris e o traficante da esquina ao lado? Ah! A legalidade! Então sugiro ao elegível governador que ponha as empresas de tabaco na ilegalidade. É um princípio de isonomia. Aproveite a ocasião e proíba a pinga, o vinho, a cerveja e o sexo. Não transaremos mais, por causa da possibilidade e risco de contrairmos AIDS, gonorréia ou crista de galo.
A lei é boa, o que não é bom são os inquisidores. É aquela coisa que o Kafka falava sobre delegar poder a quem não compete. O governo monta o esquema legal, tudo bonitinho, para que tudo corra dentro da lei e da civilidade. Aí vem o síndico do prédio, quase gozando de prazer, e monta uma Ku Klux Klã contra os fumantes. Mesmo que eles não fumem. Não importa que eles não fumem nunca mais, o que importa é que eles fumaram um dia. É que nem ex-gay. Ex-fumante não existe.
Enfim, se tudo isso não for um plano dos alienígenas para dominar a Terra – assim como certamente é a gripe suína – acho (repito) que a lei é boa. Eu só fumo no boteco, quando tomo cerveja. Agora, nem no boteco.
obs: Neste momento, algum alucinado deve estar pensando em como cortar todas as cenas de cigarro do filme Cassino.

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06. jan, 2010
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O Império da Cópia

Você já teve que tocar algo para saber se era de verdade?

Por Luís Paulo Domingues

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Foto dos revolucionários russos: posteriormente, Stalin, o da esquerda, mandou apagar Trotsky, o da direita, desta foto. Transformou a imagem numa verdade maior.

Nada incorpora mais a alma dos seres humanos ocidentais modernos do que o Xérox. Ou melhor, a máquina de fotocópias que acabou sendo chamada assim porque todo mundo só usava a de uma marca.
Ao longo do século XX, fomos nos moldando ao mundo das imagens e abandonando o mundo das palavras. O cinema e a TV causaram uma hipnose global pelas “verdades” que estão expressas nas imagens, a ponto de não nos prestarmos mais a gastar tempo com metáforas. Afinal, “a imagem está ali, nua e crua; a imagem não mente, pois eu estou vendo isto ou aquilo; ninguém me contou, eu vi”.
Mas é muito mais fácil contar uma mentira através de uma imagem. É muito simples embutir um discurso em uma fotografia e fazer com que todos acreditem que é aquilo ali mesmo. É só uma questão de contexto.
O mais incrível nesta ditadura da imagem é que não se trata da imagem que estamos vendo agora, na rua, neste momento. Não é a imagem real que transmite nossa moderna ideia do que seja a verdade, mas sim a imagem simulacral, aquela que chega a nós através de uma mídia: do cinema, da TV, da tela do computador, do IPod, do celular…. aí sim é que mora nossos conceitos e nossos padrões do que é válido, do que existe, do que é certo.
Ao longo do século XX, fomos perdendo a capacidade de discernir os acontecimentos do mundo e de nossas vidas sem o intermédio desses aparelhos. Tudo começou com o rádio, mas o rádio era frio demais, a pessoa tinha que pensar na imagem, tinha que criar.
Com a TV (o cinema já existia, mas não estava dentro de casa a todo momento) é que ocorreu a grande reviravolta – muito vantajosa para alguns. Já vinha tudo pronto, não precisávamos mais criar a imagem na mente, pois ela passou a ser exatamente o que estava aparecendo na tela. Não tem debate, não tem discussão.
As TV’s e a qualidade de suas imagens e sons se desenvolveram, assim como a capacidade de pensar e metaforizar diminuiu.
Estamos em um mundo fake. Se aparece uma pessoa na tela, aquilo nos soa como uma verdade maior do que a pessoa real, que está viva e palpável em um outro lugar.
Eu já falei isto aqui na coluna: quando eu morava em São Paulo, encontrei o Edgar Scandurra em um bar. Eu já tinha ouvido e visto o Scandurra tantas vezes na TV, nas capas dos seus discos, nas revistas e nos jornais, que ele (o cara do meu lado) me pareceu ser a cópia de tudo aquilo que eu já tinha visto. Ele era a cópia de suas próprias cópias.
É o que a verdade está se tornando: a cópia da cópia dela mesma.
“-Nossa, que pôr do sol fantástico! Parece um cartão postal!” Só que o cartão postal é que parece o pôr do sol.
O povo assiste ao Datena mostrando os crimes que ocorrem na esquina ao lado e recebe aquilo como se fosse uma ficção. Virou um filme. Por outro lado, todo mundo acompanha a novela das 8 e passa a se portar como os personagens, a se vestir como eles e a adotar seus valores – às vezes até xingam o “vilão” na rua.
O deputado do castelo, que dá mais valor à sua cópia de castelo medieval em Minas do que à história da Idade Média; a revista Caras, que leva “famosos” para fotografar em propriedade aristocráticas como se eles frequentassem aqueles lugares; as pirâmides e a Torre Eiffel de mentira nos cassinos de Las Vegas; as batalhas entre os cowboys no Beto Carreiro… tudo nos faz perceber que estamos vivendo uma época em que simular é melhor do que ser, em que a verdade e o mundo palpável estão perdidos para nós, envoltos por um plástico, um látex, alguma coisa que não nos permite tocá-los.
obs: O Raul Seixas já foi preso porque o próprio público achou que ele não era ele.

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