26 de abril de 2010 | 0h 00
Caros alunos do D’Incao e leitores externos: leiam este texto antes da matéria do Estadão. É meio longo, mas vale à pena.
Por Luís Paulo Domingues
D’Incao On Line

Ciro é deixado só pelo PSB: meio óbvio.
A matéria abaixo só vem confirmar que a prática quotidiana da política se transformou há muito tempo num jogo de comadres, onde paga-se e recebe-se muito bem por apoios e indicações (veja o caso da Secretaria dos Portos, abaixo). Jura-se amor por uma bandeira, enquanto o juramento for recompensado por poder, influência ou dinheiro.
Ciro Gomes queria ser presidente. Até aí, nenhuma novidade. Para tanto, em 1998 e em 2002, na ocasião da primeira eleição vitoriosa de Lula, Ciro “alugou” o PPS, que o lançou como candidato. O PPS (Partido Popular Socialista) é um partido que se diz de esquerda, já tinha sido PCB (Partido Comunista Brasileiro), e agora “aluga” vaga para quem quer fazer jogo de cena e atingir objetivos não muito coerentes na carreira política.
Uma vez este jornalista entrevistou um deputado federal do PPS de Araraquara, cidade aqui ao lado. Perguntei se ele, sendo do Partido Popular Socialista, acreditava mesmo que o Brasil poderia se transformar em um país socialista. Queria saber até que ponto ele acreditava na abolição da propriedade privada, na socialização dos meios de produção, no regime de partido único… e ele respondeu que nunca acreditara nesse socialismo científico. Ou seja, ele nunca havia acreditado em nada, no que diz respeito ao S do PPS.
Esses mesmos interesses que fazem as pessoas se ligarem a partidos e a grupos por conveniência fizeram Ciro ingressas no PSB. O PSB é o Partido Socialista Brasileiro, que assim como o combalido PPS, teve um notório e valoroso passado (leiam sobre Miguel Arraes, fundador do PSB), mas agora é uma legenda de aluguel que só serve para aumentar a base governista ou oposicionista de seja quem for.
Dentro do PSB, Ciro foi nomeado Ministro do governo Lula. Agora aparece em entrevistas pelo Brasil afora dizendo que Dilma não é preparada, que Serra é melhor, que a aliança do PT com o PMDB é amoral… só porque seu partido (rezando a cartilha do “paga e leva” da política brasileira) recusa-se a lançá-lo candidato à presidência.
Para um político como Ciro, que começou no PDS (a Arena, dos militares), foi para o “amoral” PMDB, depois (por anos) para o PSDB e mais tarde para os agora insossos PPS e PSB, a revolta é que soa amoral. A não ser que a gente se dê por vencido, veja no tal jogo de comadres uma política lícita e diga: “-Ah, política é assim mesmo!”
Aí então Ciro tem Razão.
Eugênia Lopes, de Brasília – O Estado de S.Paulo
A um dia de perder a legenda para disputar a Presidência da República, o deputado Ciro Gomes (CE) transformou-se em alvo de fogo amigo do próprio PSB. Em retaliação às críticas desferidas pelo deputado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PSB, integrantes da cúpula partidária defendem que Ciro perca os cargos que possui no governo.
Na mira dos dirigentes socialistas está a Secretaria de Portos, que tem status de ministério, sob o comando de Pedro Brito, homem de confiança de Ciro Gomes. A Secretaria de Portos comanda sete Companhias Docas pelo Brasil e foi criada pelo presidente Lula, em 2007, para atender à reivindicação do PSB de mais espaço no governo.
Secretário executivo de Ciro Gomes no Ministério da Integração Nacional, no primeiro mandato de Lula, Brito ganhou o cargo por indicação do deputado. Antes, ele ocupou por quase um ano a titularidade da pasta da Integração Nacional, com a saída de Ciro Gomes para disputar uma cadeira na Câmara, em 2006. O sucessor de Brito na Integração Nacional foi o peemedebista Geddel Vieira Lima, hoje candidato ao governo da Bahia.
O Orçamento de 2010 para a Secretaria de Portos é de R$ 1,5 bilhão. Desse total, R$ 300 milhões já foram empenhados, ou seja, podem ser usados, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). São 34 portos públicos marítimos sob a gestão da secretaria e sete Companhias Docas: do Pará, do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, responsável pelo Porto de Santos.
A Executiva Nacional do PSB se reúne amanhã para bater o martelo sobre a retirada da pré-candidatura de Ciro da corrida presidencial. A expectativa é que o partido apoie a candidatura de Dilma Rousseff (PT).
Em troca, o PT deverá permitir que partidos aliados se coliguem com o PSB em alguns Estados. Seria o caso de São Paulo, onde o pré-candidato do PSB ao governo, Paulo Skaf, quer atrair para sua chapa o PR e o PC do B.
As críticas feitas por Ciro a Lula e ao PSB irritaram integrantes da cúpula do partido, que, nos bastidores, passaram a defendem as retaliações.
O presidente do partido e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, não gostaram da reação de Ciro diante da iminência de ter a candidatura negada. O deputado os acusou de não estarem “no nível que a história impõem a eles”. Outro que ficou aborrecido foi Lula, que foi surpreendido com a comparação feita entre Dilma e o pré-candidato tucano, José Serra. Ciro disse que “Dilma é melhor do que Serra como pessoa, mas o Serra é mais preparado, mais legítimo, mais capaz”.
Polêmica. A ordem do Palácio do Planalto e do PSB é, no entanto, evitar responder às críticas e não polemizar com Ciro. Na avaliação dos socialistas, a candidatura dele perdeu densidade com a polarização da eleição presidencial entre Dilma e Serra.
Um dos sinais de que o próprio Ciro teria jogado a toalha em relação a sua entrada na disputa foi o fato de Pedro Brito não ter se desincompatibilizado, no início de abril, para disputar uma vaga na Câmara pelo Ceará.
Na reunião da Executiva do PSB, a direção apresentará levantamento que mostra a maioria dos diretórios hoje contra a candidatura Ciro.