Bin Laden e os bárbaros

Americanos comemoram nas ruas, sem saber qual guerra venceram.

Luís Paulo Domingues
D’Incao Instituto de Ensino

Não dá para entender por que os americanos, com sua proverbial paixão pelo espetáculo público, jogaram o corpo de Bin Laden no mar.
O mais normal neste episódio, em se tratando dos Estados Unidos, seria mumificar o corpo de Osama e deixá-lo exposto à visitação pública em Washington. Com o Saddam, vivo, eles fizeram quase isso.
Não consigo crer neste diálogo entre os comandantes americanos:
“-Matamos Bin Laden. Para onde levaremos o corpo?”
“-Jogue no mar.”
É incrível como os americanos conseguem ser tão incompetentes em política externa e tão geniais em criar espetáculos. Se excluirmos do debate a vitória americana na Segunda Guerra, os EUA perderam tudo, mas saíram como se fossem os vencedores.
Os americanos se meteram na Coreia: o país foi dividido em dois e a parte norte se transformou em um proto-regime comunista, comandado por um lunático que possui armas nucleares.
Os americanos se meteram no Vietnã: perderam vergonhosamente a guerra contra guerrilheiros paupérrimos. E a vergonha só não é maior, porque o cinema os mostrou como jovens coitados, que foram espancados, torturados e massacrados por poderosos e covardes assassinos orientais.
Os americanos se meteram no Camboja: fugiram pelo teto da embaixada em uma cena idêntica à queda de Saigon, no país vizinho.
Os americanos se meteram no Irã: o povo derrubou a monarquia ditatorial do Xá Reza Pahlevi (corrupto e colaborador dos americanos) e preferiu a ditadura dos aiatolás.
Os americanos se meteram no Afeganistão: a CIA armou e treinou os guerrilheiros afegãos, para que eles derrotassem os invasores soviéticos. Os soviéticos foram embora em 1988, derrotados, e os mesmos guerrilheiros derrubaram o World Trade Center em 2001.
A morte de Bin Laden foi comemorada como uma final de campeonato nacional de baseball ou basquete. Colocaram um ponto final, com sabor de vitória, em algo que ainda não acabou.
Fizeram a mesma coisa em 2003, quando tomaram Bagdá. Bush foi até o Golfo Pérsico e fez o discurso da vitória a bordo de um porta-aviões, em frente a uma imensa faixa com os dizeres: “Missão Cumprida”. Estamos em 2011 e os americanos ainda estão lá no Iraque, levando bomba a todo momento.
Os americanos prometem uma democracia ideal para o mundo, baseada em um monte de mentiras. Osama Bin Laden morreu no momento em que as populações árabes desencadearam revoltas para derrubar seus ditadores patrocinados pelo ocidente (leia-se USA). É cômico e trágico que as possíveis democracias que nascerão das revoltas árabes podem (e algumas vão) eleger governos fundamentalistas islâmicos. Iguais ao do Irã – que é o demônio, segundo os EUA.
É claro que não podemos analisar a questão árabe apenas sobre esse prisma – o de que a democracia só traria mais problemas ao mundo islâmico. Mas o fato é que já vimos essa história antes. Democracia não é sinônimo de bem estar – como querem os americanos, quando e onde convém a eles. Hitler, por exemplo, foi eleito pelo povo.
Outro dia eu assisti a um documentário que defendia, com fortíssimos argumentos, que os americanos jamais pisaram na lua. Tratava-se, segundo o filme, do que os americanos sempre fizeram muito bem: um espetáculo para o povo. As imagens da população americana nas ruas e dos fogos para comemorar a conquista da lua foram sobrepostas às dos soviéticos nas ruas soltando fogos para comemorar, em 1961, a ida de Yuri Gagarin ao espaço. Uma competição entre dois times e duas torcidas.
Aos que simpatizam com tudo o que os americanos fazem, minhas sinceras desculpas. Mas a comemoração de uma vitória que não existiu (os EUA estão lá no Afeganistão, tomando tiro), bem no momento em que a corrida pela reeleição de Obama se inicia, só pode ser explicada pela alienação total do povo americano.
Mesmo com todo o conhecimento acumulado por milênios, com toda a ciência e a tecnologia avançadas que o homem desenvolveu, a nação mais importante do mundo se comporta como um bando de bárbaros comemorando um saque.

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