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Pedagogo ressalta a importância dos livros na educação


Em palestra promovida pelo D’Incao, Newton Duarte debate educação com pais

Newton Duarte debate educação no ensino médio com pais.

Luís Paulo Domingues

“Qual a melhor educação para o seu filho?” Este é o título da palestra que o D’Incao Instituto de Ensino promoveu na última quinta-feira (24), na OAB de Bauru. O Professor Doutor Newton Duarte, um dos maiores nomes da pedagogia no país, falou sobre os grandes desafios da educação no Brasil.
“-Quando se debate educação, é preciso primeiro perguntar “educar para o quê?””, diz Newton à reportagem. “-Os pais estão procurando uma educação para que os filhos se adaptem passivamente a esta sociedade, ou uma que forme pessoas com pensamento crítico, que possam lutar para transformar esta sociedade e construir um mundo melhor?”, questiona o pedagogo.
Duarte sustenta que a nossa sociedade apresenta problemas estruturais gravíssimos, e que há a necessidade de se tratar esses problemas de forma estrutural, não mais com soluções paliativas.
“-As atividades desenvolvidas pelo homem sempre foram um instrumento de realização para ele. Mas hoje, a atividade humana é algo profundamente desvalorizado pela sociedade”, sustenta Newton. “-Tudo o que envolve esforço é visto como secundário nos dias de hoje. Consequentemente, vivemos em um mundo que esvazia as atividades de sentido, e onde o conteúdo não é visto como algo importante”, esclarece o pedagogo.
Duarte salienta que as pessoas, cada vez mais, procuram carreiras que tragam retorno financeiro. “-Isso impede que o conteúdo de determinada atividade seja visto como valoroso e transformador para a pessoa que realiza o trabalho e para a sociedade”, diz. “-Estamos, então, formando alunos para enfrentar esses conceitos de valor ou para se adaptar a eles?”, pergunta Newton.

Adolescência e educação

Newton Duarte sustenta que a adolescência não é determinada exclusivamente pela biologia. “-A maturação sexual é apenas um dos acontecimentos da adolescência, mas costuma-se entender toda a problemática dessa fase da vida nas questões da sexualidade”, explica.
“-A adolescência, porém, é uma fase muito mais cultural do que biológica. Observa-se isso quando estudamos sociedades que não tinham adolescência. A partir de algum tipo de ritual, o indivíduo deixava a infância e passava diretamente para a vida adulta”, diz o pedagogo. “-Podemos entender, então, que a adolescência é um fenômeno de sociedades mais complexas. E nessas sociedades mais complexas, podemos verificar até a existência de novas fases do desenvolvimento humano”, explica Newton.
O pedagogo defende, por isso, a desbiologização da adolescência. “-A adolescência reflete a sociedade na qual está inserida. Se a adolescência é percebida como uma fase de conflito, é porque a sociedade é conflituosa”, sustenta Newton. “-Mas fugir desse conflito, como propõem diversas pedagogias que estão na moda, é errado”, garante. “-Uma boa educação deve incentivar o indivíduo a enfrentar esses conflitos. Para isso, a escola tem que influenciar o aluno a adquirir conhecimentos filosóficos, científicos e artísticos, que são fundamentais para que o adolescente elabore uma concepção de mundo adequada e reflexiva”, complementa Newton.

Escola e linguagem

Duarte defende que a escola tem que manter um certo distanciamento do quotidiano do adolescente. “-Muita gente pensa que a escola é melhor se está mais próxima do quotidiano do adolescente”, diz. “-Há quem defenda que os livros devam apresentar a linguagem da rua, da internet, da TV. Mas então bastaria ao jovem assistir TV ou falar no celular, por exemplo, sem se importar com a linguagem erudita”, explica Newton
“-A linguagem da escola deve ser outra, até estranha ao aluno”, defende ele. “-Os professores devem manter uma linguagem superior, mais elaborada, para que aquele momento de aquisição do conhecimento seja devidamente aproveitado”, diz o pedagogo

Livros e apostilas

Newton Duarte também defendeu a predominância do livro sobre a apostila. “-Apostilas fazem parte da educação tecnicista, que se assemelha à administração de uma empresa e tem como objetivo maior a otimização dos lucros”, declara o professor. “-No ensino apostilado, o professor se torna um elemento descartável na educação, quando deveria ter o papel de protagonista”, diz Duarte.
O pedagogo ainda defendeu que é imprescindível que os alunos aprendam a ler corretamente um livro e que é o professor quem deve ter o papel crucial de ensiná-los a fazer isso, despertando o interesse pela leitura.

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Brasil fica no 88º lugar em ranking de educação da Unesco


01/03/2011

A educação no Brasl progride, mas ainda é pior que a da Bolívia, segundo dados da UNESCO.

ANGELA PINHO

DE BRASÍLIA
Folha de São Paulo

O Brasil manteve a mesma posição do ano passado e ficou no 88º lugar de 127 no ranking de educação feito pela Unesco, o braço da ONU para a cultura e educação. Com isso, o país fica entre os de nível “médio” de desenvolvimento na área, atrás de Argentina, Chile e até mesmo Equador e Bolívia.
A classificação foi feita a partir de um índice criado para medir o desempenho das nações em relação a metas de qualidade para 2015 estabelecidas na Conferência Mundial de Educação de Dacar, em 2000.
Entre os objetivos a serem atingidos estão ampliar a educação infantil, universalizar o ensino primário, combater as desigualdades de gênero na área e melhorar a qualidade.
O “Relatório de Monitoramento Global”, lançado nesta terça-feira em Nova York, mostra como cada país está se saindo em relação a esses objetivos. O programa de combate ao analfabetismo no Brasil é apontado como um exemplo, embora o país tenha cerca de 14 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, e os dados mostram que o país é um dos que mais aumentou seus investimentos em educação.
Por outro lado, o documento mostra que o país ainda tem muitas crianças fora da escola (cerca de 600 mil) e que esse número pode subir se a inclusão não for acelerada.
CONFLITOS ARMADOS
O documento da Unesco trata ainda de conflitos armados e mostra que eles tiram 28 milhões de crianças das salas de aula. A situação é agravada porque 21 países gastam mais com a área militar do que com o ensino primário. O texto defende também uma maior ajuda das nações desenvolvidas para combater o problema.

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É um erro falar que existe nova classe média, diz sociólogo


13/02/2011 – 00h02

Sociólogo brasileiro escreve série de livros sobre as classes sociais no Brasil.

UIRÁ MACHADO
Folha de São Paulo

Autor do livro “Os Batalhadores Brasileiros”, o sociólogo Jessé Souza afirma que a ascensão social de 30 milhões de pessoas no governo Lula não produziu uma “nova classe média”, mas uma classe social diferente, que ele chama provocativamente de “batalhadores”.
Assim como fizera em seu livro anterior, Souza procura determinar as características dessa classe por um recorte diferente do que ele chama de economicista e quantitativo, fugindo tanto de análises pelo consumo e renda quanto de abordagens marxistas “unidimensionais”.
Abaixo, trechos da entrevista sobre a classe que, para ele, “parece se constituir, com o resgate social da ralé, na questão social, econômica e política mais importante do Brasil contemporâneo”.
Folha – Após lançar o livro “A Ralé Brasileira”, o senhor agora publica “Os Batalhadores Brasileiros”. Qual a diferença entre a “ralé” e os “batalhadores”?
Jessé Souza – Os dois livros se enquadram no projeto de longo prazo de estudar as classes sociais mais importantes do Brasil contemporâneo de maneira não economicista e quantitativa, como sempre acontece.
Quando falo em estudos economicistas, penso tanto nas descrições estatísticas baseadas em níveis de consumo e renda quanto nas descrições marxistas fundadas numa leitura unidimensional da realidade.
Alguns desses estudos são importantes como ponto de partida descritivo, mas o que nenhum deles oferece é uma leitura sociocultural da realidade que nos possibilite compreender o principal: a produção diferencial de seres humanos a partir do pertencimento a classes sociais distintas.
Ainda que a renda seja um componente importante do pertencimento de classe, pessoas muitos diferentes podem ter renda semelhante.
Para que possamos explicar e compreender uma realidade social complexa é necessário penetrar na dimensão mais recôndita das motivações profundas do comportamento social e nos dramas, sonhos, angústias e sofrimentos humanos que elas implicam.
O ganho em compreensão em relação a uma realidade opaca e complexa é insofismável.
Acredito que, por conta desse tipo de interesse instruído teórica e metodologicamente, foi possível perceber, talvez pela primeira vez, a existência do um terço de brasileiros excluídos como uma única classe, ou seja, pelo estudo dos pressupostos afetivos, morais e emocionais que explicam a origem, a manutenção e o destino social provável às pessoas dessa classe específica.
No caso da “ralé”, formada pela ausência dos pressupostos que permitem a incorporação das capacidades exigidas pela sociedade competitiva moderna, é possível perceber a irmandade entre pessoas que moram no interior do Piauí ou na periferia de São Paulo quando a regra é a fragmentação e, portanto, a cegueira da percepção.
É essa cegueira que percebe essa classe de abandonados sociais apenas no registro espetacularizado e manipulador da oposição polícia/bandido, aprofundando todos os preconceitos das classes do privilégio contra esses esquecidos, explorados como mão de obra barata por esses mesmos privilegiados.
O ganho em termos de uma percepção alternativa, totalizadora e crítica da realidade social como um todo não é pequeno.
No caso dos “batalhadores”, esse mesmo ponto de partida nos permitiu, na contramão dos estudos dominantes sobre esse assunto, perceber tanto o potencial de chance e de oportunidade que efetivamente existe nessa nova classe que se constitui defronte os nossos olhos quanto articular a dimensão do sofrimento e dor humanos sistematicamente silenciados por uma leitura superficial e triunfalista da realidade.
Em seu livro, o senhor questiona a afirmação de que o governo Lula alçou 30 milhões de brasileiros à classe média e diz até que se trata de uma mentira. Por quê?
Eu não nego que houve uma efetiva ascensão social de 30 milhões de brasileiros nem que esse fato seja extremamente importante e digno de alegria. O que questiono é a leitura dessa classe como uma classe média.
A classe média é uma das classes dominantes em sociedades modernas como a brasileira porque é constituída pelo acesso privilegiado a um recurso escasso de extrema importância: o capital cultural nas suas mais diversas formas.
Seja sob a forma de capital cultural técnico, como na “tropa de choque” do capital (advogados, engenheiros, administradores, economistas etc.), seja pelo capital cultural literário dos professores, jornalistas, publicitários etc., esse tipo de conhecimento é fundamental para a reprodução e legitimação tanto do mercado quanto do Estado.
Consequentemente, tanto a remuneração quanto o prestígio social atrelados a esse tipo de trabalho –e da condução de vida que ele proporciona– são consideráveis.
A vida dos “batalhadores” é completamente outra. Ela é marcada pela ausência dos privilégios de nascimento que caracterizam as classes médias e altas.
E, quando se fala de “privilégios de nascimento”, não se está falando apenas do dinheiro transmitido por herança de sangue nas classes altas. Esses privilégios envolvem também o recurso mais valioso das classes médias, que é o tempo.
Afinal, é necessário muito tempo livre para incorporar qualquer forma de conhecimento técnico, científico ou filosófico-literário valioso.
Os batalhadores, em sua esmagadora maioria, precisam começar a trabalhar cedo e estudam em escolas públicas muitas vezes de baixa qualidade.
Como lhes faltam tanto o capital cultural altamente valorizado das classes médias quanto o capital econômico das classes altas, eles compensam essa falta com extraordinário esforço pessoal, dupla jornada de trabalho e aceitação de todo tipo de superexploração da mão de obra.
Essa é uma condução de vida típica das classes trabalhadoras, daí nossa hipótese de trabalho desenvolvida no livro que nega e critica o conceito de “nova classe média”.
Qual o ganho analítico de enxergar os batalhadores como uma classe diferente da classe média tradicional? E quais as implicações que essa diferenciação traz para o governo Dilma?
O ganho é tanto analítico quanto político.
Essa diferenciação permite, em primeiro lugar, perceber a realidade social como ela é, com suas ambiguidades e contradições constitutivas.
Depois, como em toda leitura sóbria da realidade, ela possibilita criticar todo tipo de manipulação política ou de leitura triunfalista da realidade.
Com relação não apenas ao governo Dilma, mas em relação ao futuro do Brasil, essa nova classe de trabalhadores, típica do novo tipo de capitalismo financeiro que logrou se globalizar, parece se constituir –com o resgate social da ralé– na questão social, econômica e política mais importante do Brasil contemporâneo.
Para mim, existem duas alternativas possíveis: a primeira é essa classe ser cooptada pelo discurso e prática individualista e socialmente irresponsável que caracterizam boa parte das classes dominantes no Brasil; a segunda alternativa é essa classe assumir um papel de protagonista e inspirar, pelo seu exemplo social, a efetiva redenção daquela classe social de humilhados sociais que chamo provocativamente de ralé.
Muitos dos batalhadores que entrevistamos vinham, inclusive, da própria ralé, mostrando que as fronteiras entre as classes são fluidas e que não existem classes condenadas para sempre.
Esse ponto me parece fundamental, já que é precisamente a existência desses abandonados sociais –e não qualquer tipo de patrimonialismo advindo de um suposto “mal de origem” português, como ainda hoje acredita nossa ciência social dominante– o que nos separa das sociedades mais igualitárias e socialmente mais justas do globo.
Quando o senhor afirma que os batalhadores alcançaram um “lugar ao sol à custa de extraordinário esforço”, o senhor não está assumindo a tese do mérito individual, a qual o senhor habitualmente critica?
Quando critico a ideologia do mérito individual, não estou negando a extraordinária importância do esforço individual, nem, muito menos, a necessidade de reconhecimento social efetivo para os desempenhos singulares em qualquer área da vida.
Qualquer noção de justiça social moderna tem que articular responsabilidade social e reconhecimento dos desempenhos singulares e extraordinários.
Há que proteger tanto a ideia de que somos responsáveis uns pelos outros quanto estimular o esforço pessoal.
Quando critico a ideia de mérito individual, é apenas pelo seu uso amesquinhado como ideologia, ou seja, como falsa percepção da realidade.
É muito diferente quando uma classe inteira de privilegiados de nascimento, com boas escolas, estimulados em casa o tempo todo, com tempo livre desde sempre para fazer o que bem entende e dinheiro para investir em cursos de línguas e pós-graduações valorizadas, chama o próprio sucesso de mérito individual e ainda acusa as classes que não tiveram acesso a qualquer desses privilégios sociais de preguiçosos, burros e culpados pelo próprio fracasso.
A tese do mérito individual que crítico é, portanto, herdeira do modo como o liberalismo sempre foi recebido no Brasil: um discurso para legitimar os privilégios de nascimento das classes abastadas, como se esses privilégios decorressem do esforço apenas de indivíduos, e não da herança de sangue e de classe.
No estudo dos batalhadores, o que impressionou foi o extraordinário esforço de superação de condições efetivamente adversas, todas contribuindo antes ao desânimo e ao desespero do que ao enfretamento corajoso das condições negativas ao sucesso social e econômico.
O título do livro foi uma homenagem à luta cotidiana e silenciosa desses brasileiros.
Este termo “batalhadores” sinaliza o fato de que o que perfaz o cotidiano dessas pessoas é a necessidade de “matar um leão por dia” como forma de vida de toda uma classe social que tem que lutar diariamente contra o peso da própria origem.
Nos casos empíricos de seu livro, há operadores de telemarketing, uma profissão relativamente nova, e feirantes, ocupação bem antiga. Como as duas funções aparecem juntas para caracterizar tipos de uma nova classe social que é tão conforme o modelo atual do capitalismo?
Para responder a esta pergunta, temos que compreender, antes de tudo, ainda que sucintamente, o que significa “modelo atual de capitalismo”, de modo a podermos compreender de maneira mais adequada como essa “nova classe trabalhadora” se torna, não só no Brasil, mas em todos os países emergentes, como China e Índia, sua classe suporte, como diria Max Weber, mais típica.
O que hoje é chamado por muitos de “capitalismo financeiro” representa um movimento que começa nos anos 80 no mundo e se propaga nos anos 90 entre nós. O pano de fundo desse movimento eram taxas de lucro decrescentes em nível mundial já havia décadas.
Mas as mudanças não foram apenas nem principalmente de retórica política. Elas comandaram transformações profundas tanto na forma de produção de todo tipo de mercadoria quanto no regime de trabalho.
Ao fim e ao cabo, o conjunto de mudanças apontou no sentido de um aumento da velocidade de circulação do capital, em grande medida determinado pelos cortes com gastos de controle e supervisão de trabalho, que caracterizavam a produção do tipo fordista tradicional, como existe ainda hoje, por exemplo, em algumas indústrias automobilísticas.
Amplos setores da produção de mercadorias de todo tipo são realizados agora por trabalhadores em fábricas a céu aberto ou pequenas unidades familiares que se acreditam, inclusive, empresárias de si próprias, o que explica, também, que o epíteto de “nova classe média” tenha caído tão rápido no gosto de todos, inclusive dos próprios batalhadores.
Na verdade, o capital financeiro que flui sem qualquer controle por todos os pontos do globo pode, agora, se valorizar a taxas de lucros e juros sem precedentes também a partir de atividades realizadas por um exército mundial de trabalhadores –que abundam precisamente nos países populosos ditos emergentes– sem direitos trabalhistas, sem passado sindical e sem tradição de lutas políticas, que muitas vezes não pagam impostos, que trabalham de dez a 14 horas ao dia e ainda nem sequer precisam de capatazes ou supervisores, porque se acreditam “livres” e patrões de si mesmos.
Essa mudança abrange não apenas as “novas atividades”, como as da informática, mas também redefinem e transformam, inclusive, atividades tradicionais, como a dos feirantes.
Quais são os valores dessa classe batalhadora?
Em primeiro lugar, há que ficar bem claro que uma pesquisa sobre valores sociais profundos, como a que realizamos, não pode imaginar que esses valores sejam de fácil acesso e estejam na cabeça das pessoas de modo claro e óbvio.
Ao contrário, como diria Max Weber, a primeira necessidade dos seres humanos não é a de dizer a verdade –muito menos a verdade sobre si mesmos–, mas sim justificar e legitimar a vida que realmente levam.
Por conta disso, uma pesquisa de sociologia crítica é diferente de uma pesquisa meramente quantitativa. Nas pesquisas quantitativas podemos saber, por exemplo, em quem as pessoas vão votar ou que sabonete elas usam, precisamente porque suas autoimagens quase nunca estão em jogo nesse tipo de questão.
Quem se interessa em perceber os estímulos mais profundos da conduta social, ao contrário, tem que realizar um esforço interpretativo e hermenêutico que as pesquisas quantitativas comuns não fazem e perceber os valores na prática cotidiana efetiva da vida das pessoas.
Afinal, valores são aquilo que nos conduzem para um lado e não para outro da vida, mesmo que de modo pré-reflexivo ou inconsciente.
Nós optamos por analisar a vida no trabalho e na família de nossos informantes, de modo a retirar dessas esferas fundamentais os impulsos e estímulos práticos –os tais “valores” na nossa visão– da conduta de vida.
Neste particular, o horizonte valorativo dos batalhadores pode ser mais bem percebido no confronto com os membros da ralé.
A principal diferença em relação aos excluídos e abandonados sociais é a constituição de uma ética articulada do trabalho duro.
Afinal, não basta querer trabalhar em qualquer área da vida. É necessário também poder trabalhar, ou seja, ter logrado incorporar (literalmente “tornar corpo”, de modo pré-reflexivo e automático) os pressupostos emocionais e morais do trabalho produtivo no mercado competitivo.
O capitalismo atual pressupõe crescente incorporação de distintas formas de conhecimento e de capital cultural como porta de entrada em qualquer de seus setores competitivos.
Como esses pressupostos faltam por diversos motivos à ralé, esta é condenada aos trabalhos braçais ou com mínimo de conhecimento, servindo, portanto, de mão de obra barata para qualquer serviço duro, desvalorizado e pesado.
Esse não é o único horizonte dos batalhadores.
Os batalhadores são quase sempre vindos de famílias pobres, mas, no entanto, bem estruturadas, com os papéis de pais e filhos reciprocamente compreendidos, exemplos de perseverança na família e estímulo consequente –baseado em exemplos concretos– para o estudo e para o trabalho.
Temos nas famílias dessa classe a incorporação e internalização efetiva da tríade disciplina, autocontrole e pensamento prospectivo que sempre está pressuposta tanto em qualquer processo de aprendizado na escola quanto em qualquer trabalho produtivo no mercado competitivo.
Sem disciplina e autocontrole é impossível, por exemplo, concentrar-se na escola –daí que os membros da ralé diziam repetidamente que “fitavam” o quadro negro por horas sem aprender.
Essa “virtude” não é natural, como pensa a classe média que universaliza indevidamente às outras classes suas virtudes e privilégios para depois culpar a vítima do abandono social, como se o abandono e a miséria fossem uma escolha.
Por outro lado, sem pensamento prospectivo –ou seja, a visão de que o futuro é mais importante do que o presente–, não existe sequer a possibilidade de condução racional da vida pela impossibilidade de cálculo e de planejamento e pela prisão no aqui e agora.
No caso dos batalhadores, a incorporação dessa economia emocional e moral mínima é duramente conquistada, às vezes no horizonte do aprendizado familiar, às vezes tardiamente, nas mais diversas formas de socialização religiosa.
Assim, ainda que falte a essa classe o acesso às formas mais valorizadas de capital cultural –monopólio das “verdadeiras” classes médias–, não lhes falta força de vontade, perseverança e confiança no futuro, apesar de todas as dificuldades.
Em um contexto minimamente favorável, como o que vivemos até agora, esse exército de batalhadores se mostra então disponível e atento à menor possibilidade de trabalho rentável e de melhoria das condições de vida por meio, por exemplo, do consumo de bens duráveis que antes lhes eram inatingíveis.
Durante as eleições deste ano, alguns debates ganharam fortes contornos religiosos, como foi o caso da discussão sobre o aborto. A religião é mais importante para os batalhadores do que para a classe média tradicional?
O tema da religião é tão importante para essa classe que até dedicamos toda uma parte do livro a esta temática. Além disso, a socialização religiosa dessa classe perpassa boa parte dos textos construídos a partir das análises empíricas.
É preciso cuidado com esse tema, já que ele pode servir para que se construa uma nuvem de preconceitos contra essa classe.
É, sem dúvida, correto que as religiões evangélicas –como, aliás, todas as religiões em alguma medida– exigem o sacrifício do intelecto, o que, efetivamente, não ajuda no exercício da tolerância nem no desenvolvimento das capacidades reflexivas dos seres humanos.
Em troca, no entanto, essas religiões oferecem o que a sociedade como um todo, o Estado ou mesmo algumas das famílias menos estruturadas dessa classe jamais deram a eles: confiança em si mesmos, autoestima, esperança e a força de vontade para vencer as enormes adversidades da vida sem privilégios de nascimento.
Nesse sentido preciso, tudo leva a crer que a religião seja efetivamente mais importante para esses setores do que para as classes médias estabelecidas, ainda que nunca tenhamos feito nenhum estudo sistemático. Mas me parece uma hipótese plausível.
E não apenas as religiões evangélicas, que são muito importantes especialmente nos núcleos urbanos. Também a religião católica, no interior do Nordeste, ainda muito forte e atuante, cumpre uma função fundamental de baluarte da solidariedade familiar e como fundamento de uma ética do trabalho em muitos aspectos semelhantes à ética do protestantismo.
Se é verdade que a classe batalhadora não é uma classe média em sentido tradicional, e se aí vai uma crítica, não é possível ao menos imaginar que os filhos dos “batalhadores” terão melhores oportunidades que seus pais? Nesse sentido, a crítica não perderia sua força? Não é possível imaginar que a ascensão à classe média se dará em “duas etapas”?
Sem dúvida que isso é possível. Até porque o Brasil é um país singular no sentido de ser extremamente desigual e, ao mesmo tempo, apresentar forte mobilidade social muitas vezes ascendente.
É preciso, no entanto, também levar em consideração que uma concepção sociocultural das classes sociais implica a percepção de que as mudanças sociais tendem a preservar aspectos importantes da história e da tradição das classes sociais envolvidas nessas mudanças.
Como nos constituímos como seres humanos de modo antes de tudo afetivo e emocional, pela incorporação insensível e pré-reflexiva daquilo e de quem amamos, somos sempre muito mais parecidos com nossos pais –ou de quem quer que tenhamos recebido afeto e amor– do que as vezes muitos imaginam.
Mas o que é importante é que as mudanças sociais e pessoais são, sim, sempre possíveis. Mais importante ainda é lembrar que as mudanças sociais jamais acontecem apenas pelo jogo das variáveis econômicas.
O aprofundamento dos processos de aprendizado social e político que o Brasil começa a realizar são também fundamentais para a constituição de uma sociedade em que todos tenham efetiva condição de participar da competição social com um mínimo de igualdade de condições, que é o que muitos entre nós desejam.
A nova classe batalhadora faz surgir um novo tipo de preconceito no Brasil?
Sem dúvida. Basta olhar qualquer das revistas que analisam o padrão de consumo dessa classe sob a égide da visão de mundo da classe média estabelecida. Ela aparece sempre como um tanto vulgar e sem o “bom gosto” que caracterizaria os estratos superiores.
Como regra geral, as classes superiores se veem sempre como as “classes do espírito”, da personalidade refinada e sensível, e percebem as classes baixas como as “classes do corpo” e, portanto, rudes, primitivas e sem refinamento.
Uma das características dos “batalhadores” parece ser a precariedade da situação econômica e social. De que forma o governo pode melhorar ou piorar a situação dessa classe?
Eu acho fundamental o aprofundamento mais consequente tanto da política social –no sentido de que apenas uma pequena ajuda econômica tópica não irá retirar o um terço de brasileiros da exclusão e do abandono– quanto de políticas de crédito e de estímulo aos batalhadores.
A “parte de baixo” da população brasileira tem demonstrado sobejamente que consegue transformar qualquer pequena ajuda em progresso social e econômico significativo que interessa e beneficia a todos os setores da sociedade inclusive os superiores.

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Defesa do ENEM


08/11/2010 – 18h23

Hélio Schwartsman, da Folha, defende os melhores pontos do ENEM.

Nota do D’Incao: este artigo é um tanto antigo (novembro), mas vale uma releitura para quem quer entender como o ENEM é importante para todo o processo educacional brasileiro.

Hélio Schwartsman: Justiça ainda não entendeu o que é o Enem
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HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Os chamados operadores do direito (advogados, juízes, promotores, procuradores etc.) ainda não entenderam bem o que é o Enem. Se tivessem compreendido, não teriam pedido –e nem concedido– a suspensão do exame, por desnecessária.

É fato que, pelo segundo ano consecutivo, os organizadores da prova cometeram erros. Isso depõe contra a capacidade gerencial do Ministério da Educação (MEC) e dos consórcios que confeccionam os testes, mas não afeta os modelos matemáticos que sustentam a Teoria de Resposta ao Item (TRI), na qual o Enem se baseia.

Desenvolvida nos anos 50 e 60, a TRI torna possíveis testes mais refinados, que permitem comparar alunos submetidos a provas diferentes e a performance de uma mesma instituição ao longo dos anos. Assim, em vez de anular os exames de mais de 3 milhões de estudantes, basta que o MEC ofereça gratuitamente aos cerca de 20 mil alunos que podem ter sido prejudicados a oportunidade de fazer uma nova prova nas próximas semanas.

Embora seja “apenas uma teoria” a TRI é usada há décadas com bastante sucesso em provas já consagradas como o SAT (o Enem dos EUA) e o Pisa (usado para comparar sistemas de ensino de diferentes países). A ideia central da TRI em sua versão mais simplificada é que cada questão ou item possui duas características especialmente relevantes: o grau de dificuldade e o de discriminação.

Se a pergunta for fácil, será respondida por quase todos os que estão mais preparados e por parte dos que se mostram menos preparados; se for difícil, será respondida somente por alguns dos mais hábeis. Já a discriminação traduz a eficácia com que o item distingue entre os mais e os menos competentes.

O que a TRI faz é reunir esses dois parâmetros em um modelo matemático que permite atribuir a cada candidato uma pontuação que leva em conta não só os acertos como também o grau de dificuldade de cada questão e a coerência nas respostas.

Com isso, nem todos os estudantes recebem os mesmos pontos pelos mesmos acertos. Um aluno que acertar uma questão difícil, sem ter resolvido um número razoável de outras mais fáceis, receberá por aquele acerto uma pontuação menor do que o aluno que tenha demonstrado coerência ao longo de toda a prova.

Evidentemente, o sistema precisa ser calibrado tanto para o grau de dificuldade como para o de discriminação de cada item. Uma série de testes com alunos de diferentes níveis permite a formação de grandes bancos de questões, de modo que, em princípio, não haveria grandes problemas para elaborar em poucos dias uma prova extra para os prejudicados.

Na verdade, tanto a fraude de 2009 como as falhas organizacionais deste ano poderiam ter sido evitadas se o MEC tivesse avançado mais nas possibilidades abertas pela TRI. Não há razão, por exemplo, para fazer um megaexame que envolva vários milhões de alunos –com todas as dificuldades logísticas daí decorrentes. Seria muito mais razoável organizar sete ou oito provas por ano, como, aliás, ocorre com o SAT norte-americano.

O mesmo vale para a segurança. Nada impede que o MEC elabore várias dezenas de diferentes modelos de prova. Não estamos aqui falando das mesmas questões dispostas em outra ordem, mas de exames compostos por perguntas diferentes. Se existe apenas uma chance em 50 ou 60 de um candidato a fraudador comprar a prova certa, violações de sigilo praticamente perdem valor de mercado.

Pode-se ir ainda mais longe e imaginar uma situação onde cada examinando resolva seu teste diretamente num computador. Neste caso, o sistema poderia, a partir do banco de questões, que idealmente conta com milhões de perguntas, gerar uma prova específica para cada candidato.

E isso é provavelmente o mais perto que se pode chegar de um exame à prova de fraude.

O verdadeiro teste do MEC vai ser convencer os juízes de que a TRI funciona.

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Há mercado para quem cursa Pedagogia?


Gostaria de saber se o curso de Pedagogia é voltado somente para quem dá aulas ou há um mercado mais amplo.
enviado por Ana Cristina
Guia do Estudante

A formação em Pedagogia passou por várias mudanças nos últimos vinte anos. Até três ou quatro anos atrás os cursos que formavam pedagogos tinham que definir “habilitações”, que definiam áreas específicas de atuação.
Quem desejava lecionar no ensino fundamental I – primeira à quarta série -, por exemplo, podia fazê-lo a partir do curso “normal” (de ensino médio, também denominado à época de “magistério”). Após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, foi estabelecida a exigência de formação em pedagogia para tal, com prazo de dez anos para adequação à lei. Ou seja, hoje todo professor de ensino fundamental I deve ser pedagogo.
Entenda, portanto, que as profissões passam por mudanças ao longo da história, o que poderá ocorrer também no futuro. Isto indica o rumo de nossa resposta.
A necessidade de formação de educadores é grande em nosso país. Nossa população é predominantemente jovem, e precisa de quem a conduza ao mundo mais amplo dos adultos. A instituição escolar tem papel decisivo para tal, o que determina exigências sociais quanto à formação de educadores.
Na década de 1990 o governo federal liberou a abertura de inúmeros cursos de nível superior e entre eles os cursos de Pedagogia lideraram o número de vagas abertas. Em outros termos, há um grande campo de trabalho – necessidade social de educadores – mas o mercado de trabalho – vagas disponíveis e valorização salarial – não cresceu na mesma proporção.
Sintetizando: hoje o campo de trabalho á amplo, mas o mercado apresenta dificuldades em função do número de pessoas que desejam ingressar nele. Em termos de opções, o pedagogo pode atuar como professor na educação infantil (pré-escola), na educação fundamental I (professor do primeiro ao quinto ano), como coordenador ou supervisor de ensino, como orientador educacional, dirigindo suas ações ao acompanhamento do desenvolvimento dos alunos, e como diretor escolar.
Para cada função, o mercado exige experiência e qualificações que vão além da formação básica que a graduação oferece (competências desenvolvidas pela prática, cursos de extensão, pós-graduação).
Por fim, outras opções podem ser encontradas em organizações não vinculadas ao sistema oficial de ensino, como as ONGs (Organizações não governamentais), hospitais (na área denominada pedagogia hospitalar) ou em empresas (na área de treinamento e desenvolvimento profissional) passando pela educação à distância.

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Crianças leais ao McDonald’s


Mc Donald's usa estratégia para criar lealdade das crianças com relação à marca.

por Marcos Guterman
O Estado de São Paulo

10.novembro.2010 00:15:19
Uma grande pesquisa do Rudd Center for Food Policy & Obesity, da Universidade Yale, mapeou a dedicação midiática e de marketing da indústria do fast food para atingir as crianças. Os resultados são devastadores.
O estudo investigou as 12 principais cadeias de lanchonetes dos EUA e também o cardápio infantil – mais de 3.000 combinações e 2.781 itens. O esforço para atingir as crianças é evidente e crescente, dizem os pesquisadores. “Hoje, crianças de 3 a 5 anos de idade vêem 21% mais anúncios de fast food na TV do que em 2003, e as mais velhas vêem 34% mais”, disse Jennifer Harris, que participou do estudo.
A pesquisa concluiu que, das mais de 3.000 combinações do cardápio infantil, somente 12 respeitam os critérios nutricionais para crianças de 3 a 5 anos. Os adolescentes consomem até 1.100 calorias, em média, numa única refeição de fast food, cerca de metade do recomendado para o dia todo. Também numa única refeição, os jovens consomem metade do sódio recomendado para o dia. Do total de calorias consumidas pelas crianças nesse cardápio, 30% são açúcar e gordura saturada. Além disso, as lanchonetes raramente oferecem de modo claro suas opções mais saudáveis, quando as têm. O McDonald’s e o Burger King, por exemplo, anunciam ter opções saudáveis para crianças, mas servem largamente batatas fritas (86% das vezes) e refrigerantes (55%).
A pesquisa mostra também que 42% das crianças entre 2 e 11 anos de idade pedem para ir ao McDonald’s pelo menos uma vez por semana. Dos pais entrevistados, 84% se lembraram de ter levado seus filhos a um fast food pelo menos uma vez na semana anterior.
Quanto à publicidade, os números são impressionantes: as crianças de 3 a 5 anos de idade assistem quase três anúncios de fast food diariamente; crianças entre 6 e 11 anos, três anúncios e meio; e adolescentes de 12 a 17 anos, quase cinco anúncios por dia.
Os anúncios visam a criar uma relação de lealdade da criança em relação às redes de lanchonetes. Um dos sites do McDonald’s, o Ronald.com, é feito para crianças em idade pré-escolar.

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Alunos bolivianos pagam para não apanhar em escola estadual de SP


28/09/2010

Professora dá entrevista em frente à E.E. Padre Anchieta, palco dos abusos.


Folha de São Paulo

Alunos imigrantes da escola estadual Padre Anchieta, no Brás (região central de São Paulo), pagam “pedágio” aos brasileiros para não apanhar fora da unidade. A informação é da reportagem de Raphael Marchiori publicada na edição desta terça-feira da Folha.
Para se sentirem seguros, os estrangeiros, principalmente bolivianos, pagam lanches na cantina ou dão aos brasileiros o que têm nos bolsos, mesmo que seja R$ 1. “Caso contrário, apanham do lado de fora da escola”, diz Mário Roberto Queiroz, 49, professor de história e mediador –função criada pela Secretaria da Educação para trabalhar junto à comunidade escolar questões como atos de vandalismo, discriminação e violência.
A compra da “segurança” foi revelada à Folha por alunos e docentes. A própria direção da unidade confirma. Um aluno e um ex-aluno da escola, ambos de 16 anos, afirmam que os casos ocorrem pelo menos desde 2008. “Eles pedem R$ 1 ou R$ 2. Entreguei três vezes. Na quarta, apanhei”, conta um deles, que está há 14 anos no Brasil.

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Sem funcionários, escola de Guarulhos (SP) usa alunos na faxina


28/08/2010 – 14h03

Governador Alberto Goldman: proibição de cooperativas leva alunos para faxina.

Folha de São Paulo

Alunos e funcionários –que antes trabalhavam apenas com a merenda– da Escola Estadual Maria Helena Barbosa Martins, em Guarulhos (Grande São Paulo), precisam tirar o lixo da sala de aula todos os dias. Como outras unidades da rede estadual, a escola sofre com o atraso na contratação de empresas terceirizadas para o serviço, causado por mudança administrativa do governo -que obrigou à reabertura dos pregões para escolha de novas prestadoras.

Na Escola Estadual Maria Helena Barbosa Martins, em Guarulhos (SP), alunos precisam ajudar a tirar o lixo
Segundo a Secretaria Estadual da Educação, 213 colégios já ficaram ou ficarão sem os funcionários terceirizados até 3 de setembro. A rede de ensino possui 5.000 escolas.

Em quatro colégios de Guarulhos visitados nesta semana pela Folha, todos contavam com cerca da metade do quadro de funcionários. ‘Fica ruim para os alunos, que têm de catar lixo ou varrer a sala. Na última reunião, alguns pais se colocaram à disposição para ajudar’, disse Edjane Lopes, 38, mãe de uma aluna da sexta série da escola Maria Helena Barbosa Martins.

A dificuldade ocorre porque o governador Alberto Goldman (PSDB) vetou, em junho, a participação de cooperativas em licitações, agora restritas a empresas. O chefe de gabinete da Secretaria da Educação, Fernando Padula, diz haver falta de funcionários apenas em ‘casos pontuais’, que serão solucionados rapidamente.

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Britânicos compram COC e Pueri Domus por R$ 613 mihões


Automação: processo está em franca ascenção no mercado educacional.

22/07/201

Nota do D’Incao: leia artigo sobre a robotização de alunos no final desta matéria.

DA REUTERS, EM LONDRES

O SEB (Sistema Educacional Brasileiro), dono de marcas como COC e Pueri Domus, anunciou nesta quinta-feira que acertou uma parceria com a Pearson para venda de seu sistema educacional e outros ativos em uma operação em que mais que dobra o tamanho dos negócios com educação do grupo britânico no Brasil.

A Pearson vai comprar os sistemas de ensino COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name, além de gráfica, operações de logística e o portal educacional Klick Net, e fornecerá tecnologia para as escolas do SEB que operam sob as marcas COC, Pueri Domus e Dom Bosco num contrato de sete anos.

O grupo britânico vai pagar R$ 613,3 milhões por participações direta e indireta. Segundo o SEB, o preço da aquisição indireta do controle da empresa pela Pearson é de R$ 22 reais por ação, que encerrou na quarta-feira a R$ 19,70.

A Pearson também fará uma oferta pública de aquisição das ações do restante dos acionistas do SEB e pagará o mesmo valor ofertado aos controladores, de R$ 22 por ação.

Além disso, os controladores do SEB farão uma segunda oferta pública de aquisição de ações da holding Nova SEB, oferecendo um preço de R$ 9 por ação para fechar o capital da empresa.

Com isso, o valor total oferecido aos não controladores será de R$ 31 por ação, um ágio de 62,9% sobre o preço registrado em 20 de julho.

Os sistemas de ensino incluem apoio e treinamento de professores, impressão e materiais digitais e serviços de tecnologia. A Person estima que o mercado de material educacional do Brasil seja avaliado em US$ 2 bilhões.

A Pearson divulgou que espera que a divisão de sistemas de educação do SEB gere vendas de cerca de R$ 160 milhões em 2010 e que mantenha rápido crescimento. O SEB é 70% controlada pela família Zaher.

As operações de sistemas de ensino do SEB registraram crescimento orgânico médio de mais de 20% e margens operacionais de cerca de 35%.

O acordo com a Pearson prevê uma reorganização societária do SEB, que será dividida na área de sistemas de ensino adquirida pelo grupo britânico e na área que seguirá com o restante dos ativos que incluem 31 escolas, faculdade, ensino à distância e cursos preparatórios para área jurídica.

Com essa reorganização societária, a Pearson vai adquirir a totalidade do capital social de uma holding que terá 88,81% do capital votante e 63,69% do capital total da SEB. A Pearson também terá uma participação direta no grupo de 5,35% do capital social.

A expectativa é que o fechamento da operação ocorra em até 60 dias.

A robotização de alunos se propaga no Brasil

Por Luís Paulo Domingues

A Folha de São Paulo publicou matéria com chamada de capa, no dia 23/07, sobre a compra das redes COC, Pueri Domus, Dom Bosco e Name de ensino pelo grupo editorial britânico Pearson Education. O negócio atingiu a sifra de 888 milhões de Reais.
Soma-se a essa transação financeira a recente aquisição do Anglo pela familia Civita, dona da editora Abril, e constatamos uma verdadeira operação de guerra no sentido da padronização nociva da educação no Brasil.
Toda essa agitação do mercado educacional no país expõe os reais interesses dessas empresas milionárias: a incrementação de uma máquina de ensino extremamente lucrativa, enganadora – no tocante aos interesses dos alunos e de seus pais -, em detrimento da qualidade e do conteúdo oferecido pelas escolas.
As redes adquiridas pelo grupo inglês, já dominadas pelo extremo tecnicismo (sistema apostilado de baixa qualidade que supostamenta “treina” o aluno para o vestibular), serão, obviamente, redesenhadas e direcionadas para gerar mais lucro. Afinal, recuperar 888 milhões de Reais é uma dura tarefa.
Como tratamos aqui de uma grande corporação, cujos administradores pensam e precisam pensar como administradores, e não como educadores, supõe-se que o primeiro passo seja aumentar a receita da seguinte forma:
demitir funcionários “onerosos” – no caso, professores bons e bem pagos -, para a contratação de funcionários menos “onerosos” – professores despreparados.
garantir o aumento do número de matrículas, mesmo que seja necessário entupir as classes de gente em troca de uma mensalidade menor.
padronizar todos os materiais didáticos, enxugando o trabalho das gráficas do grupo.
Essas são apenas as medidas de praxe para qualquer empresário.
Tal parafernália empresarial só pode destruir o papel da escola dentro do processo, transformando essas instituições de ensino em fábricas de alunos medianos (talvez ruins), sem consciência crítica alguma e incapazes de se destacar da massa de alunos moldados por eles mesmos.
Trata-se realmente de um grande negócio. Para empresários, não para alunos e educadores.

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Escolas públicas top no Enem têm seleção mais disputada do que a USP


19/07/2010

Colégio de Aplicação da UFV: 13 candidatos por vaga.

DA AGÊNCIA FOLHA

Espremidas entre colégios particulares, duas escolas públicas aparecem na lista das 20 melhores do país, segundo notas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2009. Ambas são ligadas a universidades e a disputa por suas vagas é maior do que na Fuvest.

No colégio de aplicação da Universidade Federal de Viçosa (MG) –o melhor público do país e 7º no geral–, cada vaga é disputada por 13 alunos, concorrência da engenharia-USP. Os docentes trabalham só na escola e escolhem as metodologias; há aulas práticas em laboratórios.
No colégio de aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o segundo público do país, a seleção é mais acirrada que para medicina na USP. Na escola do Rio, mais de 5.000 se inscreveram para o sorteio de 60 vagas (disputa de 42 e 83 por vaga, respectivamente).
Quase todos os professores têm mestrado e doutorado e ganham como docente universitário. Os estudantes também contam com atividades extras, como artes, fora do horário normal de aulas.
Além de escolas ligadas a universidades, aparecem na lista das melhores do país escolas técnicas federais e estaduais. Em São Paulo, o melhor colégio público foi o instituto técnico federal.
No país, a mais bem classificada escola pública “convencional” (sem seleção de alunos) apareceu na 729ª posição geral, superada por 73 colégios públicos de elite. Ela fica em Posse (GO).
Para educadores, condições presentes nas escolas técnicas ou colégios de aplicação poderiam ser expandidas para o restante do sistema público, que não seleciona alunos –pesquisas mostram que a condição social e familiar do aluno é o principal fator que explica seu desempenho em avaliação.
Professor da Faculdade de Educação da UnB, Remi Castioni diz que poderia ser replicado o modelo em que o aluno aplica os conhecimentos em aulas práticas.
A diretora do Centro Paula Souza (responsável pelas escolas técnicas paulistas), Laura Laganá, sugere a ampliação da carga horária e um currículo com atividades profissionalizantes (como informática). “O currículo precisa atrair o aluno. Hoje, isso é difícil.”

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