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Morte aumenta chance de Saramago cair nos próximos vestibulares

18/06/2010

Obra pode vir em questões sobre literatura, interpretação de texto e redação.
Autor é uma das referências da língua portuguesa.
Fernanda Nogueira
Do G1, em São Paulo

José Saramago morreu hoje em sua casa nas Ilhas Canárias.

A morte do escritor José Saramago aos 87 anos nesta sexta-feira (18) aumenta a chance de que sua obra, uma das grandes referências da língua portuguesa, seja tema de questões dos próximos vestibulares, segundo especialistas em literatura.
Livros do escritor, que foi o único autor da língua portuguesa a receber um prêmio Nobel de Literatura, já fizeram parte de listas de leitura obrigatória de várias instituições de ensino superior.

Apesar de estar fora da lista unificada de grandes vestibulares deste ano, como Fuvest e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professores entrevistados pelo G1 afirmam que questões que usem a obra dele como tema podem aparecer em provas de interpretação de texto e redação.
Segundo o professor de literatura da Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Pilati, a morte de um autor tão valorizado por críticos e leitores como Saramago fará com que seja bastante valorizado nos vestibulares. Um dos textos que já foram leitura obrigatória na UnB, segundo Pilati, foi o discurso que Saramago leu no Fórum Social Mundial, “Esse Mundo de Injustiça Globalizada”.
Segundo o especialista em Saramago da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Odil José de Oliveira Filho, que dá aulas no campus de Assis, no interior de São Paulo, os estudantes podem esperar que a obra do português esteja nos vestibulares, já que ele ocupará a mídia pelos próximos dias e semanas. “Os vestibulares têm o jornalismo impresso como fonte de elaboração, então deve aparecer, tanto nas provas de língua, interpretação, como nas questões literárias, da história da literatura. Acho justo que aconteça”, afirmou.
Pilati cita algumas obras de Saramago que merecem a repercussão que tiveram, como “Ensaio sobre a cegueira”, “Todos os nomes” e “A caverna”. “Ele consegue dar uma forma muito bem acabada, em termos de estética, ficcionais, às inquietações dele”, afirmou.

Evangelho
A posição política e ideológica marcantes, com grande crítica à Igreja Católica, como as obras “Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”, aliadas à inovação dos textos, são a marca de Saramago, segundo Pilati. “Esses aspectos se fundem em um só comportamento, que são marca do autor”, disse Pilati.
Para Oliveira Filho, a obra de Saramago foi dividida pelo próprio autor em duas grandes fases. Na primeira, ele pesquisou a “estátua”, o monumento histórico, como em “Memorial do convento”, “O ano da morte de Ricardo Reis” e “Jangada de pedra”.
A partir de “Ensaio sobre a cegueira”, o autor passa a pesquisar a “pedra”, que é a própria matéria, a vida contemporânea, segundo Oliveira Filho, como faz também em “Homem duplicado”. “A grande lição que Saramago deixa é a da inquietação, da possibilidade de pensar. Era um homem irrequieto. Sua maior virtude foi a reivindicação pela liberdade dos homens e de poder pensar”, disse Oliveira Filho.

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Mais uma lorota a ser seguida

Agora teremos que aguentar o filho “emo” do Fábio Jr.

Luís Paulo Domingues

Fiuk prometeu que se ficasse famoso trataria bem todos os seus fãs.

De tempos em tempos, a cúpula “pensante” que decide o que as pessoas irão consumir no Brasil – além de como e quanto a indústria cultural irá lucrar com isso -, inventa um novo nome, um novo produto arrebatador de corações e mentes.
A bola da vez é Fiuk, um misto de filho do Fábio Júnior, músico e artista. Durante a última semana, sua foto apareceu no canto de quase todos os sites de jornais e revistas que têm alguma área destinada aos “famosos”.
Eu não sei e nem quero saber se suas músicas – se é que são dele – têm algo de aproveitável. Não precisa. O que interessa é que ele é mais uma marionete fabricada para ser empurrada goela a baixo do “púbrico”, custe o que custar. E não interessa que você não seja parte do ‘púbrico” alvo. Tem que engolir. Sei também que pelo visual do rapaz e pelo nome da música escolhida para a nova abertura de “Malhação” (“Quem eu sou”), ele só pode ser “emo”.
Também sei que ele é ator da Malhação, o que é nada bom.
Ninguém aqui está discutindo a beleza do gajo. Fui obrigado a vê-lo todos esses dias nas páginas dos jornais on-line e concordo que ele realmente é bem bonito. Um gato. Apesar de que aquelas caras e bocas que mandaram ele fazer para atrair as menininhas nas fotos soaram um tanto falsas.
Mas no fundo é assim mesmo que os cartolas da música preparam um novo nome. Tem (!!) que soar falso. A falsidade é uma condição para atrair a malta de despreparados e alienados que vão sustentar a troca de informações pela internet, a venda de discos, a propaganda boca a boca, os gritinhos nos programas de auditório, o comércio de posters e broches, enfim, que vão garantir o prolongamento do negócio nos aproximadamente dois anos e quatro meses que vão durar a carreira da banda Hori – o nome da banda de Fiuk.
Para Fiuk, seria mais garantido investir tudo na carreira de ator, pois se ele tiver um mínimo de algo que possa ser uma veia dramática, a projeção das novelas globais irá bancá-lo por décadas. Mas a indústria cultural tem que lucrar em todas as áreas, então, já que ele tem uma banda…
Só que não adianta ser qualquer banda. Eles não podem fazer a música que eles quiserem e têm que vestir algo entre o alternativo e o circense. Em uma de suas fotos de divulgação, tiradas durante um show na chácara do Jockey Club, Fiuk parecia o ponto médio exato entre o Syd Barret (primeiro vocalista do Pink Floyd) e o palhaço Arrelia.
Como ele está no Brasil, precisa adotar aquela “humildade” alardeada pelos jogadores de futebol. O David Bowie, o Mick Jagger, o Liam Gallagher… nenhuma dessas pessoas inglesas precisa ser humilde. A humildade, na Inglaterra, não é uma condição para que alguém seja criativo e inteligente. No Brasil parece que é. Tanto que Fiuk segue a cartilha à risca e diz no programa “Altas Horas”:
“-Quando eu era menor, achava que se um dia encontrasse meus ídolos eles nunca me dariam bola. E decidi que se um dia eu ficasse famoso eu iria tratar bem todos os meus fãs.”
Por isso, a única coisa que o tira do sério, ainda segundo a entrevista, é quando alguém fala para ele ser humilde. “-É uma coisa que machuca”, garante. E justifica as críticas com uma originalidade extrema: “-Tem gente que não consegue ver a alegria dos outros”.
Fiuk também diz que gosta tanto de cantar, que acha que o palco é sua vida. “-Quero viver no palco, vou dormir no palco”.
Diante de tanta bobagem, resta a Fiuk torcer para que ele realmente NÃO tenha talento. Porque depois de toda essa coleção de clichês, será quase impossível convencer alguém de que ele quer e pode fazer alguma coisa interessante.

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Maluf, Clodovil e CIA

Há diferenças, sim, quando um voto é jogado fora por protesto.

Luís Paulo Domingues

clodovil

Clodovil Hernandes, pelo menos, levou a alta costura brasileira para o mundo. No Congresso, sua atuação foi pífia. Já Maluf é pífio em tudo.

Eu não tenho nada contra o Maluf. É claro que como jornalista eu só posso falar mal dele. Mas, como pessoa, eu não tenho nada contra. Na verdade, eu queria é sentar com ele um dia no bar do Japa e perguntar: “-Velho, o q-que tá acontecendo?” Só pode ser algum problema sério, talvez psiquiátrico.
Desde que eu era pequeno, só ouço o nome do Maluf envolvido com processos judiciais. As propagandas sobre suas grandes obras em São Paulo se esvaziam quando a imprensa noticia que foram exatamente essas obras as maiores causas de seus imbróglios com a justiça. Nos últimos tempos, com a nossa polícia federal e o Ministério Público muito mais atuantes, a situação do Maluf piorou muito, a ponto de ter sido preso e mantido na cadeia por uns tempos. Tudo bem, depois ele saiu, candidatou-se a deputado federal e ganhou.
É claro que ele não tem a mínima intenção de fazer alguma coisa no Congresso. O negócio do Maluf é o poder executivo, é lá que dorme seu paraíso de satisfação e que se desenvolvem os germes de sua possível doença.
Maluf tornou-se uma figura folclórica. As pessoas riem de suas aventuras e desventuras políticas e processuais, torcem por ele ou por sua prisão. Assim, nós vamos assistindo, aplaudindo, sendo coadjuvantes do nosso próprio espetáculo trágico, patético e bufo.
Existem muitos “Malufs” no Brasil. O Paulo é só um símbolo do coronelismo urbano paulista. Ele foi eleito com uma enxurrada de votos, mas desta vez os votos não vieram da ala que diz acreditar no slogan do “rouba mas faz”. Essa espécie de eleitores, graças a Deus, está em franca extinção. Os votos vieram de sua peculiaridade folclórica. É nessas pessoas, que costumam “provocar barracos” em público, que os indecisos e os que nunca pensaram em se decidir acabam votando. E com este tipo de pensamento: “-Ah, já que eu tenho que votar mesmo, vai o Maluf que já tá aí na mídia.”
A prova disso é a eleição do finado Clodovil. É óbvio que entre Clodovil e Maluf há diferenças oceânicas. Maluf precisava do cargo por causa da imunidade parlamentar, já que é réu em “n” processos, Clodovil precisava de um novo emprego. Clodovil é quem processava os outros, geralmente programas e redes de TV que usaram sua imagem e/ou ficaram lhe devendo na época em que trabalhava nessas empresas.
O salário de deputado federal é menor que o de um apresentador de TV, mas como Clodovil já havia passado por todas as emissoras e brigado com a direção de todas elas, não deixa de ser um grande quebra galho. O mais legal é que ele nunca fez questão de esconder isso. Uma vez, diante da recorrente pergunta “o dinheiro traz felicidade?”, Clodovil respondeu: “-Pode até não trazer, mas eu prefiro chorar dentro de uma Mercedes do que (sic) dentro de um ônibus lotado”.
O eleitor que escolheu Clodovil o fez pelo mesmo motivo que os eleitores de Maluf: “-Já ta na mídia, mesmo!”. Ou escolheu para protestar, como na época em que não havia urnas eletrônicas e os cariocas votaram em um hipopótamo chamado Cacareco. Clodovil e Maluf são os Cacarecos da era das urnas eletrônicas. O problema é que, na época do voto escrito, Cacareco (o hipopótamo) foi impedido de tomar posse, mas hoje, tanto Clodovil quanto Maluf assumiram seus cargos. Maluf está legislando – pelo menos é o que se supõe – sem problema algum.
Outros candidatos folclóricos, eleitos por suas ações e identidades pitorescas, foram Enéas (que também já passou desta pra melhor) e Frank Aguiar. Não é possível crer que o Enéas faz, fez ou pretendia fazer alguma coisa pelo Brasil (algo que ultrapassasse sua contribuição quixotesca à indústria do entretenimento). É claro, portanto, que votar no Enéas é uma atitude de protesto.
E o “Cãozinho dos teclados”? Frank Aguiar foi acusado de bater em Renata Banhara, a “famosa” atriz, jurada e participante de games na TV. Além disso, e de sua contribuição duvidosa à música popular brasileira, quais são suas propostas? O que ele colocaria na pauta do Congresso? Depois de seus milhares de votos, “desencanou” de ser deputado e “virou” vice-prefeito de São Bernardo do Campo.
Algumas figuras eleitas, como Fernando Collor e Augusto Farias (este era suplente, mas já assumiu), estão na nebulosa e perigosíssima região entre os folclóricos e os que realmente têm apoio e crença em suas intenções. Isso é um perigo, pois eles recebem votos dos dois lados e ainda contam com uma porção de eleitores que realmente acredita neles. Podem, também, ter comprado votos em seus currais eleitoreiros em Alagoas, mas eu me recuso a ter um pensamento tão vil.
Esse tipo de “voto folclórico” é ruim para o país, mas uns são piores que outros. Preferiria que o Clodovil continuasse lá, pintando seu gabinete. É melhor que ver o Maluf pintando o sete.

Por Luís Paulo Domingues

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06. jan, 2010
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O cigarro e os alienígenas

Algumas considerações (nem sempre) muito pertinentes sobre a lei do Serra.

Luís Paulo Domingues

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Este cara não seria Bogart sem o cigarrinho.

Há algum tempo, foi institucionalizado o mais novo frenesi dos paulistas. Povo completamente alucinado, os paulistas têm agora um novo assunto para ocupar o tempo e puxar papo: a lei anti-fumo (sei lá se isso tem hífen e nem quero saber).
Em primeiro lugar, esclareço que sou a favor da lei – pelo menos lá no Bar do Garcia o ambiente se tornou respirável, até os fumantes notaram. Mas o que não dá para aguentar é o fato social, o deslumbre, a sanha dos não fumantes. Alguns deles, geralmente de idade avançada, decidiram traçar uma cruzada contra o fumo, a ponto de, agora, até onde é permitido fumar fica parecendo que não pode.
Minha amiga estava em frente ao Shopping e viu três pessoas acendendo um cigarro no meio da rua. No meio da rua pode!!!! Mas uma senhora que passava com a filha começou a gesticular lá da outra calçada, dizendo que eles deveriam ir fumar em casa, pois estavam prejudicando a saúde dos não fumantes.
Eu disse que se tratava de uma cruzada dos não fumantes, mas podemos dizer, inclusive, que se trata de uma causa xiita. Quase terrorista.
A caça às bruxas está decretada e talvez as autoridades só se deem conta disso quando o primeiro fumante for linchado ou empalado em praça pública por estar fumando. Eu conheço alguns caçadores de bruxa – a maioria não tem nada o que fazer – que recorreriam sem pestanejar a ações super drásticas, como queimar tabacarias e executar sumariamente seus proprietários.
O frenesi da lei anti-fumo revela uma característica atávica do brasileiro. Na impotência de ir até Brasília e tirar o Sarney a tapa de lá de dentro, o brasileiro prefere eleger a bola da vez para ficar enchendo o saco. No momento, em São Paulo, são os fumantes. Mesmo os que fumam dentro da lei. No Brasil, é a gripe suína. Já recebi “n” e-mails com teorias da conspiração sobre a gripe – um deles envolvia um plano de ET’s para dominar a Terra.
A lei anti-fumo, por outro lado, é a redenção dos maconheiros. Eternamente empurrados para a marginalidade, os maconheiros se sentem agora no mesmo nível de subversão dos fumantes de Marlboro. Minha mãe está se sentindo praticamente uma atriz dos filmes do Truffaut. É uma incompreendida.
Falando em Marlboro e em maconha, por que será que o governador não pula com os pés no peito da indústria de cigarro? Não é tão confortável quanto pular no peito do fumante, é óbvio. Mas se faz tão mal, qual é a diferença entre o executivo da Philip Morris e o traficante da esquina ao lado? Ah! A legalidade! Então sugiro ao elegível governador que ponha as empresas de tabaco na ilegalidade. É um princípio de isonomia. Aproveite a ocasião e proíba a pinga, o vinho, a cerveja e o sexo. Não transaremos mais, por causa da possibilidade e risco de contrairmos AIDS, gonorréia ou crista de galo.
A lei é boa, o que não é bom são os inquisidores. É aquela coisa que o Kafka falava sobre delegar poder a quem não compete. O governo monta o esquema legal, tudo bonitinho, para que tudo corra dentro da lei e da civilidade. Aí vem o síndico do prédio, quase gozando de prazer, e monta uma Ku Klux Klã contra os fumantes. Mesmo que eles não fumem. Não importa que eles não fumem nunca mais, o que importa é que eles fumaram um dia. É que nem ex-gay. Ex-fumante não existe.
Enfim, se tudo isso não for um plano dos alienígenas para dominar a Terra – assim como certamente é a gripe suína – acho (repito) que a lei é boa. Eu só fumo no boteco, quando tomo cerveja. Agora, nem no boteco.
obs: Neste momento, algum alucinado deve estar pensando em como cortar todas as cenas de cigarro do filme Cassino.

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06. jan, 2010
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O Império da Cópia

Você já teve que tocar algo para saber se era de verdade?

Por Luís Paulo Domingues

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Foto dos revolucionários russos: posteriormente, Stalin, o da esquerda, mandou apagar Trotsky, o da direita, desta foto. Transformou a imagem numa verdade maior.

Nada incorpora mais a alma dos seres humanos ocidentais modernos do que o Xérox. Ou melhor, a máquina de fotocópias que acabou sendo chamada assim porque todo mundo só usava a de uma marca.
Ao longo do século XX, fomos nos moldando ao mundo das imagens e abandonando o mundo das palavras. O cinema e a TV causaram uma hipnose global pelas “verdades” que estão expressas nas imagens, a ponto de não nos prestarmos mais a gastar tempo com metáforas. Afinal, “a imagem está ali, nua e crua; a imagem não mente, pois eu estou vendo isto ou aquilo; ninguém me contou, eu vi”.
Mas é muito mais fácil contar uma mentira através de uma imagem. É muito simples embutir um discurso em uma fotografia e fazer com que todos acreditem que é aquilo ali mesmo. É só uma questão de contexto.
O mais incrível nesta ditadura da imagem é que não se trata da imagem que estamos vendo agora, na rua, neste momento. Não é a imagem real que transmite nossa moderna ideia do que seja a verdade, mas sim a imagem simulacral, aquela que chega a nós através de uma mídia: do cinema, da TV, da tela do computador, do IPod, do celular…. aí sim é que mora nossos conceitos e nossos padrões do que é válido, do que existe, do que é certo.
Ao longo do século XX, fomos perdendo a capacidade de discernir os acontecimentos do mundo e de nossas vidas sem o intermédio desses aparelhos. Tudo começou com o rádio, mas o rádio era frio demais, a pessoa tinha que pensar na imagem, tinha que criar.
Com a TV (o cinema já existia, mas não estava dentro de casa a todo momento) é que ocorreu a grande reviravolta – muito vantajosa para alguns. Já vinha tudo pronto, não precisávamos mais criar a imagem na mente, pois ela passou a ser exatamente o que estava aparecendo na tela. Não tem debate, não tem discussão.
As TV’s e a qualidade de suas imagens e sons se desenvolveram, assim como a capacidade de pensar e metaforizar diminuiu.
Estamos em um mundo fake. Se aparece uma pessoa na tela, aquilo nos soa como uma verdade maior do que a pessoa real, que está viva e palpável em um outro lugar.
Eu já falei isto aqui na coluna: quando eu morava em São Paulo, encontrei o Edgar Scandurra em um bar. Eu já tinha ouvido e visto o Scandurra tantas vezes na TV, nas capas dos seus discos, nas revistas e nos jornais, que ele (o cara do meu lado) me pareceu ser a cópia de tudo aquilo que eu já tinha visto. Ele era a cópia de suas próprias cópias.
É o que a verdade está se tornando: a cópia da cópia dela mesma.
“-Nossa, que pôr do sol fantástico! Parece um cartão postal!” Só que o cartão postal é que parece o pôr do sol.
O povo assiste ao Datena mostrando os crimes que ocorrem na esquina ao lado e recebe aquilo como se fosse uma ficção. Virou um filme. Por outro lado, todo mundo acompanha a novela das 8 e passa a se portar como os personagens, a se vestir como eles e a adotar seus valores – às vezes até xingam o “vilão” na rua.
O deputado do castelo, que dá mais valor à sua cópia de castelo medieval em Minas do que à história da Idade Média; a revista Caras, que leva “famosos” para fotografar em propriedade aristocráticas como se eles frequentassem aqueles lugares; as pirâmides e a Torre Eiffel de mentira nos cassinos de Las Vegas; as batalhas entre os cowboys no Beto Carreiro… tudo nos faz perceber que estamos vivendo uma época em que simular é melhor do que ser, em que a verdade e o mundo palpável estão perdidos para nós, envoltos por um plástico, um látex, alguma coisa que não nos permite tocá-los.
obs: O Raul Seixas já foi preso porque o próprio público achou que ele não era ele.

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Entrevista com Albert Speer Jr: Arquitetura de Futuro Sustentável

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Publicado na revista Nature de 22 de Outubro de 2009
tradução: Luís Paulo Domingues

O arquiteto alemão Albert Speer Jr. é um pioneiro em construção de prédios e cidades planejadas e tem se firmado como grande designer de comunidades ecológicas de Colônia a Xangai. Com a publicação de um novo livro que aborda sua filosofia, ele expõe por que nós deveríamos adotar uma aproximação mais holística do desenvolvimento urbano.

O que a sustentabilidade significa para você?

Significa que nós não podemos, nas próximas gerações, usar recursos que não sejam reaproveitados. Em todos os locais, nós ainda precisamos de muita energia e de muitas outras coisas – como mobilidade, terra, transporte… A sociedade ocidental pensa em setores e não em círculos – como é o pensamento holístico. Nós precisamos ser mais holísticos e interdisciplinares.

Você está otimista quanto ao poder da arquitetura para desenhar cidades sustentáveis?

A arquitetura e o planejamento controla grosseiramente 5% de todas as decisões exigidas para governar uma cidade: o resto é política, ou é baseado em diferentes interesses econômicos. É preciso de uma equipe interdisciplinar, que é o que falta em muitos corpos governamentais.
O mundo está levando muito tempo para fazer decisões importantes. Levamos aproximadamente duas décadas para termos o pensamento sustentável na mente dos políticos e dos governos desde a conferência do Rio de Janeiro, em 1992.

A China está construindo muitas novas cidades – qual é a aproximação deles com a sustentabilidade?

Pela minha experiência, eu sinto que a cultura chinesa é melhor organizada para gerir problemas do que outras. Nós estamos projetando novas eco-cidades na China, onde desenhamos a infra-estrutura e o planejamento urbano. Nosso alvo principal é proteger o meio ambiente e reduzir a quantidade de terras rurais que são convertidas em cidades. O pensamento chinês é direto e prático e eles tomam decisões rápidas. Minha impressão é que nem todas as coisas estão na direção certa com os chineses, mas eles estão aprendendo rapidamente e querem construir coisas de modo diferente do que no passado.

Existe diferença entre o trabalho em países desenvolvidos e em países em desenvolvimento?

Em geral, os problemas são os mesmos, mas as soluções são muito diferentes. Em países em desenvolvimento, existe muita urbanização, pois as cidades estão crescendo. Na Europa e em outros países a população está decaindo, as cidades não estão mais crescendo, então o ideal é se concentrar nas partes da cidade existentes, ao invés de pensar no desenvolvimento ou na construção de novos centros urbanos.

Cada lugar precisa de sua própria aproximação da sustentabilidade?

As preocupações com o clima, meio ambiente, esgotamento da terra, transportes e participação cívica são as mesmas em qualquer lugar. A arquitetura será similar em todo o mundo porque as pessoas precisam de espaços similares. Mas todas as cidades precisam pensar mais em suas próprias características e oportunidades, bem como em sua paisagem, cultura, história e futuro. O desenvolvimento urbano integrado tornar-se-á mais importante porque as cidades estão todas competindo entre si.

Isso é verdade para megacidades como Teerã, Manila ou Cairo?

Se você olhar para essas cidades mais detalhadamente, verá que elas não são lugares para 10 ou 50 milhões de pessoas. Lá há 15 ou 20 cidades com 800.000 a 2 milhões de pessoas. Não é realista parar o desenvolvimento dessas cidade. Nós temos que vê-las como um policentro, e incentivar o tanto quanto elas puderem melhorar em funcionalidade.
Por exemplo: eu estou envolvido em um projeto que começou há 25 anos para reestruturar uma cidade de 3 milhões de habitantes que fica dentro de Cairo. É chamada de “Cidade de 6 de Outubro” e fica bem atrás das pirâmides. Muitas coisas têm sido construídas lá, mas o transporte público é falho, não existe cinturão verde e o planejamento urbano é muito desordenado. Nosso plano básico foi adotado este ano e nós estamos agora na fase de coordenação do desenvolvimento.

As cidades necessitam de engenharia social também?

Sim. O desenvolvimento urbano e as cidades sustentáveis têm muito a fazer pelas pessoas que moram dentro delas. No ano passado, em Colônia, nós apresentamos um plano gerenciador para a região central – que tem 130 mil habitantes – e a participação cívica foi uma grande parte de nosso trabalho. Em princípio, o interesse foi minoritário, mas depois de um ano nossas palestras estavam todas cheias. Mas a participação cívica não pode ser estimulada por uma aparição pública e uma palestra. Ela tem que continuar acima nas preocupações por muitos anos.

Qual foi a maior mudança durante sua carreira?

O pensamento holístico é mais aceitável agora. Quando eu comecei a planejar cidades ecológicas, há 30 anos, a palavra “ecológico” dificilmente aparecia. Por causa da tecnologia e da globalização, é mais fácil agora comparar sua própria situação com o que acontece em outros lugares.

Qual é a sua cidade favorita?

Na Europa é Barcelona. Todas as coisas que nós estamos debatendo – transporte, espaços verdes e tantos outros – estão integradas dentro de um tecido humano. Na Ásia é Cingapura, que é uma cidade muito densa em população, mas muito verde e com ótima qualidade de vida.

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D’Incao exibe filme Persepolis

Persepolis
D’Incao exibe o filme Persepoilis, hoje (17/10) – 20h:00.
Persepolis conta a história, na visão de uma criança, do Irã e sua revolução, bem como sua guerra contra o Iraque. É nesse plano de fundo que acompanhamos o crescimento de uma engraçada e curiosa menina iraniana, Marjane, que sonha em ser uma profetisa do futuro, para assim salvar o mundo.
Querida pelos pais cultos e modernos e adorada pela avó, ela acompanha avidamente os acontecimentos que conduzem à queda do xá e de seu regime brutal. A entrada da nova República Islâmica inaugura a era dos “Guardiões da Revolução”, que controlam como as pessoas devem agir e se vestir. Marjane, que agora deve usar véu, deseja se transformar numa revolucionária. Mas, para tentar protegê-la, seus pais a enviam para a Áustria.
Local: D’Incao Instituto de Ensino: Rua Dr. Fuas de Mattos Sabino, 15-65.

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17. out, 2009
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O império da cópia

Nossa referência do que é a verdade passou a ser aquilo que copia alguma coisa. As máquinas transformaram a simulação em uma verdade maior.

Por Luís Paulo Domingues

narciso

Estamos nos apaixonando pelo reflexo do que nós realmente somos?

Nada incorpora mais a alma dos seres humanos ocidentais modernos do que o Xérox. Ou melhor, a máquina de fotocópias que acabou sendo chamada assim porque todo mundo só usava a de uma marca.
Ao longo do século XX, fomos nos moldando ao mundo das imagens e abandonando o mundo das palavras. O cinema e a TV causaram uma hipnose global pelas “verdades” que estão expressas nas imagens, a ponto de não nos prestarmos mais a gastar tempo com metáforas. Afinal, “a imagem está ali, nua e crua; a imagem não mente, pois eu estou vendo isto ou aquilo; ninguém me contou, eu vi”.
Mas é muito mais fácil contar uma mentira através de uma imagem. É muito simples embutir um discurso em uma fotografia e fazer com que todos acreditem que é aquilo ali mesmo. É só uma questão de contexto.
O mais incrível nesta ditadura da imagem é que não se trata da imagem que estamos vendo agora, na rua, neste momento. Não é a imagem real que transmite nossa moderna ideia do que seja a verdade, mas sim a imagem simulacral, aquela que chega a nós através de uma mídia: do cinema, da TV, da tela do computador, do IPod, do celular…. aí sim é que mora nossos conceitos e nossos padrões do que é válido, do que existe, do que é certo.
Ao longo do século XX, fomos perdendo a capacidade de discernir os acontecimentos do mundo e de nossas vidas sem o intermédio desses aparelhos. Tudo começou com o rádio, mas o rádio era frio demais, a pessoa tinha que pensar na imagem, tinha que criar.
Com a TV (o cinema já existia, mas não estava dentro de casa a todo momento) é que ocorreu a grande reviravolta – muito vantajosa para alguns. Já vinha tudo pronto, não precisávamos mais criar a imagem na mente, pois ela passou a ser exatamente o que estava aparecendo na tela. Não tem debate, não tem discussão.
As TV’s e a qualidade de suas imagens e sons se desenvolveram, assim como a capacidade de pensar e metaforizar diminuiu.
Estamos em um mundo fake. Se aparece uma pessoa na tela, aquilo nos soa como uma verdade maior do que a pessoa real, que está viva e palpável em um outro lugar.
Eu já falei isto aqui na coluna: quando eu morava em São Paulo, encontrei o Edgar Scandurra em um bar. Eu já tinha ouvido e visto o Scandurra tantas vezes na TV, nas capas dos seus discos, nas revistas e nos jornais, que ele (o cara do meu lado) me pareceu ser a cópia de tudo aquilo que eu já tinha visto. Ele era a cópia de suas próprias cópias.
É o que a verdade está se tornando: a cópia da cópia dela mesma.
“-Nossa, que pôr do sol fantástico! Parece um cartão postal!” Só que o cartão postal é que parece o pôr do sol.
O povo assiste ao Datena mostrando os crimes que ocorrem na esquina ao lado e recebe aquilo como se fosse uma ficção. Virou um filme. Por outro lado, todo mundo acompanha a novela das 8 e passa a se portar como os personagens, a se vestir como eles e a adotar seus valores – às vezes até xingam o “vilão” na rua.
O deputado do castelo, que dá mais valor à sua cópia de castelo medieval em Minas do que à história da Idade Média; a revista Caras, que leva “famosos” para fotografar em propriedade aristocráticas como se eles frequentassem aqueles lugares; as pirâmides e a Torre Eiffel de mentira nos cassinos de Las Vegas; as batalhas entre os cowboys no Beto Carreiro… tudo nos faz perceber que estamos vivendo uma época em que simular é melhor do que ser, em que a verdade e o mundo palpável estão perdidos para nós, envoltos por um plástico, um látex, alguma coisa que não nos permite tocá-los.
obs: O Raul Seixas já foi preso porque o próprio público achou que ele não era ele.

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06. out, 2009
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D’Incao Instituto de Ensino exibe “O Processo”

o processo

O Cine&Arte, projeto de cinema do D’Incao Instituto de Ensino, exibe neste Sábado a obra prima “O Processo”, de Orson Welles. Inspirado no romance homônimo do escritor Tcheco Franz Kafka, “O Processo” traz um instigante e sempre atual questionamento sobre a eficiência do Estado.
Joseph K. (Anthony Perkins) é um homem reservado, que vive na pensão da senhora Grubach (Madeleine Robinson) e se dá bem com todos os demais moradores do local. Um dia ele é acordado por um inspetor de polícia (Arnoldo Foà), que lhe informa que está preso, mas não o leva sob custódia. Durante o processo, Joseph segue com suas atividades normais, tendo apenas que ficar à disposição das autoridades a qualquer hora do dia. Incomodado por não saber do que está sendo acusado, ele decide investigar em busca de uma resposta.
O que ele encontra é um Estado inchado pela burocracia, onde um indivíduo comum está tão longe do poder, que nunca consegue se comunicar com o governo ou com a justiça. Nesse complicado labirinto burocrático, a maioria das pessoas e dos departamentos é inútil e só está ali para sustentar a existência e a reverência a um Estado gigantesco.
Buscar uma resposta para seu processo e para essa incompreensível e absurda burocracia é o que o leva à morte. Ele questionou demais.
O Cine&Arte acontece quinzenalmente, sempre aos Sábados, na sede do D’Incao Instituto de Ensino, às 20 horas. A apresentação é dos professores Luís Paulo Domingues e Pedro D’Incao.

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