17/02/2011 – 09h02

Início da ocupação da praça Pearl, em Manama: a revolta árabe chega aos países ricos.
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Folha de São Paulo
Nota do D’Incao
Luís Paulo Domingues
A revolta das populações árabes que começou com a deposição do ditador da Tunísia, no início do ano, se espalhou pelo norte da África e Oriente Médio. Marrocos, Líbia, Egito, Iêmen, Jordânia, Irã, Iraque e até a ultra policiada Síria estão enfrentando problemas com protestos da população por diferentes demandas. Todos esses países são nações com grande população, onde uma porcentagem significativa das massas se encontra nas estatísticas da pobreza e da exclusão social e cultural.
A novidade no Bahrein é que, pela primeira vez nesta onda de protestos, um dos “paraísos” árabes do Golfo Pérsico foi atingido. Devido à extrema riqueza e às ótimas condições de vida de seu povo, países como o Bahrein, Kwait, Qatar, União dos Emirados Árabes e Omã não apareciam nas previsões dos analistas que monitoram as recentes revoltas no mundo árabe. Porém, a monarquia sunita do Bahrein, que governa uma população majoritariamente xiita há mais de 200 anos, acabou caindo na esteira dos protestos islâmico.
Os líderes xiitas do Bahrein dizem que não querem a queda da monarquia, mas sim uma maior participação da população xiita no parlamento e nas decisões do Estado.
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Folha de São Paulo
Forças de segurança do Bahrein, apoiadas por dezenas de tanques blindados, invadiram sem aviso prévio a praça Pearl, no centro da capital, Manama, para expulsar, com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, milhares de manifestantes antigoverno. Ao menos quatro pessoas morreram e cem ficaram feridas, elevando a seis o número de mortos durante quatro dias de protestos.
Milhares de manifestantes xiitas saíram às ruas do país nesta semana pedindo reformas políticas e melhorias econômicas no país, onde uma família de muçulmanos sunitas governa uma população que é majoritariamente xiita.
Centenas de pessoas acamparam na praça Pearl, um cruzamento na capital que eles pretendiam transformar em base dos protestos como aconteceu com a praça Tahrir, no Cairo, que levou à renúncia do ditador egípcio, Hosni Mubarak, na última sexta-feira.
Mas a praça bareinita estava praticamente vazia no início desta manhã, depois de a polícia ter invadido o local, que estava cheio de barracas abandonas, cobertores e lixo, O cheiro de gás lacrimogêneo pairava no ar.
“Eu estava lá. Os homens estavam correndo, mas as mulheres e as crianças não podiam correr tão facilmente”, disse Ibrahim Mattar, um parlamentar do principal bloco de oposição xiita, o Wefaq, que abandonou o Parlamento do país.
Mahmoud Mansouri, um manifestante, disse que a polícia cercou a praça e então, rapidamente, a invadiu. “Gritamos ‘estamos em paz! Paz!”. Mulheres e crianças foram atacadas como o resto de nós”, contou. “Eles moveram assim que a imprensa nos deixou. Eles sabiam o que estavam fazendo.”
O médico Sadek Akikri, 44, disse que estava atendendo manifestantes em uma tenda improvisada quando a polícia a invadiu. Ele contou ter sido amarrado e espancado.
“Eles estavam me espancando tão forte que eu não podia mais ver. Tinha muito sangue escorrendo da minha cabeça”, contou.
Os manifestantes começaram a acampar no local na última terça-feira, debaixo de um monumento de 90 metros representando uma pérola gigante (pearl, em inglês, significa pérola), fazendo da praça o centro nervoso dos primeiros protestos antigoverno que atingiram o golfo Pérsico desde as revoltas populares na Tunísia e no Egito.
O Parlamento do Bahrein se reuniu em uma sessão de emergência. Um membro pró-governo, Jamila Salman, derramou lágrimas.
Muitas famílias foram separadas no caos. Um fotógrafo da Associated Press viu policiais reunindo crianças perdidas e as levando para veículos.
O correspondente da rede americana ABC News, Miguel Marquez, foi apanhado no meio da multidão e espancado por homens que levavam cassetetes. No entanto, ele não teve ferimentos graves.
Funcionários de hospitais, falando sob condição de anonimato porque não estavam autorizados a conversar com a imprensa, afirmaram que quatro pessoas foram mortas nesta terça-feira. O número de feridos chega a dezenas –o espanhol “El País” cita 300.
Choques esporádicos entre policiais e manifestantes continuaram pela manhã, com antigovernistas jogando pedras e depois recuando. Um grupo de jovens homens quebrou o pavimento para conseguir mais pedras.
Um corpo coberto com um lençol branco estava em meio a uma poça de sangue em uma rua localizada a 20 metros da praça.
Tanques e veículos blindados eram vistos em algumas ruas –o primeiro sinal de envolvimento militar na crise– e autoridades enviaram uma mensagem de texto para telefones celulares que dizia: “O Ministério do Interior alerta todos os cidadãos e residentes para não saírem de casa devido a conflito potencial em todas as áreas do Bahrein”.
PROTESTOS
Os protestos no Bahrein começaram na última segunda-feira como um pedido para que a monarquia sunita que comanda o país afrouxe o controle, incluindo não indicar mais pessoas para os cargos governamentais mais altos e abrir mais oportunidades para a população xiita, que é maioria no país e há muito reclama de ser excluída do processo de tomada de decisões.
Mas as demandas rapidamente ficaram maiores. Muitos manifestantes pedem que o governo ofereça mais empregos, melhores moradias e liberte todos os prisioneiros políticos. Eles também gritam frases contra a monarquia que tem liderado o Bahrein por mais de 200 anos.
Chamados feitos por meio de redes sociais na internet pressionam para que a população leve adiante os protestos, além de estarem cheias de insultos por parte de supostos partidários do governo que chamam os manifestantes de traidores e de agentes do xiita Irã.
O líder do maior bloco político xiita, xeque Ali Salman, afirmou que não há pedidos por um papel do islã na política. “Não estamos buscando um governo religioso como o do Irã, mas queremos um governo civil que represente xiitas e sunitas”, afirmou em uma entrevista coletiva.
O grupo, o Al Wefaq, tem 18 cadeiras em um Parlamento composto por 40, mas boicotou a Casa em protesto pela violência contra os manifestantes.
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