10 de maio de 2011 | 0h 00
Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo
Osama é o único assunto. Jurei que não escreveria sobre ele, mas esse homem não me sai da cabeça. Aí, resolvi telefonar para o Nelson Rodrigues para ver sua opinião. Disco o telefone preto intergaláctico, pois o Nelson me ajuda a “não” pensar com as falsas luzes do bom senso, das causas e efeitos. O telefone toca. Já ouço as risadinhas dos querubins, em volta de Nelson na nuvem de algodão no céu de estrelas de papel prateado, como nos teatros da Praça Tiradentes.
- Nelson… sou eu, o Arnaldo…
- Você me ligando, rapaz, como um telefonista de si mesmo. Achei que tinha me esquecido…
- O negócio é o seguinte, Nelson, estou besta com a morte do Osama…
- Eu também, rapaz… O sujeito acabou de entrar aqui, com guarda-costas e tudo e foi correndo para o paraíso islâmico aí do lado…
Está uma barulheira danada, com todo mundo de camisola gritando “Só Alá é grande”. Deus Pai não liga muito, mas fica vagamente irritado com esse nome; ele e Alá são iguais. Com a chegada do Osama, resolvi dar uma “espiadinha” no paraíso deles…
Rapaz, parece o baile do Bola Preta! Os terroristas são tratados a pão de ló e goiabada. O Muhammad Atta, aquele chefe suicida do 11 de Setembro, estava deitado numa cama de ouro, com odaliscas do Catumbi rebolando a dança do ventre e, quando o Osama entrou, as mil virgens pularam em cima dele, pedindo autógrafos, macacas de auditório com asinhas… É… Osama é um galã de novela… Aí embaixo também; estávamos apaixonados por ele ao avesso e não sabíamos. Eu confesso que acho ele um craque…
- Como assim? – pergunto, como nos maus diálogos.
- Porque ele criou o primeiro acontecimento do século 21. Tudo que os russos quiseram fazer, ele fez em meia hora. E mudou o Ocidente.
A América perdeu a “máscara”, estavam muito folgados na época… Agora, voltaram como caubóis, mas a vida não será a mesma. Vão continuar procurando bombas em bueiros. O Ocidente sempre teve o alvo da finalidade, do progresso. O Islã, não; quer o imóvel, a verdade incontestável. Eles não vivem na História; vivem na eternidade. Agora tem os rebeldes árabes; vamos ver se vão preferir a democracia mesmo ou os dogmas assassinos do Osama. De qualquer modo, os americanos vão ter de incluir a morte em seu dia a dia. Não poderão esquecê-la como sempre tentaram. Ficarão mais “orientais”, mais fatalistas… Isso pode até ser bom.
- Como assim? – repito na minha obtusidade.
- Rapaz, me admira você não ver isso: para eles, nós somos o Mal. Eles são o Bem. Aí, a jogada genial do Barack Obama foi ser também o Mal deles. Os cães infiéis atacaram de volta… Você disse uma frase na TV que eu até gostei: “Tudo foi cinema. Começou como Godzilla em 2001 e agora acabou como Duro de Matar… Você devia abrir uma lojinha de frases…
- Quem sou eu, Nelson?…
- E agora, todo mundo tira casquinha da vitória do Obama. Os republicanos berram: “Se não fossem nossas torturas, não achavam o homem!” Do outro lado, gemem os éticos e idiotas da objetividade: “Foi ilegal – e nossos valores?” Esses caras já nascem com uma ética pré-fabricada e não se curvam ao intempestivo da História; não aguentam o mistério do acontecimento. Não veem que o certo e o errado estão misturados. Nietzsche disse: “As convicções são cárceres”. Os intelectuais têm de aprender a “não entender”…
- Mas Nelson, politicamente o momento…
- O momento é importante, sim, porque os ditadores bilionários da Arábia adoravam que os inimigos fossem os americanos, enquanto seus povos miseráveis batiam cabeça ajoelhados no chão… Agora, os árabes acordaram…
- Nelson, você virou marxista aí no céu…
- O Marx me chama de “reacionário”, mas me ouve muito e anda chateado com as bobagens que escrevem sobre ele na academia. Eu disse para ele: “Olha, Marx, a burrice é uma força da natureza, feito o maremoto”… Ele vive repetindo isso, achou uma graça infinita… Bom sujeito, o Marx…
- É… mas a História andou para trás…
- Para com isso, rapaz, a História não existe… Ela foi uma invenção daquele alemão, o tal de Hegel que, aliás, está ali sentado numa nuvem, chorando lágrimas de esguicho numa cava depressão… O sujeito achava que a História andava pra frente e, de repente, meia dúzia de malucos, cheirando a banha de camelo, transformaram nossa vida num pesadelo humorístico. Vocês achavam que a vida era movida pelas “relações de produção”, coisa e tal, mas esqueceram que a História pode ser “intempestiva, mutante”, como escreveu o Nietzsche, que também anda por aqui, bigodudo, muito sério, e disse uma frase genial para mim: “A filosofia é um exílio entre montanhas geladas…” O Nietzsche é um craque… Sempre que posso, tomo um cafezinho com ele. Nunca saímos da barbárie, pensa bem: tivemos duas guerras mundiais num século. Os alemães queimaram judeus, os americanos derreteram 200 mil em 30 segundos em Hiroshima e Nagasaki. A razão é um luxo de franceses… Aliás, tem um francês inteligente aqui, o Baudrillard. Ele disse: “Acabou o “universal” – agora, só há o “singular” e o “mundial”…” Bom, né?
- Mas, o futuro da humanidade…
- O mundo nunca foi feliz… Esse negócio de felicidade global é invenção do comércio americano… A humanidade dando milho para os pombos na Praça de São Marcos é lero-lero…Deus não quer isso. Vai olhar a Bíblia, a Torá; é tudo no “olho por olho”… Lembra da Inquisição? Deus é violento… (estou falando baixo que Ele está ali perto, consolando o Hegel).
- Mas o ser humano…
- Rapaz… A humanidade é uma ilusão. “Tudo que é real é irracional, tudo que é irracional é real.” Se o mundo acabar, não se perde absolutamente nada…
E desligou…
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