16/08/2011 – 08h30

GUILHERME GENESTRETI
IARA BIDERMAN
DE
Folha de São Paulo
Como visão de mundo ou expressão do temperamento do artista, a melancolia é um tema recorrente na história da arte.
Nas artes plásticas, a obra referencial é “Melencolia I”, gravura de 1514 do pintor, gravurista e arquiteto alemão Albrecht Dürer (1471-1528).
Melencolia I’, Albrecht DürerSegundo o crítico e professor de arte Rodrigo Naves, a gravura representa uma concepção de mundo em que estados de espírito e vocações eram regidos por forças exteriores ao indivíduo (deuses, planetas).
Nessa visão, a melancolia é também a deusa das artes liberais, associada ao pensamento reflexivo e à atividade intelectual.
A postura do anjo de Dürer, com a mão apoiada na cabeça, vai se consagrar como símbolo de melancólico.
São Jerônimo no Deserto’, Leonardo da VinciPara Frérederic René Guy Petitdemange, professor de história da arte da faculdade Anhembi Morumbi, é a postura prenunciada na obra “São Jerônimo no Deserto” (1480), de Leonardo da Vinci (1452-1519).
Retrato do Dr. Gachet’, Vincent Van GoghÉ também a posição que vai representar a melancolia em obras dos séculos seguintes, como o “Retrato de Dr. Gachet” (1890), do pintor pós-impressionista Vicent van Gogh (1853-1890).
O Pensador’, de Auguste RodinA escultura “O Pensador” (1902), de Auguste Rodin (1840-1917), é outro exemplo da representação desse estado de espírito, que reforça a ligação entre a melancolia e a reflexão intelectual.
Saturno Devorando um Filho’, de Francisco de GoyaA simbologia relacionada à melancolia, como o deus greco-romano Saturno (ou Cronos, senhor do tempo) surge na obra do espanhol Francisco de Goya (1746-1828). A pintura “Saturno devorando um filho” (cerca de 1820) é o melhor exemplo e uma das mais famosas da “fase negra” do pintor.
Vampiro’, de Edvard MunchSeres noturnos (morcegos, vampiros e corujas) são outros símbolos da melancolia usados ou aludidos pelos artistas. Um exemplo é a obra “O Vampiro” (1894), do norueguês Edvard Munch (1863-1944).
Nude’, de Francis BaconNo olhar do século 20, pessoas sozinhas e espaços vazios, com cores frias, retratam a melancolia/monotonia moderna. É o nu do britânico Francis Bacon (1909-1992), com a mesma cabeça apoiada na mão pintada pelos renascentistas ou o solitário que contempla o nada na tela “Office in a Samll City” (1953), do americano Edward Hopper (1882-1967).
NA LITERATURA
Poetas e escritores também foram acometidos pela melancolia.
“Se eu morresse amanhã”, do poeta romântico Álvares de Azevedo
A sensação de mal-estar marcou o romantismo, movimento literário dos séculos 18 e 19 que começou na Europa e chegou ao Brasil pelas mãos de autores como Álvares de Azevedo (1831-1852) e Fagundes Varela (1841-1875).
“O poeta dessa época vive assombrado pela ideia de perda e pelo suicídio”, explica Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária da Unicamp.
O escritor João Guimarães RosaRiobaldo, protagonista de “Grande Sertão: Veredas” (1956), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), é do tipo melancólico, segundo Seligmann. “Ele perde Diadorim e vai trabalhar a perda narrando a sua história”, diz.
A escritora Clarice LispectorClarice Lispector (1920-1977) é outra escritora lembrada por seu temperamento mais introspectivo.
Sua obra mistura duas fontes de melancolia, diz seu biógrafo, Benjamin Moser. A primeira é o Brasil, cuja realidade social a deixava incomodada; a segunda é a sua origem judaica _isso sem falar nos seus dramas familiares.
“Ela era deprimida, mas conseguiu fazer algo com a depressão, que é a sua obra”, disse Moser à Folha. “Como os grandes artistas, ela era muito sensível ao que acontecia ao seu redor.”
Nos EUA, o escritor David Foster Wallace (1962-2008) é outro exemplo.
O autor dos contos de “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” e do romance “Infinite Jest” (ainda não traduzido para o português) sofria de depressão e cometeu suicídio.
“Ele era irônico, sarcástico. Muitas vezes, essa ironia é uma resposta à melancolia”, diz Seligmann.
NO CINEMA
Melancolia é tradição dos filmes nórdicos, segundo Luiz Nazario, professor de história do cinema na UFMG. “A luz pálida do inverno, o frio intenso, a solidão e o medo do contato físico… Tudo ali parece levar a uma profunda melancolia.”
Cena do filme “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman
O sueco Ingmar Bergman (1918-2007), diretor de filmes como “Gritos e Sussurros” e “A Hora do Lobo”, não foge à regra. “A sua obra é uma grande psicanálise da vida dele mesmo. Seus personagens estão mergulhados em depressões existenciais que beiram a loucura”, diz Nazario.
Esse estado de ânimo também inspirou os diretores do expressionismo alemão, da década de 1920.
Cena do filme “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Weine
Os personagens atormentados desses longas “arrastam sua melancolia por cenários deformados”, segundo Nazario. Alguns exemplos: o sonâmbulo Cesare de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) e o pianista ensandecido de “As Mãos de Orlac” (1925)
Nicole Kidman como Virginia Woolf no filme ‘As Horas’No mais recente “As Horas” (2002), depressão e morte se repetem nas três histórias do filme, que mistura a vida da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) com a de uma depressiva dona de casa americana dos anos 50 e a de seu filho suicida.
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