O fanatismo pelo time de futebol ultrapassa qualquer explicação plausível
Por Luís Paulo Domingues

Nem Deus, nem a família, nem o amor: o Vasco da Gama é o que importa para o cidadão da foto.
Estamos na era do fanatismo religioso? Sim e não. As atitudes extremistas em nome da fé permearam toda a história da humanidade. Sua capacidade para angariar adeptos e causar furor teve altos e baixos. Convivemos, porém, tão intimamente com o terrorismo religioso – através das imagens jornalísticas -, que parecemos estar nos acostumando com ele.
O fanatismo no mundo do futebol é outro fenômeno que intriga e que vai se tornando comum. Além do fanático que briga, xinga e usa de violência para conseguir sabe-se lá o quê, o futebol também apresenta uma outra figura, que não aparece no caso das religiões: é o chato futebolístico.
Trata-se daquelas pessoas que se excitam passando na frente das outras, exibindo o símbolo do time, fazendo caretas, com uma empolgação ridícula no semblante, dizendo impropérios com o intuito de depreciar o time alheio. Na religião não tem muito disso (eu acho). Se um judeu passar na frente de um grupo de budistas e ficar gritando “judeeuuu!!! Ehhh OOhhh!!!”, as coisas vão acabar em incidentes político-religiosos graves. Não será apenas uma provocação de palmeirense.
No último jogo do Campeonato Brasileiro do ano passado, como sempre, abriu-se um terreno fértil para as mais estapafúrdias demonstrações de amor ao próprio time e ódio ao dos outros. O saldo da balbúrdia e da imbecilidade foi grande: dois sãopaulinos feridos à bala (um na cabeça, por um policial, em frente às câmeras de TV) e um vascaíno desconsolado querendo se atirar da marquise do estádio.
Se eu quisesse me matar cada vez que meu time, a Portuguesa de Desportos, caísse para a segunda divisão, já teria morrido três vezes – uma no final do ano passado. Com este último rebaixamento, eu já vi a Lusa cair para a segundona duas vezes no brasileiro e uma no paulista.
Eu acompanhei a última chance da Portuguesa com os amigos, lá no barzinho do Tênis de Campo. Na hora que o jogo acabou, eu me limitei a um ou dois “tchh!!! Droga”. Nada de revolta ou tristeza. Demora, mas depois ela levanta de novo.
Voltando ao vascaíno ensandecido, vocês já pensaram se ele cai lá de cima? Imaginem morrer por causa do Vasco? E o fantasma do Eurico Miranda a rondar, sem trégua, sua alma pela eternidade? É um contra-senso histórico. Luc Ferry, aquele filósofo que saiu nas páginas amarelas da Veja – o que foi Ministro da Educação da França e proibiu as crianças muçulmanas de usarem véu na escola -, disse que hoje em dia o homem ocidental só aceita morrer pela família. Não quer mais morrer nem pela pátria, nem por qualquer ideal revolucionário, nem por Deus. Se nem os evangélicos aceitam morrer por seu Deus, como é que o sujeito vai querer morrer pelo Vasco da Gama?
É incrível que, neste caso, nem mesmo os muçulmanos radicais (que ainda aceitam morrer por seu Deus) morreriam por seu time de futebol. Pelo menos, não se tem notícia de que algum jordaniano tenha cometido suicídio por causa da derrota do Shabab Al Ordon Al Qadisiya, o time preferido na Jordânia.
O espírito esportivo que o Barão de Cubertin quis fomentar no mundo é exatamente o contrário desses arroubos “galvãobuenísticos”, essas explosões de lágrimas, esses orgasmos de júbilo dominicais. Tem muito mais a ver com um jogo há duas ou três copas do mundo, quando os EUA enfrentaram o Irã. As projeções de violência em campo foram diluídas pela atitude dos jogadores, que se presentearam mutuamente em campo, antes da partida, deixando claro que a guerra é criada e alimentada por uma cúpula.
Seria muito mais plausível se o vascaíno se matasse depois de um título do Vasco, ao perceber que sua vida continuaria a mesma.