A tecnologia avançada é um benefício, mas também um fetiche para a humanidade.
por Luís Paulo Domingues

Steve Jobs: perfeição para criar novas necessidades tecnológicas
O escritor argentino Néstor Canclini é um dos maiores estudiosos de comunicação, cultura e sociologia do quotidiano na América do Sul. Em seu livro “Consumidores e cidadãos”, Canclini investiga a cultura moderna no sentido de sua desterritorialização – face à realidade da globalização – e no da transformação da cidadania em consumo, ou seja, de cidadãos em consumidores.
Por que estamos nos transformando em consumidores ao invés de cidadãos? Porque o lugar do consumo foi tomando o lugar da cidadania no quotidiano do mundo atual. Isso aconteceu a partir dos anos 1950 com a “American Way of Life” e todas as suas promessas de felicidade através da compra e da posse de produtos inovadores e cada vez mais facilitadores do dia-a-dia – o que também mostrava que os americanos eram melhores que os outros (leia comunistas e seu modo de vida). Assim, todos os que seguissem o estilo de vida americano estariam no topo da pirâmide da felicidade e do bem estar.
A globalização só fez exacerbar esse sentimento de se precisar de algo que não se precisava antes, de não mais se conseguir viver sem a posse de certas coisas que a indústria e a mídia criam – novas necessidades que não existiam e que infestam as propagandas e os corações das pessoas.
No lugar, portanto, do homem cidadão, que deveria lutar para exercer sua cidadania e garantir seus direitos fundamentais, surge o homem consumidor, que luta para adquirir os produtos que estão em voga no dia de hoje e que amanhã já serão substituídos por outros melhores e tornar-se-ão completamente obsoletos.
Quarta-feira foi aniversário do Steve Jobs, dono da Apple e grande mestre em criar demandas. Seu último lançamento, o IPad, causou um alvoroço insano no mundo todo na semana passada, com multidões sonhando – simultaneamente ao anúncio do produto – em adquiri-lo o mais rápido possível, talvez mesmo sem saber para que serve exatamente a engenhoca.
Por que será que somos todos tomados por esse frenesi? Por que temos que ter a posse do novo produto no momento do lançamento, se é sabido que pouco tempo depois ele estará mais barato? Se sabemos que não vai acabar, que se todos os seis bilhões de habitantes quiserem e tiverem dinheiro para comprar, a indústria irá produzir seis ou mais bilhões de unidades?
Foi assim quando o Windows Vista foi lançado. Por que formaram-se filas enormes em frente às lojas para adquirir o produto no primeiro dia, se ele estaria lá no segundo dia, uma semana depois, três meses depois? E tudo isso para se descobrir mais tarde que o produto era muito ruim. Ninguém mais quer.
Não se engane, caro leitor. Aqui não fala nenhum apocalíptico da tecnologia, que acha que devamos voltar ao modo de produção pré industrial para sermos melhores. Eu sei que a tecnologia eletrônica, cibernética, robótica e sei lá mais quantas são grandes facilitadoras de nossas vidas. O que incomoda é o auê, é ter que ler o novo Harry Porter na madrugada do lançamento, só para sair dizendo: eu já li.
No caso do IPad de Jobs, trata-se de um computador portátil de diversas funções: é computador, é livro, é televisão… é tudo. E é bom.
O que se discute aqui, na verdade, é o fetiche pela novidade tecnológica. É aquilo que faz o mundo dos Jetsons (o desenho animado) ser o que é: um mundo regido pelo mito da dualidade entre o animal e o humano, o natural e o artificial, o primitivo e o avançado. Através das mensagens que a propaganda espalha, o homem pós-moderno só se sente humano nessas segundas opções. É um modo até legítimo de pensar, mas que tem lá suas muitas consequências.










