Nós pagamos pelos maus hábitos dos outros
Publicado no New York Times de 29 de Março de 2010
por Sandeep Jauhar (Cardiologista)
traduzido por Luís Paulo Domingues

Aumento de impostos fecha o cerco contra fumantes e comilões nos EUA.
Aumento nos impostos de saúde acendem a luz vermelha nos EUA: quem leva uma vida desregrada deve pagar a conta?
“-Eu estou cansado de pagar pela estupidez dos outros”, é um comentário que eu li na internet semana passada depois que a conta da reforma da saúde foi aprovada no Congresso americano. Esse pensamento veio somar com a visão de muitos americanos preocupados por terem que contribuir com taxas mais altas para cobrir os não segurados. Por que nós deveríamos pagar a conta quando tantas doenças em nosso país originam-se do mau comportamento com a saúde, como o fumo e comer em excesso?
Qual é o papel do Governo ao ajudar as pessoas a fazer uma escolha de vida saudável?
De fato, a maioria dos americanos diz que é justo exigir que as pessoas que mantém um estilo de vida prejudicial paguem mais pelo seguro de saúde. Nós americanos acreditamos no conceito de responsabilidade pessoal. Você ouve isso consultórios médicos, nos cafés, entre os operários e trabalhadores do comércio, e entre os executivos. Até o Presidente Obama disse “Nós temos que conseguir que o povo americano faça algo de bom pela própria saúde”.
Mas a responsabilidade pessoal sempre é um assunto complexo, especialmente quando o tema é saúde. Escolhas pessoais sempre envolvem conceitos amplos e complicados. Quando as pessoas pleiteiam a necessidade de cada um assumir sua responsabilidade pela conta da saúde, elas pressupõem mais controle sobre a saúde e a doença do que realmente podemos ter.
Hábitos prejudiciais são um fator que provocam doenças, mas muitos outros fatores são sociais, envolvem a renda ou a dinâmica das famílias, a genética e a educação. Os pacientes que não se submetem às recomendações médicas, sem dúvida, contribuem para uma saúde pobre, mas isso reflete muitos mais problemas como comunicação deficiente entre paciente e o profissional da saúde, os custos dos remédios, algumas barreiras culturais e recursos inadequados do que o desejo de desconsiderar um conselho do médico.
Poucos anos atrás, médicos do sistema público de Melbourne, na Austrália, estavam se recusando a fazer cirurgias de coração e pulmão em fumantes, mesmo que o paciente precisasse da operação para manter-se vivo. “-Por que os contribuintes deveriam pagar por isso?”, disse um dos cirurgiões entrevistados pela reportagem na época. “-Isso está consumindo recursos para uma pessoa que está contribuindo para seu próprio fim”.
Embora muitos australianos tenham ficado ultrajados com esse posicionamento – A Associação Médica da Austrália chamou de “inadmissível” taxar serviços médicos baseado em hábitos pessoais -, muitos médicos concordaram com o procedimento. Como a maioria dos americanos, eles não viram nada de errado no fato de os pacientes pagarem pela consequência de seus atos.
O problema é que medidas punitivas para forçar comportamentos saudáveis não costumam funcionar muito bem. Em 2006, o Estado da Virgínia do Oeste começou a recompensar os paciente que assinassem um compromisso para se inscrever em um plano de bem estar (e que se comprometessem a seguir as ordens de seus médicos), com benefícios que incluíam a cobertura completa de medicação, programas de ajuda ao abandono do fumo e acompanhamento nutricional. Aqueles que não assinassem eram inscritos em um plano mais restritivo que, entre outras coisas, limitava a cobertura de medicamentos a apenas 4 receitas por mês.
O programa da Virgínia está falhando, por muitos motivos. Em Agosto de 2009, apenas 15 por cento dos 160 mil pacientes escolhidos para o programa tinham aceitado assinar o documento. Pacientes com opções limitadas de transporte estavam encontrando problemas para se comprometer a gastar tanto tempo nas visitas periódicas obrigatórias aos consultórios de seus médicos. Além disso, dizem os especialistas, não há evidências de que a restrição aos benefícios dos que não assinam o programa promoveria comportamentos saudáveis nos pacientes.
A vida saudável deve ser incentivada, mas a punição a pacientes que escolhem o contrário é uma simplificação extrema de um assunto complexo.
Eu devo admitir que frequentemente me sinto como meus colegas, que se queixam de passar o dia todo tratando pacientes que não parecem cuidar da própria saúde e ainda exigem uma cura rápida. Isso porque eu eu tento sempre comer de modo certo e fazer exercícios o bastante. Mas aí eu me lembro que às vezes eu também envio mensagens de texto enquanto dirijo.
O ponto principal deste debate é a redução de riscos. Quando as pessoas investem contra a falta de responsabilidade no cuidado com a saúde, estão realmente exigindo um modelo diferente para a saúde, não apenas dividindo os custos por toda a sociedade. As pessoas doentes – os que exigem mudanças estão claramente dizendo isso – devem pagar mais.
Qual modelo nós eventualmente adotaremos neste país? Isso dirá muito sobre qual é o tipo de sociedade em que nós queremos viver.
Sandeep Jauhar é cardiologista e autor do livro “Intern: a Doctor’s Initiation.”