Histórico | Filosofia

Veja como a arte aborda o tema da melancolia


16/08/2011 – 08h30

GUILHERME GENESTRETI
IARA BIDERMAN
DE

Folha de São Paulo

Como visão de mundo ou expressão do temperamento do artista, a melancolia é um tema recorrente na história da arte.
Nas artes plásticas, a obra referencial é “Melencolia I”, gravura de 1514 do pintor, gravurista e arquiteto alemão Albrecht Dürer (1471-1528).

Melencolia I’, Albrecht DürerSegundo o crítico e professor de arte Rodrigo Naves, a gravura representa uma concepção de mundo em que estados de espírito e vocações eram regidos por forças exteriores ao indivíduo (deuses, planetas).
Nessa visão, a melancolia é também a deusa das artes liberais, associada ao pensamento reflexivo e à atividade intelectual.
A postura do anjo de Dürer, com a mão apoiada na cabeça, vai se consagrar como símbolo de melancólico.

São Jerônimo no Deserto’, Leonardo da VinciPara Frérederic René Guy Petitdemange, professor de história da arte da faculdade Anhembi Morumbi, é a postura prenunciada na obra “São Jerônimo no Deserto” (1480), de Leonardo da Vinci (1452-1519).

Retrato do Dr. Gachet’, Vincent Van GoghÉ também a posição que vai representar a melancolia em obras dos séculos seguintes, como o “Retrato de Dr. Gachet” (1890), do pintor pós-impressionista Vicent van Gogh (1853-1890).

O Pensador’, de Auguste RodinA escultura “O Pensador” (1902), de Auguste Rodin (1840-1917), é outro exemplo da representação desse estado de espírito, que reforça a ligação entre a melancolia e a reflexão intelectual.

Saturno Devorando um Filho’, de Francisco de GoyaA simbologia relacionada à melancolia, como o deus greco-romano Saturno (ou Cronos, senhor do tempo) surge na obra do espanhol Francisco de Goya (1746-1828). A pintura “Saturno devorando um filho” (cerca de 1820) é o melhor exemplo e uma das mais famosas da “fase negra” do pintor.

Vampiro’, de Edvard MunchSeres noturnos (morcegos, vampiros e corujas) são outros símbolos da melancolia usados ou aludidos pelos artistas. Um exemplo é a obra “O Vampiro” (1894), do norueguês Edvard Munch (1863-1944).

Nude’, de Francis BaconNo olhar do século 20, pessoas sozinhas e espaços vazios, com cores frias, retratam a melancolia/monotonia moderna. É o nu do britânico Francis Bacon (1909-1992), com a mesma cabeça apoiada na mão pintada pelos renascentistas ou o solitário que contempla o nada na tela “Office in a Samll City” (1953), do americano Edward Hopper (1882-1967).

NA LITERATURA
Poetas e escritores também foram acometidos pela melancolia.

“Se eu morresse amanhã”, do poeta romântico Álvares de Azevedo

A sensação de mal-estar marcou o romantismo, movimento literário dos séculos 18 e 19 que começou na Europa e chegou ao Brasil pelas mãos de autores como Álvares de Azevedo (1831-1852) e Fagundes Varela (1841-1875).
“O poeta dessa época vive assombrado pela ideia de perda e pelo suicídio”, explica Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária da Unicamp.
O escritor João Guimarães RosaRiobaldo, protagonista de “Grande Sertão: Veredas” (1956), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), é do tipo melancólico, segundo Seligmann. “Ele perde Diadorim e vai trabalhar a perda narrando a sua história”, diz.

A escritora Clarice LispectorClarice Lispector (1920-1977) é outra escritora lembrada por seu temperamento mais introspectivo.
Sua obra mistura duas fontes de melancolia, diz seu biógrafo, Benjamin Moser. A primeira é o Brasil, cuja realidade social a deixava incomodada; a segunda é a sua origem judaica _isso sem falar nos seus dramas familiares.
“Ela era deprimida, mas conseguiu fazer algo com a depressão, que é a sua obra”, disse Moser à Folha. “Como os grandes artistas, ela era muito sensível ao que acontecia ao seu redor.”

Nos EUA, o escritor David Foster Wallace (1962-2008) é outro exemplo.

O autor dos contos de “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” e do romance “Infinite Jest” (ainda não traduzido para o português) sofria de depressão e cometeu suicídio.
“Ele era irônico, sarcástico. Muitas vezes, essa ironia é uma resposta à melancolia”, diz Seligmann.

NO CINEMA
Melancolia é tradição dos filmes nórdicos, segundo Luiz Nazario, professor de história do cinema na UFMG. “A luz pálida do inverno, o frio intenso, a solidão e o medo do contato físico… Tudo ali parece levar a uma profunda melancolia.”

Cena do filme “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman

O sueco Ingmar Bergman (1918-2007), diretor de filmes como “Gritos e Sussurros” e “A Hora do Lobo”, não foge à regra. “A sua obra é uma grande psicanálise da vida dele mesmo. Seus personagens estão mergulhados em depressões existenciais que beiram a loucura”, diz Nazario.
Esse estado de ânimo também inspirou os diretores do expressionismo alemão, da década de 1920.

Cena do filme “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Weine

Os personagens atormentados desses longas “arrastam sua melancolia por cenários deformados”, segundo Nazario. Alguns exemplos: o sonâmbulo Cesare de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) e o pianista ensandecido de “As Mãos de Orlac” (1925)
Nicole Kidman como Virginia Woolf no filme ‘As Horas’No mais recente “As Horas” (2002), depressão e morte se repetem nas três histórias do filme, que mistura a vida da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) com a de uma depressiva dona de casa americana dos anos 50 e a de seu filho suicida.

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Osama foi para o céu


10 de maio de 2011 | 0h 00

Grafite do artista Bansky: o mundo sob o ponto de vista único dos americanos.

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo

Osama é o único assunto. Jurei que não escreveria sobre ele, mas esse homem não me sai da cabeça. Aí, resolvi telefonar para o Nelson Rodrigues para ver sua opinião. Disco o telefone preto intergaláctico, pois o Nelson me ajuda a “não” pensar com as falsas luzes do bom senso, das causas e efeitos. O telefone toca. Já ouço as risadinhas dos querubins, em volta de Nelson na nuvem de algodão no céu de estrelas de papel prateado, como nos teatros da Praça Tiradentes.

- Nelson… sou eu, o Arnaldo…
- Você me ligando, rapaz, como um telefonista de si mesmo. Achei que tinha me esquecido…
- O negócio é o seguinte, Nelson, estou besta com a morte do Osama…
- Eu também, rapaz… O sujeito acabou de entrar aqui, com guarda-costas e tudo e foi correndo para o paraíso islâmico aí do lado…
Está uma barulheira danada, com todo mundo de camisola gritando “Só Alá é grande”. Deus Pai não liga muito, mas fica vagamente irritado com esse nome; ele e Alá são iguais. Com a chegada do Osama, resolvi dar uma “espiadinha” no paraíso deles…
Rapaz, parece o baile do Bola Preta! Os terroristas são tratados a pão de ló e goiabada. O Muhammad Atta, aquele chefe suicida do 11 de Setembro, estava deitado numa cama de ouro, com odaliscas do Catumbi rebolando a dança do ventre e, quando o Osama entrou, as mil virgens pularam em cima dele, pedindo autógrafos, macacas de auditório com asinhas… É… Osama é um galã de novela… Aí embaixo também; estávamos apaixonados por ele ao avesso e não sabíamos. Eu confesso que acho ele um craque…
- Como assim? – pergunto, como nos maus diálogos.
- Porque ele criou o primeiro acontecimento do século 21. Tudo que os russos quiseram fazer, ele fez em meia hora. E mudou o Ocidente.
A América perdeu a “máscara”, estavam muito folgados na época… Agora, voltaram como caubóis, mas a vida não será a mesma. Vão continuar procurando bombas em bueiros. O Ocidente sempre teve o alvo da finalidade, do progresso. O Islã, não; quer o imóvel, a verdade incontestável. Eles não vivem na História; vivem na eternidade. Agora tem os rebeldes árabes; vamos ver se vão preferir a democracia mesmo ou os dogmas assassinos do Osama. De qualquer modo, os americanos vão ter de incluir a morte em seu dia a dia. Não poderão esquecê-la como sempre tentaram. Ficarão mais “orientais”, mais fatalistas… Isso pode até ser bom.
- Como assim? – repito na minha obtusidade.
- Rapaz, me admira você não ver isso: para eles, nós somos o Mal. Eles são o Bem. Aí, a jogada genial do Barack Obama foi ser também o Mal deles. Os cães infiéis atacaram de volta… Você disse uma frase na TV que eu até gostei: “Tudo foi cinema. Começou como Godzilla em 2001 e agora acabou como Duro de Matar… Você devia abrir uma lojinha de frases…
- Quem sou eu, Nelson?…
- E agora, todo mundo tira casquinha da vitória do Obama. Os republicanos berram: “Se não fossem nossas torturas, não achavam o homem!” Do outro lado, gemem os éticos e idiotas da objetividade: “Foi ilegal – e nossos valores?” Esses caras já nascem com uma ética pré-fabricada e não se curvam ao intempestivo da História; não aguentam o mistério do acontecimento. Não veem que o certo e o errado estão misturados. Nietzsche disse: “As convicções são cárceres”. Os intelectuais têm de aprender a “não entender”…
- Mas Nelson, politicamente o momento…
- O momento é importante, sim, porque os ditadores bilionários da Arábia adoravam que os inimigos fossem os americanos, enquanto seus povos miseráveis batiam cabeça ajoelhados no chão… Agora, os árabes acordaram…
- Nelson, você virou marxista aí no céu…
- O Marx me chama de “reacionário”, mas me ouve muito e anda chateado com as bobagens que escrevem sobre ele na academia. Eu disse para ele: “Olha, Marx, a burrice é uma força da natureza, feito o maremoto”… Ele vive repetindo isso, achou uma graça infinita… Bom sujeito, o Marx…
- É… mas a História andou para trás…
- Para com isso, rapaz, a História não existe… Ela foi uma invenção daquele alemão, o tal de Hegel que, aliás, está ali sentado numa nuvem, chorando lágrimas de esguicho numa cava depressão… O sujeito achava que a História andava pra frente e, de repente, meia dúzia de malucos, cheirando a banha de camelo, transformaram nossa vida num pesadelo humorístico. Vocês achavam que a vida era movida pelas “relações de produção”, coisa e tal, mas esqueceram que a História pode ser “intempestiva, mutante”, como escreveu o Nietzsche, que também anda por aqui, bigodudo, muito sério, e disse uma frase genial para mim: “A filosofia é um exílio entre montanhas geladas…” O Nietzsche é um craque… Sempre que posso, tomo um cafezinho com ele. Nunca saímos da barbárie, pensa bem: tivemos duas guerras mundiais num século. Os alemães queimaram judeus, os americanos derreteram 200 mil em 30 segundos em Hiroshima e Nagasaki. A razão é um luxo de franceses… Aliás, tem um francês inteligente aqui, o Baudrillard. Ele disse: “Acabou o “universal” – agora, só há o “singular” e o “mundial”…” Bom, né?
- Mas, o futuro da humanidade…
- O mundo nunca foi feliz… Esse negócio de felicidade global é invenção do comércio americano… A humanidade dando milho para os pombos na Praça de São Marcos é lero-lero…Deus não quer isso. Vai olhar a Bíblia, a Torá; é tudo no “olho por olho”… Lembra da Inquisição? Deus é violento… (estou falando baixo que Ele está ali perto, consolando o Hegel).
- Mas o ser humano…
- Rapaz… A humanidade é uma ilusão. “Tudo que é real é irracional, tudo que é irracional é real.” Se o mundo acabar, não se perde absolutamente nada…
E desligou…

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Bolsonaro inclui Dirceu como ‘testemunha de defesa’


12/04/2011

Jair Bolsonaro, em charge que o retrata como neo-nazista: o deputado faz sua própria defesa.

Josias de Souza
Folha de São Paulo

Expira nesta quarta (13) o prazo para que o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) apresente sua defesa à Corregedoria da Câmara.
Acusado de racismo, ele informou que irá cumprir o prazo.
Disse que decidiu arrolar como testemunha de defesa o grão-petê José Dirceu, ex-chefão da Casa Civil.
Por que Dirceu? Bolsonaro içou do baú uma notícia veiculada pela ‘Folha’ há 18 anos, em 1993.
Para provar que os deputados assinavam projetos de lei sem ler, o jornal recolheu apoiamentos a uma proposição falsa e de teor esdrúxulo.
A proposta previa a volta do Brasil à condição de colônia de Portugal e o restabelecimento da escravidão no país.
Mais de cinco dezenas de deputados acomodaram o jamegão no projeto. Entre eles o então deputado federal José Dirceu.
“Esses que assinaram tal proposta se equivocaram ou são racistas?”, indaga Bolsonaro. “Quando outros erram é humano, quando eu erro é racismo?”
Bolsonaro foi à berlinda, seu habitat natural, depois de uma resposta atravessada que deu à cantora Preta Gil no programa CQC, da TV Bandeirantes.
A filha de Gilberto Gil perguntou o que ele faria se um filho se apaixonasse por uma negra. E Bolsonaro:
“Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.
Depois, levado às manchetes em posição constrangedora, Bolsonaro alegou que entedera errado a pergunta.
Pensou, segundo disse, que Preta Gil o houvesse questionado sobre a hipótese de um de seus filhos se apaixonar por um gay, não por uma negra.
Além de Dirceu, Bolsonaro disse que pode incluir no rol de testemunhas outros deputados e ex-deputados que assinaram o projeto fantasioso de 1993.
Na elaboração da defesa, ele dispensou o auxílio de advogados. Bolsonaro cuidar, ele próprio, da peça. Auxilia-o apenas o chefe de gabinete.
“A pessoa que procura um excelente advogado é porque tem culpa no cartório”, afirmou.
Nesta terça (12), véspera da apresentação da defesa, Bolsonaro voltou a protagonizar um rififi no plenário da Câmara.
Ocupava a tribuna o deputado Pastor Marco Feliciano (DEM-SP). Discorria sobre a obrigatoriedade de ensino religioso nas escolas.
Estabeleceu-se um debate sobre a condição do Brasil, um Estado laico.
Súbito, pendurado ao microfone de apartes, Bolsonaro injetou no lero-lero uma crítica à “cartilha gay” que, segundo ele, o MEC distribui nas escolas.
Presente à sessão, o deputado Luiz Alberto (PT-BA) tentou devolver o debate ao leito inicial, retomando a meada do ensino religioso.
Longe do microfone, Bolsonaro tentou interromper a fala do colega (foto abaixo). Luiz Alberto, que é negro, rodou a baiana:
“Vossa Excelência se pronunciou, e eu não o interrompi. Vossa Excelência é um antidemocrata, violento, intolerante, racista…”
“…Esta Casa precisa tomar uma atitude em relação a Vossa Excelência, que quer se fazer de vítima nesta Casa, mas não vai sair como vítima”.

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Artigo: Quando que foi bom?


Cena comum na Idade Média: é fato que evoluímos.

Luís Paulo Domingues
D’Incao Instituto de Ensino

No ano 2000, Arnaldo Jabor veio a Bauru para uma palestra, na então Cervejaria dos Monges. Paguei R$40,00 Reais para entrar – um preço que pode até ser razoável hoje, mas na época eram os olhos da cara.
Na palestra, Jabor falava sobre a maior desgraça brasileira: a vontade de levar vantagem em tudo. Ele fez um retrospecto da corrupção, desde o descobrimento do Brasil, e mostrou como herdamos o vício da desonestidade de nossos patrícios e feitores portugueses. Ele mesmo se incumbiu de dar um exemplo de displicência para com o próximo, pois tentou empurrar o público para o chopp de graça (cortesia da casa), esquivando-se de responder as perguntas e entrar no debate.
O que mais me marcou naquele dia, porém, foi quando ele disse mais ou menos assim: “-A gente vive reclamando que a situação está péssima hoje, que o governo do Fernando Henrique é isto e aquilo… mas quando que foi bom? Na Primeira Guerra Mundial? Na guerra da Criméia? Na Idade Média?”
É verdade. Quando o mundo foi justo? Quando as pessoas se respeitaram? Quando as promessas saíram do papel para contemplar a todos? Nunca!
No último carnaval, fiquei ilhado em um sítio isolado entre Piratininga e Brasilia Paulista. Quem tentava sair de carro encalhava. Já estava ficando sem paciência, quando me veio a Idade Média na cabeça. Imaginei aquele lugar na Idade Média, sem luz, sem comunicação com os feudos vizinhos, sem poder chegar nem mesmo a Piratininga, pois os vândalos finlandeses, os visigodos, os tártaros poderiam estar lá.
A gente reclama do trânsito em Bauru porque não tivemos que enfrentar as invasões bárbaras. Aquilo sim era ruim. Imaginem a sala dos professores do D’Incao a todo vapor e de repente chega alguém gritando: “-Fujam! Salvem-se! Os vickings estão chegando! Já estão subindo pela Getúlio!” O que falar para um cara gigante, loiro, barbudo, cheio de tranças, que carrega um machado e fala uma língua ininteligível? ( Por favor, não me mate!?)
Reclamamos dos buracos no asfalto porque não sabemos das condições das estradas da Idade Média, que eram percorridas à cavalo, contra tudo e contra todos.
Os pedágios já existiam. A Idade Média acabou por causa de um pedágio que os turcos-otomanos colocaram em Constantinopla. Aí os portugueses – que na época eram mais poderosos que os americanos de hoje – resolveram dar a volta na África, criando assim o capitalismo mercantil e, pasmem, a globalização.
Em nossos tempos modernos de grandes cidades, anti-depressivos e Ritalinas contra o déficit de atenção, somos constantemente atingidos por uma nostalgia inexplicável de um tempo melhor, menos injusto, mais tranquilo e em harmonia com a natureza. Mas esse idílio com o passado é algo que as novelas e os filmes enfiaram em nossas cabeças. Até 1888 eram os escravos que movimentavam isto aqui. Escravos.
É comum ouvir: “-No meu tempo, a escola pública era a melhor. O ensino era de primeira linha, o aluno tinha que respeitar os professores e tinha que aprender.”
Mas a imensa maioria da população vivia no campo, analfabeta e sem contato algum com a escola. A escola pública era boa porque servia à elite urbana. Na hora que foi preciso integrar toda a multidão que se mudou para as cidades, a escola pública foi esculhambada – um pouco porque era difícil manter a qualidade para tanta gente e muito porque era imprescindível que a escola mantivesse os filhos dos pobres sem pensar.
Isso não quer dizer que tenhamos que cruzar os braços e não fazer nada para resolver os problemas do mundo. Morrer de peste bubônica no século XIII, junto a um terço da população da Europa, imaginando que aquilo era obra do demônio ou um castigo de Deus é uma coisa. Morrer de malária em 2011 porque a indústria farmacêutica não se interessa em fabricar um remédio para uma doença que só atinge gente pobre é muito pior.

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O doce veneno do pecado


15 de março de 2011 | 0h 00

Bruna Surfistinha: a encarnação de um novo status para a prostituição.

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo
Fui ver o filme Bruna Surfistinha, o mais recente fenômeno de público e penso nas razões do imenso sucesso, para além das qualidades do filme, além do carisma de Débora Secco. Uma das razões é que a prostituta nos fascina. A chamada profissão mais antiga provoca intensa curiosidade nos caretas e pessoas “comuns”. Em nosso imaginário, a prostituta conhece mistérios de liberdade que nos são vetados. Ela vive uma impalpável ambiguidade que nos enlouquece: ela vive no mal e dá prazer, ela é um mal e um bem, ela está entre a liberdade sexual e escravidão. As peruas a desprezam e invejam. A prostituta é um mito. Claro que não falo da prostituta real, pobre, sofrida. Não me refiro ao problema social. Falo das que povoam nossas fantasias imaginárias.

A prostituta antiga era o oposto das esposas santas. Hoje, nossas mulheres da “vida” são chamadas de “garotas de programa” e fazem da cultura do entretenimento tanto quanto os filmes sobre elas. A prostituta contemporânea não é uma marginal; ela está no centro do sistema, como os advogados, banqueiros ou dentistas. A exploração e violência continuam, claro. Mas a aura obscura do pecado se desfez. Antes, nossas bacantes se escondiam pelos cantos, trêmulas de vergonha. Agora, com a permissividade pós-tudo, ser uma “mulher da vida” é uma profissão mais nobre do que a vida de muita perua casada (também uma profissão rentável). Aliás, o nome “mulher da vida” já denota que elas se aventuram no lugar abstrato onde imaginamos que se passa a “realidade”, a aridez do mundo sem lei, o mundo como um nervo exposto, demandando coragem e sobrevivência. Quando íamos aos prostíbulos adolescentes, tínhamos a sensação de conhecer o lado mau da vida, o lado “real” que nos escondiam, conhecer quase um doce “crime”. Eu fui a bordéis para conhecer a “vida”.
Antes, as “decaídas” precisavam do casamento sagrado que as excluía. A micheteira antiga era uma necessidade fisiológica, uma extensão, um “puxadinho” das famílias, para compensar a tristeza do amor conjugal.
Hoje elas são “acompanhantes”, “scorts”, “promoters” e outros eufemismos. São malhadas, aerodinâmicas, sadias. Hoje, elas são digitais, milhares de flores se oferecendo na Web.
Antigamente, vivíamos uma “feérie” de gonorreias. Hoje, elas é que temem as tuas doenças. A camisinha te exclui, te faz ridículo com o pênis encapotado como um cachorrinho de suéter. A camisinha te humilha e ofende; com a camisinha, você é que é o perigo – ela, a saúde.
As ex-decaídas (hoje ascendentes) modernas não aspiram a uma “vida normal”; preferem a gelada aventura pela grana. Cada vez mais a prostituta é pura – a vida social é que se “bordelizou”. A mulher romântica e a “perdida” infeliz são invenções dos homens, para minorar a insegurança que sentem diante das mulheres. Os fregueses de bordéis pagam as prostitutas para que elas não “existam”.
A prostituta contemporânea não se envergonha do trabalho e não tem sentimento de culpa; talvez, apenas nojo… de você. Elas te olham de igual para igual, ou melhor, com uma finíssima superioridade. Ela são ativas, despachadas, tomam providências, tirando do homem seu maior prazer, que era o sentimento de superioridade moral em folga passageira – um habitante do mundo limpo viajando no mundo “sujo”. Hoje, o sujo é você. Havia no velho putanheiro a vaga crença na recuperação das “infelizes”. No ar dos prostíbulos antigos, flutuava um silêncio triste pela ausência de amor, por um visível sentimento de culpa que fregueses tentavam preencher com uma repugnante bondade. O diálogo melodramático d”antanho denotava seu desejo de parecerem mais “humanos”:
“Por que você caiu nesta vida?” – perguntavam os hipócritas bordeleiros, antes do ato.
“Ah… meu noivo me fez mal, meu pai me expulsou…” – gemia a rapariga. “Mas, por que você não larga esta vida?”, sussurrava o canalha, superior e sinistro, tirando as calças.
Por isso é que elas se apaixonavam pelos cafetões boçais, que as espancavam com jubilosas bofetadas.
Elas não pensam em se salvar pelo casamento. Esse papo da Pretty Woman já era; elas não sonham com algum babaca romântico que lhes dê a mão; muitas são até bem casadas e ajudam os maridos. Conheci uma professora de Ribeirão Preto que se prostituía regularmente no Rio, num famoso lupanar da Rua Senador Dantas, onde era muito desejada, orgulhosa como uma rainha-mãe.
Mais “anormais” que elas são os homens que as procuram. Trata-se de um teatro a dois, onde as gargalhadas, os gozos fingidos escondem o drama, a dor, a realidade.
Os putanheiros não querem saber da realidade. Assim, escondem de si mesmos o constrangimento da situação, com mentiras consentidas, como se fosse possível o encontro feliz entre classes sociais. Para eles, a prostituta é uma utopia, a prostituta é o socialismo.
Há algo de artista nas prostitutas; mais que atrizes, elas acreditam em sua obra. Nelson Rodrigues disse: “Não há atriz mais inepta ou medíocre que represente mal uma prostituta. A meretriz de teatro é perfeita como a Eleonora Duse”. Mais artísticos ainda são os travestis, pois eles fazem arte séria e corajosa. O travesti tem orgulho de ser quem é; ele é uma afirmação de identidade. Há algo de clone no travesti, algo de robô, pois eles nascem de dentro de si mesmos; eles são da ordem da invenção poética.
Antigamente, ia-se ao bordel em busca de ilusões. O homem queria se sentir um sultão no harém. O putanheiro era o “sujeito” do lupanar. Hoje, ele é o “objeto”. Há um vento gelado nos bordéis atuais – limpos, rápidos e eficientes como uma lanchonete. Há algo de enfermeira ou psicóloga na moderna “cocote”. Há algo de McDonald”s nos puteiros de hoje.

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Religião na escola


03/03/2011 – 07h00

Ensino religioso nas escolas públicas fere o artigo 19 da Constituição Brasileira.

Folha de São Paulo

“O que são as histórias da Bíblia? Fábulas, contos de fadas?”, pergunta a professora do 3º ano do ensino fundamental. “Não”, respondem os alunos. “São reais!”
A cena, que teve lugar numa escola pública de Samambaia, cidade-satélite de Brasília, abre a reportagem de Angela Pinho sobre o ensino religioso no Brasil, publicada no último domingo na Folha. É um retrato perfeito da encrenca em que essa disciplina, que vem crescendo e hoje abarca mais ou menos a metade das escolas do país, nos lança.
Se as historietas bíblicas são reais, como quer a professora, então nós temos vários problemas. Procedamos por ramos do saber, a começar da física. De acordo, com Josué 10:12, Deus parou o Sol para que os israelitas pudessem massacrar os amorreus. Mesmo que eu não duvidasse da onipotência do Senhor, pelo que sabemos hoje de mecânica, nada na Terra sobreviveria a uma súbita interrupção de seu movimento de rotação. Em quem o aluno deve acreditar, no professor de religião ou no de ciência?
A física não o comoveu? Que tal a geologia? Pela Bíblia, a Terra tem cerca de 6.000 anos –5.771, a confiar nas contas dos rabinos. Pela geologia, são 4,5 bilhões. É difícil, para não dizer impossível, conciliar a literalidade das Escrituras com a existência de fósseis com idades substancialmente maiores que os seis milênios. Do lado de qual professor o aluno deve perfilar-se?
Talvez o problema esteja nas ciências “duras”. Passemos às humanidades. A Bíblia, como todo mundo sabe ou deveria saber, é a fonte da moral, e os ensinamentos que ela traz nessa área são incontestáveis. Será? Em várias passagens, o “bom livro” autoriza ou mesmo manda fazer coisas que hoje consideraríamos horríveis, como vender nossas filhas como escravas (Êxodo 21:7) e assassinar parentes que abracem outras religiões (Deuteronômio 13:7). Se julgamos que a ética se aprende através de exemplos livrescos, sugiro trocar as Escrituras pelo mais benigno Marquês de Sade.
OK. Alguém pode argumentar que essa professora é uma exceção. Afinal, ela parece estar sustentando a inerrância da Bíblia, conceito que, no Brasil, é defendido por poucas religiões, notadamente adventistas e testemunhas de Jeová. Para as demais, as Escrituras não precisam e nem podem ser tomadas ao pé da letra.
Admito que essa mudança de discurso nos livra de algumas das dificuldades mais vexatórias –já não precisamos conciliar o criacionismo da Terra jovem com as aulas de ciência–, mas nem de longe acaba com elas.
Como já expliquei numa coluna antiga, embora seja em teoria possível juntar uma teologia um bocadinho mais sofisticada com a seleção natural neodarwinista, essa conciliação acaba resultando num Deus menos atuante, que cria as leis do universo e se retira. Ocorre que esse é o Deus de Newton e de Leibniz, mas não o das pessoas que vão a cultos. Para elas, um Deus que não ouve preces e não interfere nos destinos dos humanos é inútil. E esse Deus que elas querem –e que os sacerdotes pretendem colocar nas aulas de religião– é, pelo menos no plano psicológico, incompatível com a ciência contemporânea que deveria ser ensinada nas escolas.
Não estou evidentemente sugerindo que as pessoas devam rifar Deus para ficar com a ciência. Essa é a minha opção, mas não acho que deva impô-la a ninguém. O simples fato de uns 90% da humanidade manifestar preferências religiosas é um bom indício de que essa é uma característica da espécie, como a tendência a gostar de música ou aquela quedinha por substâncias psicoativas. A verdade é que o ser humano tem algo de esquizofrênico. Só conseguimos conchavar crenças religiosas, que de algum modo acabam apelando ao impossível ou improvável, com o rigor lógico exigido pelo método científico, porque nosso cérebro está dividido em módulos. “Grosso modo”, quando a parte responsável pelo pensamento lógico está ativa, inibe a área da religião, e vice-versa. Com esse mecanismo, as contradições, quando não passam despercebidas, tornam-se digeríveis.
Até para facilitar esse processo, não convém que religião e ciência sejam ensinadas no mesmo espaço. Para que a criançada aprenda desde cedo a distinguir o discurso do “lógos” (científico) do do “mythos” (religioso), é melhor que a escola trate apenas da ciência e que a religião fique a cargo dos templos.
Cuidado, não estou afirmando que não seja possível estudar a religião com ferramentas científicas. Em princípio, a sociologia, a antropologia, a psicologia e a neurociência estão aí para isso. Mas convém lembrar que estamos falando aqui de crianças de 6 a 15 anos, muitas das quais mal conseguem aprender português e as operações aritméticas básicas. Não me parece que a abordagem científica da religião deva ocupar um lugar muito alto na lista de prioridades. De resto, duvido que o lobby que advoga pelo ensino religioso esteja ansioso para ver a fé submetida a exame crítico.
Para além da cabeça da garotada, o ensino religioso na rede oficial também gera uma série de problemas institucionais. Como eu escrevi em texto que acompanhou a reportagem principal, a existência dessa disciplina em escolas públicas fere a separação entre Estado e igreja.
Pelo menos em teoria, o Brasil é um Estado laico. Não há religião oficial e o artigo 19 da Constituição proíbe expressamente o poder público de estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança. É claro que a teoria soçobra antes mesmo de chegarmos ao artigo 19. O próprio preâmbulo da Carta invoca a “proteção de Deus”, e o artigo 210 prevê o ensino religioso nas escolas públicas de ensino fundamental.
Vale aqui observar que a única Constituição verdadeiramente laica que tivemos foi a de 1891, que rompeu com a Igreja Católica e eliminou quase todos os seus privilégios. As que a sucederam reintroduziram o ensino religioso.
Embora doutrinadores gostem de dizer que não há contradição entre os artigos 19 e 210, é forçoso reconhecer que colocá-los lado a lado gera pelo menos um mal-estar. Não é o único. A diferença é que, ao contrário de outros estrépitos constitucionais, que conseguem passar relativamente despercebidos, esse está produzindo consequências.
Por considerar que o Estado não pode regular matéria religiosa sem romper sua neutralidade diante delas (que caracteriza o laicismo), o CNE (Conselho Nacional de Educação) optou por não fixar parâmetros curriculares nacionais para a disciplina. A decisão é institucionalmente correta (e constitui uma prova indireta do erro que foi colocar o ensino religioso na escola pública), mas gerou um deus nos acuda, onde cada Estado definiu ao sabor da conjuntura política local como a matéria seria ministrada.
As pesquisadoras Debora Diniz, Tatiana Lionço e Vanessa Carrião, em “Laicidade e Ensino Religioso no Brasil”, traçam um panorama desse pequeno caos.
Pelo que elas puderam levantar, Acre, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro optaram por um sistema confessional, que não se distingue da educação religiosa oferecida em escolas ligadas a igrejas. Não é preciso PhD em Direito para constatar que esse tipo de ensino afronta o dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que veda o proselitismo no ensino religioso.
Os demais Estados menos São Paulo escolheram o modo interconfessional, no qual as religiões hegemônicas se unem contra as mais fracas e contra ateus e agnósticos para definir um núcleo de valores a ser ensinado aos alunos. Tampouco é um exemplo de defesa dos direitos das minorias.
Apenas São Paulo fez uma leitura um pouco mais crítica dos mandamentos constitucionais e se definiu pelo ensino não confessional. Pelo menos no papel, aqui as crianças têm aulas de história das religiões, no que é provavelmente a única forma de juntar sem produzir muitas fagulhas o ensino religioso com o princípio da separação entre Estado e religião.
Resta apenas responder porque a laicidade é assim tão importante. O problema com as religiões reveladas é que elas trazem absolutos morais. Se a lei foi baixada pelo Altíssimo, apenas querer discuti-la já representaria uma segunda ofensa contra o Criador. E utilizar absolutos na política –religiosos ou ideológicos– é ruim porque eles a descaracterizam como instância de mediação de conflitos. O remédio contra isso, como já intuíram no século 18 os “philosophes” do Iluminismo francês e os “founding fathers” dos EUA, é a separação Estado-igreja. Ela facilita o advento da política como arte da negociação e, mais importante, favorece a noção de que minorias têm direitos que devem ser protegidos mesmo contra a maioria. Aqui, paradoxalmente, o laicismo se torna a principal força a proteger as religiões umas das outras.

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Liberdade e revolução


Pelotão de fuzilamento iraniano em ação, em 1979, logo após a revolução que derrubou a ditadura do Xá.

JOÃO PEREIRA COUTINHO*

NADA COMO uma boa revolução para deslumbrar os deslumbrados. Sempre foi assim.
Em 1789, a França abria um novo capítulo na história do mundo e um jovem parlamentar francês, Charles-Jean-François Depont (1767-1796), escrevia ao seu amigo Edmund Burke (1729-1797), o parlamentar irlandês que fora decisivo na causa independentista dos colonos americanos.
Na sua missiva, Depont fazia uma pergunta retórica: Burke aprovava a queda da Bastilha e a nova era de liberdade que prometia banhar a França e a Europa? A pergunta era retórica porque Depont estava convencido de que sim: quem, em juízo perfeito, se opõe à “liberdade”?
A resposta de Burke está contida em “Reflexões sobre a Revolução em França” (1790), obra singular na história do pensamento político. E pode ser resumida numa única palavra: depende.
A “liberdade”, em abstrato, é um valor inestimável, responde Burke. Mas, na prática, será que somos capazes de festejar a “liberdade” de um louco que abandona a cela pronto para aterrorizar a vizinhança?
A metáfora de Burke é demolidora precisamente porque dinamita a “política de abstração” dos revolucionários franceses. Contra esses valores, Burke faz uma apologia do ceticismo e da prudência: o fato de derrubarmos um governo opressivo não significa necessariamente que o próximo será melhor.
Os jornalistas ocidentais que viajaram para o Cairo nunca leram Burke. E pouco sabem sobre a história das revoluções na era moderna: na França, Rússia e, claro, no Irã.
O caso iraniano é particularmente importante porque existem semelhanças de comportamento nos observadores ocidentais: em 1979, o Irã enterrava uma monarquia opressiva e corrupta e a “intelligentsia”, com igual idealismo, olhava para o exilado Khomeini como “o Gandhi da Pérsia”.
Escusado será dizer que Khomeini não foi o Gandhi da Pérsia, antes, o patrono de uma teocracia violenta que hoje treina e financia grupos terroristas como o Hamas, em Gaza, e o Hizbollah, no sul do Líbano.

Isso significa que o caminho do Egito será o do Irã três décadas atrás?
Ninguém sabe. Ou, como diria Burke, depende. E esse desconhecimento deveria refrear o entusiasmo infantil que a imprensa e a televisão despejam sobre nós.
Para começar, o Egito não parece ter condições materiais, culturais ou institucionais para garantir uma democracia liberal, respeitadora dos direitos individuais e, fato crucial, em que a religião não domine a vida política e imponha as suas regras.
Pelo contrário: o único partido da oposição a Mubarak organizado e disciplinado -a Irmandade Muçulmana- não garante esse quadro “democrático” e “liberal”. Basta olhar para o Hamas em Gaza.
Por último, é importante recordar o básico: não existem democracias sem democratas. Anne Applebaum, uma especialista na história do comunismo, escrevia recentemente na “Spectator” que os povos que desejavam a libertação do regime comunista na Europa do Leste identificavam-se com o modelo democrático ocidental.
Ler os textos políticos de Václav Havel ou Lech Walesa é encontrar apologias expressas a uma liberdade tutelada pela lei em que a dignidade da pessoa humana e a iniciativa individual são respeitadas.
Não existe nenhum Václav Havel ou Lech Walesa no Egito de hoje. E é, no mínimo, aberrante que os jornalistas e comentadores ocidentais confundam os milhares de manifestantes da praça Tahir -muitos deles genuínos democratas- com os 80 milhões de egípcios que estão longe, muito longe, desse tipo de cosmopolitismo.
Segundo as pesquisas conhecidas, realizadas pelo conhecido Pew Research Center, em 2010, a maioria dos egípcios deseja uma maior participação do Islã na vida política, não olha para a democracia com grande entusiasmo e até apoia esmagadoramente os preceitos penais mais bárbaros da sharia.
O Egito livrou-se de um ditador. Mas é possível e provável que o futuro seja pior -para o Egito, o Oriente Médio e para nós, ocidentais.
É por isso que, nos delírios românticos dos últimos dias, a única coisa sensata foi dita pelo vice-presidente Omar Suleiman na sua comunicação ao país. Disse ele: “Espero que Deus nos ajude”.
Nem mais. Só Deus, agora, pode ajudar o Egito.

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O cheiro da pobreza


Limpa fossas em Bangladesh: segundo Vargas Lhosa, a convivência com os excrementos é o indicador da pobreza.



MARIO VARGAS LLOSA

Revista Piauí
Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. “À vontade, doutor”, disse ele gentilmente. “O senhor quer urinar ou defecar?”. Respondi que a primeira alternativa. Sua curiosidade era acadêmica, porque o “banheiro” do posto era um cercado exposto à intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor estonteante. 

A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas, intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia e progresso de Amartya Sen – um economista que não acredita que o progresso se resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o que significa – na prática – o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de vida alto ou médio. 

A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta – uns 2,6 bilhões de pessoas – não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de “falta de acesso ao saneamento”, provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo. 

Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o sistema das chamadas “privadas voadoras”, sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens. 

Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada 1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte. 

Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas, na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores comerciais, a preços exorbitantes. 

Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) “pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades – e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York”. Esse preço desigual faz com que os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda. 

Não resisto a citar essa estatística do relatório: “Quando um europeu puxa uma descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas áridas do mundo em desenvolvimento”. E também a estimativa de que, com a água poupada caso os “civilizados” fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes, um continente inteiro de “bárbaros” poderia tomar banho. 

À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada. 

Em “Os miseráveis”, Victor Hugo escreveu que “os esgotos são a consciência da cidade”. Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos, longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto. 

Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência, sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem. 

Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. “Nascemos entre fezes e urina”, escreveu Santo Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas. 

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Aborto: salvar a lei, matar a pessoa


Coluna do Leitor 13 de outubro de 2010 às 17:55h
Carta Capital
Por Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira*

Serra e Dilma: atrelados historicamente à esquerda, agora incorporam a fé em busca de votos.

Nos últimos dias, assistimos a uma batalha de Tróia em torno da polêmica do aborto. As
eleições 2010 correm o risco de se tornararem um plebiscito sobre o tema. Um mais
pessimista diria que estamos assistindo a uma gincana. Ganha pontos quem consegue
mais acusações, boatos alarmantes, vídeos montados, satanização do adversário. A
mídia fala em bala de prata ou fato surpresa, algo parecido com as provas improvisadas
de última hora, como fazíamos nos jogos escolares.
Até poucos meses, a mídia do Brasil abominava a idéia da participação da religião na
esfera política. Agora, sem nenhuma explicação aparente, transformou a opinião de
alguns religiosos no discurso mais qualificado para formar a opinião do eleitor. Às vezes,
temos a impressão de que, a partir de 2011, o Brasil deverá adotar um regime de governo
condizente com uma república teocrática. Mal desconfiam os cristãos, católicos e
evangélicos que a mídia, que hoje exalta a religião, amanhã a desqualifica. A mídia dá, a
mídia toma, parafraseando Jó.
Como teólogo da teologia moral, sinto uma tristeza muito grande em ver que um tema de
tamanha complexidade, que possui um amplo conjunto de fatores determinantes, envolto
a histórias de tantas dores e sofrimentos, ser tratado com tanto quixotismo. Tudo está
sendo reduzido a ser contra ou favor. Os argumentos quase sempre são superficiais, não
verticalizados. Tratar o aborto como questão de saúde pública sem explicar suas
conseqüências não me parece honesto. É inocente também, para não dizer falacioso, o
chamado discurso em defesa da vida que fazem alguns religiosos. No fundo, está sendo
debatida somente a questão jurídica: deve existir ou não uma lei que criminaliza o aborto?
Contudo, qualquer pessoa com a mínima capacidade de ver o óbvio sabe que o simples
fato de existir uma lei não altera em nada a realidade: sendo ou não um crime, o aborto
existe em todos os países do mundo.
O debate em torno somente da questão jurídica me faz perguntar: estamos realmente
interessados em defender a vida ou em defender a “Lei”? Qualquer um que queira ser
honesto consigo mesmo sabe que o aborto não é evitado apenas pelo discurso moral das
religiões ou pela criminalização jurídica. É preciso repensar nossa cultura de morte.
Tenhamos coragem de assumir nossa parcela pessoal de culpa. A decisão de abortar não
é tomada exclusivamente pela mulher, é fruto de um conjunto de situações. O fim de um
relacionamento, a vergonha de se expor, a insegurança do futuro, a incompreensão dos
outros.
Existem também fatores sociais de grande relevância. Um empresário que não contrata
uma grávida ou que demite gestantes também está abortando; age da mesma maneira
um pai ou a mãe que ameaça expulsar sua filha de casa ou a julga inexperiente para
cuidar de uma criança; não foge a essa regra um parceiro que escapa da situação da
gravidez de sua namorada ou amante; a mídia que vende um prazer sem compromisso
também está contribuindo para o aborto; abortista também é a religião quando não é
capaz de acolher as chamadas mães solteiras com afeto e respeito, expondo-as à
marginalidade.
Essas são apenas algumas das questões, mas existem muitas outras que precisam ser
debatidas. Reduzir algo de tamanho relevo ao slogan “defesa da vida” é cometer um
pecado muito grave.
Por fim, sonho com o dia em que todos nós, que realmente defendemos a vida da sua
concepção até o seu fim natural, nos empenharemos em projetos sérios, com uma
agenda positiva, buscando soluções no diálogo com psicólogos, médicos, biólogos,
sociólogos, mães e pais que sofreram esta experiência e com aqueles que querem evitá-
la. No dia 31 de outubro teremos Dilma ou Serra presidente. Não quero ser pessimista,
mas se até lá novos temas não surgirem para a avaliação dos eleitores, a mídia terá
esquecido a religião. Os bispos, pastores e o Brasil não terão debatido nem sequer uma
proposta de governo para os próximos quatro anos. Muitas vidas correrão perigo,
principalmente a dos mais pobres. Aí será tarde demais.
*Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira é Redentorista. Graduado em Filosofia e Teologia.
Mestre em Ciências da Religião pela PUC-GO. Professor de Teologia Moral no Instituto de
Filosofia e Teologia de Goiás. Mestrando em Teologia Moral pela Università Lateranense –
Accademia Alfonsiana – Roma
Coluna do Leitor
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opiniões expressas aqui não refletem a opinião desta revista. Para participar, basta se
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O luto da arte


Revista Cult
Márcia Tilburi

Obra de Daniel Hirst: inclassificável no conceito de beleza artístico.

A tese da morte da arte ainda significa mais do que parece
Publicado em 05 de abril de 2010

A discussão sobre a morte da arte teve um lugar essencial nas Lições de Estética, de Hegel, no século 19. Não se pode perder de vista que a morte da arte à qual Hegel se referia era a da arte bela e não da arte de modo geral. Se Hegel tem razão, em havendo uma morte da arte que não deve ser generalizada, trata-se de entender que tipo de arte, para além da arte bela, sobreviveu. Em um século de genocídios, ditaduras e violências de toda sorte, a arte é a memória da sua própria morte.
A pré-história dessa percepção está na Crítica da Faculdade de Julgar, de Kant, que antes afirmou a existência de dois sentimentos, o belo e o sublime, como sustentáculos da experiência estética. Belo – a sensação de prazer com os objetos agradáveis – e sublime – um misto de prazer com desprazer – são formas de acesso subjetivo à beleza, tanto da natureza quanto das artes. Kant define a arte bela como aquela que pode representar de modo belo até mesmo as coisas feias. A tarefa histórica da arte sempre foi a de colocar beleza no mundo e suplantar o feio. Criamos essa expectativa e isso hoje em dia não nos ajuda.
Mas o próprio Kant disse que havia uma espécie de feiura, que não pode ser representada de acordo com a natureza sem cancelar a complacência estética, ou seja, a nossa capacidade de perceber a beleza em geral e a beleza da arte. Kant refere-se à feiura que desperta asco. O asco, segundo Kant, é uma “sensação peculiar” marcada pela imposição do objeto feio que imediatamente se nos lança sobre os sentidos, sem que desejemos aceitar sua presença. O filósofo espanhol Eugenio Trías dá um exemplo repugnante só de ler: quem pisa em um rato morto e eviscerado na rua tem a sensação de que ele vai parar dentro da boca. A experiência do asco se dá como se um prato de merda fosse oferecido para se comer.
O asco é uma espécie de sentimento impossível, por estar na contramão do gosto. Podemos traduzi-lo por nojo. E nojo é algo que se traduz por luto. A experiência do asco ou do nojo, como experiência do des-gosto, é da mesma ordem da experiência do luto, de algo que não desejamos e que mesmo assim se impõe. A lástima pela perda de um objeto amado, mas também do gosto – seja pela arte, seja pela vida – que acompanhava aquele objeto é experiência disseminada em nossa cultura, da qual a arte atual vem a ser a apresentação mais clara.
A arte, do asco ao luto

O luto é sempre uma reação à perda de um objeto amado. É, portanto, a experiência da morte enquanto ela pode ser conhecida: a morte dos outros, das coisas, das experiências. Até mesmo, como em Luto e Melancolia, de Freud, a perda de uma abstração, de um ideal qualquer. Nunca a da epicuriana morte que não encontraremos, pois já não estaremos quando ela aparecer. A arte contemporânea é experiência enlutada e, por isso, dói tanto tratar dela. Encará-la é experimentar o luto na forma de sua exposição possível. Mas, se há entre arte e vida, entre ficção e realidade, uma relação que é sempre de mimese, por imitação ou por mimetismo, e se há tanta perda na vida, a arte não deveria ser nosso resgate para além do que a vida nos dá sem nenhuma elaboração?
A promessa romântica da arte é que ela viria nos salvar da vida. Mas, após a perda da ingenuidade romântica, por que ainda esperamos tanto da arte? Arte é apenas um conceito que tem tão pouco valor quanto pouco uso nos dias de hoje. No entanto, arte ainda é, como conceito, algo que vai na frente da nossa sempre atrasada sensibilidade. Que a arte mova nossa sensibilidade é a esperança sem fundamento de muitos, mas sensibilidade é uma formulação imprecisa entre o perigoso culto da emoção e os sentimentos que só são elaborados mediante a interferência da racionalidade capaz de criar conceitos. Não há chance de que arte hoje seja mais do que uma construção para fazer pensar.
Temos na experiência contemporânea da arte a autopresentificação do seu próprio luto. Como se a arte ainda estivesse no período enojado em que tem que se haver com a memória de um cadáver que é ela mesma e que, na verdade, mimetiza o estado das coisas de um mundo em crise de sentido. Assim é que a obsolescência do conceito de arte o coloca na posição de um conceito-memória. Um conceito que foi válido, mas que perdeu sua circunstância na atualidade. Arte não é mais a bela arte, ainda que possamos com muito esforço descobrir nas obras que a beleza também é um conceito e, como tal, uma visão das coisas.
O paradoxo do gosto

O que a arte contemporânea nos sugere é a experiência do paradoxo do gosto. Como é possível “apreciar” esteticamente aquilo que repugna se neste momento a experiência estética como mediação entre sensibilidade e racionalidade foi anulada? A questão é que a arte contemporânea, sendo trabalho do luto, acontecendo na contramão do gosto, provoca sempre a experiência do desgosto. Por isso, a arte conceitual tem tanto espaço em nosso tempo, por chamar ao pensamento em tempos de cancelamento da sensibilidade. É como se toda obra nos enviasse a mensagem: se não podemos “gostar”, podemos “pensar”. É o paradoxo da inestética: a sensação é de perda da sensibilidade na arte; mais do que um problema da arte, é problema da cultura na qual ela surge. Um artista como Damien Hirst, com seus bezerros e tubarões no formol, não é, portanto, julgável segundo o padrão do gosto pela arte bela, porque estamos em tempos de perda do gosto. O que será que ele nos mostra que não sabemos pensar?
Com isso se consegue compreender o que acontece com a arte atual. Ela é a experiência da morte da própria arte bela nestes tempos de desgraça cultural. Tempos tensos: de um lado tragicofílicos – desejamos a tragédia – e de outro tragicofóbicos – evitamos a morte a qualquer custo –, como disse Hans Gumbrecht. Podemos dizer, nestes tempos, que a arte se faz na ordem do trágico, este sentimento da “morte em mim”, da morte como experiência subjetiva, como imagem da melancolia que nada mais é do que a morte do eu e do pensamento que sempre foi a prova de que existia algo chamado “eu”. Não, não exageremos.
A arte contemporânea não é nem trágica nem melancólica. Enlutada, ela nos pede que ultrapassemos a memória da morte e reinventemos o presente. Só o que impede isso é o capital culto à desgraça em que vivemos hoje. O gozo atual é com a ideologia da morte como um fim, quando, na verdade, estúpidos e conceitualmente avarentos, não sabemos entender o valor e o poder das transformações históricas das quais a arte nos dá apenas uma imagem para nos fazer acordar. Mas quando até mesmo a desgraça se tornou um “capital”, haverá espaço para a arte que denuncia o seu caráter capitalista? (Marcia Tiburi)

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