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EUA financiam grupos armados afegãos de forma indireta, diz Câmara


DA REUTERS, EM WASHINGTON

Publicado na Folha de S. Paulo

Senhores da guerra: chefes tribais espalhados por todo o Afeganistão cobram "caixinha" de americanos.

Os Estados Unidos pagam indiretamente dezenas de milhões de dólares a grupos armados afegãos e talvez até ao Taleban, em troca de proteção aos comboios que levam mantimentos a tropas norte-americanas no país, segundo investigadores ligados à Câmara dos Deputados dos EUA.
A prática do Pentágono de terceirizar o deslocamento de bens no Afeganistão, deixando as próprias empresas encarregadas da sua segurança, libera tropas para o combate à insurgência.
Mas os “efeitos colaterais” dessa atitude podem prejudicar o combate à corrupção e o fortalecimento das instituições, segundo o relatório, a ser examinado numa audiência parlamentar na terça-feira.
“Este arranjo tem alimentado um vasto esquema de proteção mantido por uma rede obscura de senhores da guerra, homens fortes, comandantes, autoridades afegãs corruptas e talvez outros”, disse em nota o deputado democrata John Tierney, presidente de uma subcomissão de segurança nacional da Câmara.
O relatório, preparado por assessores democratas da subcomissão, diz que os pagamentos em troca de proteção representam “uma fonte potencialmente significativa de financiamento para o Taleban”. O texto cita vários documentos, incidentes e emails que mencionam tentativas de extorsões do Taleban.
Contrato
O contrato, conhecido pela sigla HNT (de “Transporte por Caminhões na Nação Anfitriã”, na sigla em inglês), e envolve uma cifra de 2,16 bilhões de dólares e abrange 70% do transporte de combustível, alimentos, munições e outros itens para as tropas dos EUA. A investigação começou em novembro de 2009.
Segundo o relatório, as empresas de transporte e suas subcontratadas “pagam dezenas de milhões de dólares anualmente a senhores da guerra locais em todo o Afeganistão, em troca de “proteção” para os comboios de abastecimento do HNT que apoiam tropas dos EUA”.
“Os contratados do HNT frequentemente se referiam a tais pagamentos como ‘extorsão’, ‘subornos’, ‘segurança especial’ e/ou ‘pagamentos por proteção’”, acrescenta o documento.
Os investigadores disseram que várias empresas já se queixaram ao Pentágono, mas que não houve providências adequadas.
O relatório sugere que o Departamento de Defesa acompanhe mais de perto o transporte das suas cargas e assuma a responsabilidade direta pelas ações das empresas contratadas.
O texto recomenda também uma avaliação detalhada dos efeitos secundários do contrato HNT, inclusive a respeito da corrupção gerada e do impacto sobre a política afegã.

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“Sinto nojo de ser policial”


26/11/2009

“Sinto nojo de ser policial”, diz PM em livro que revela homicídios no RJ

FABIANA SERAGUSA
colaboração para a Livraria da Folha
Publicado na Folha On Line

Capa do polêmico livro: mais impressionante que Tropa de Elite.

“A corporação estraga uma vida sem dó, só para satisfazer a vontade de uns ou fazer favores para outros. Como são sujos! (…) Se a população soubesse que eles proíbem a polícia de entrar nos morros, que o dinheiro corre solto na cúpula superior. A população não tem ideia da verdade. (…) Hoje que conheço a verdade, sinto nojo de ser um policial.”
Esse desabafo é de um PM do Rio de Janeiro que decidiu contar em detalhes os homicídios e as extorsões realizadas pela polícia militar nas ruas e favelas da Cidade Maravilhosa.
Reunidos no recém-lançado “Sangue Azul” (Geração Editorial, 2009), livro escrito pelo roteirista de cinema Leonardo Gudel, os relatos mostram que é “comum” pagar proprina dentro do próprio batalhão para conseguir benefícios como férias, munição extra e aposentadorias antecipadas, mas também revelam o susto e a indignação dos policias novatos ao perceberem que os comandantes da polícia recebem dinheiro dos traficantes.

No livro, essa revolta fica evidente quando o policial Rubens –nome fictício dado ao protagonista real– toma conhecimento, pela primeira vez, desse tipo de delito. “Cambada de safados! O mais engraçado é que o nosso coronel aparece toda hora na TV, tirando onda de santo”. Ele havia acabado de descobrir que seu superior ganhava R$ 70 mil para “deixar em paz” um dos chefes do tráfico.

Em entrevista à Livraria da Folha, o autor Leonardo Gudel conta que foi o policial Rubens quem o procurou para transformar estas experiências em livro, e que os episódios o deixaram tão impressionado que ele não teve dúvidas, aceitou de imediato o desafio. “A narrativa é toda em primeira pessoa, e, para isso, fiz um trabalho minucioso junto com o policial para captar, inclusive, o seu jeito de falar”, explica o cineasta, que após a publicação da obra evita manter contato com o PM, “por questão de segurança”.
Abaixo, veja quais revelações de Rubens mais surpreenderam Gudel, e entenda porque o autor acha que “fica difícil dizer que um policial é totalmente honesto”.
*
Livraria da Folha – Você tem medo de sofrer algum tipo de atentado?
Leonardo Gudel – Prefiro não pensar nisso.
Livraria da Folha – Há alguma história inventada ou “incrementada” no livro?
Gudel – Todos os fatos foram escritos seguindo fielmente o que o policial me contou.
Livraria da Folha – O que mais te surpreendeu?
Gudel – A trajetória brutal de uma pessoa comum, que entra num emprego que é obrigado a matar e acaba se acostumando com isso. Você consegue imaginar um ser humano nestas condições? Antes de escrever o livro, eu nunca tinha parado para pensar nisso.
Livraria da Folha – Qual dos relatos você nem imaginava que ocorria entre os policiais?
Gudel – Achei incrível a sensação que ele passou de se sentir um marionete nas mãos dos comandantes de batalhão que recebem dinheiro de traficantes. O comandante manda a viatura estacionar na frente do morro, para a população de classe média, que passa de carro, se sentir segura, mas o tráfico continua operando, mesmo com os policias por perto. É muita cara de pau.
Livraria da Folha – Em algum momento você notou arrependimento do policial?
Gudel – Várias vezes ele me disse: “Eu só faço o furo, quem mata é Deus”. Uma pessoa que convive diariamente com a morte acaba criando um bloqueio na cabeça para não pirar. Ela acaba se tornando insensível ao que normalmente nos chocaria. Mas sim, eu notei um arrependimento da parte dele.
Livraria da Folha – Em qual ocasião?
Gudel – Quando o policial começou a notar que a violência estava entrando na casa dele. Na época que a família o deixou, ele se tocou que estava agindo com sua mulher e filho como ele agia diariamente no trabalho. Isso foi um choque. Foi aí que ele percebeu que estava tudo errado.
Livraria da Folha – Mesmo que a intenção de um policial seja honesta quando ele entra para este trabalho, você acha que, no fim, ele acaba igual a um bandido?
Gudel – Eu acho que quando uma pessoa honesta entra para PM ela pensa que pode se manter longe da chamada “banda podre”. O problema é que não existe esse conceito de “banda podre”. Pelo o que o policial contou, dentro da estrutura do batalhão, os policiais têm que pagar propina para outros policiais para conseguirem benefícios como férias, munição extra, transferências. Pequenos delitos diários que acabam virando rotina e se transformando em algo normal. É como a farra das passagens aéreas dos políticos. Teve gente usando indevidamente o dinheiro do povo sem sentir, como se aquilo fosse normal.
Livraria da Folha – Por sua experiência e por tudo o que ouviu, você acha que existe policial totalmente honesto?
Gudel – Dentro dessas condições, de acharem que pequenos delitos não são ilegais, fica difícil dizer um policial é totalmente honesto. O que ficou claro para mim no relato é que a intenção da maioria dos policiais é verdadeiramente boa. O problema é que muito deles nem percebem que estão praticando crimes, ou se percebem acham que é uma coisa menor.
Livraria da Folha – Quem você acha que não vai gostar do seu livro? Policiais, políticos, traficantes?
Gudel – Acho que os policiais vão gostar, pois com certeza eles querem melhores condições de trabalho. Sobre a opinião de políticos e traficantes, eu realmente não sei responder.
Livraria da Folha – Você acha que o livro pode ajudar a mudar esta situação?
Gudel – Espero que sim. O livro expõe a situação. Esse é o primeiro passo para que algo seja feito a respeito.
Livraria da Folha – O policial acompanhou a produção do livro, lendo trechos? Pediu pra alterar ou suprimir algo?
Gudel – Ele acompanhou de perto. A narrativa do livro é toda em primeira pessoa, para isto fiz um trabalho minucioso junto com o policial para captar inclusive o jeito dele falar. Durante o processo, ele me contou alguns fatos surpreendentes, mas em seguida pediu para não serem escritos no livro. Eu respeitei.
Livraria da Folha – O que mudou na sua visão em relação aos policiais?
Gudel – Confesso que antes do livro eu não simpatizava nem um pouco com os policiais. Hoje eu admiro a coragem e a força de vontade desses homens. É difícil julgar, pois cada um sobrevive como pode dentro da guerra. Espero que a discussão gerada em torno do livro possa trazer melhores condições de trabalho e vida para eles.
Livraria da Folha – Há quanto tempo você não fala com o policial?
Gudel – Por questão de segurança, prefiro não responder.

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Deputada Federal Cidinha Campos salva a classe política


Caso raro de deputada falando verdades que sempre deveriam ser ditas:

Pena que parlamentares como ela não sejam a maioria pelas casas legislativas deste país afora.

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O alto custo da corrupção na África


Por Mohammed A. Salih, da IPS – site MWG media watch

Washington, 18/3/2010 – A pobreza recrudesce na África subsaariana e a corrupção ameaça solapar os resultados positivos dos investimentos feitos para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), segundo o Banco Mundial. O informe intitulado “Indicadores de desenvolvimento da África 2010” calcula que o número de pessoas que vivem com menos de US$ 2 diários passou de 292 milhões em 1981 para quase 555 milhões em 2005.

O trabalho mostra um panorama sombrio e diz que a região subsaariana apresenta “o desafio mais formidável para o desenvolvimento” no mundo. Milhares de africanos morrem de doenças evitáveis todos os dias, e o vírus HIV, causador da aids, e a malária seguem avançando no continente. O Banco Mundial destaca a corrupção “onipresente” na África, em um trabalho de 29 páginas sobre o assunto.

Concentra-se na “corrupção silenciosa”, um termo que se refere ao fato de “os empregados públicos não fornecerem os bens ou serviços que os governos pagam” a menos que seja dada uma remuneração adicional. A instituição financeira internacional alerta sobre as “nocivas consequências no longo prazo” que a corrupção silenciosa trará para a África, e adverte que marginalizará em grande parte os pobres. Embora a corrupção silenciosa seja “onipresente” na África, com é menos “destacada” e “chamativa” do que a corrupção em grande escala, aquela recebe menos atenção, segundo o Banco Mundial.

Como exemplos de corrupção silenciosa, o informe aponta que em alguns países subsaarianos os professores primários faltam ao trabalho entre 15% e 25% do tempo. O problema também se estendeu ao setor da saúde, com consequências fatais. No meio rural da Tanzânia, 80% das crianças que morreram de malária receberam atenção médica, mas em vão. A falta de equipamentos para realizar diagnósticos, o roubo de medicamentos e a escassez de pessoal médico nos centros de saúde contribuíram para a mortandade infantil, diz o informe do Banco Mundial.

No setor agrícola, um dos grandes motivos que explicam o escasso uso de fertilizantes é a má qualidade dos mesmos no continente. Aproximadamente, 43% dos fertilizantes produzidos na África ocidental na década de 1990 careciam dos nutrientes necessários devido aos péssimos controles nas fases de produção e venda no atacado, acrescentou o informe. Referindo-se à onipresença da corrupção silenciosa, o informe do Banco, divulgado no dia 15, descreveu a conhecida “corrupção grande”, as propinas que os empregados públicos recebem, como “a ponta do iceberg”.

O Banco Mundial publica periodicamente informes sobre a situação do mundo em desenvolvimento, mas recebe frequentes críticas pelo papel que a própria instituição desempenhou neste países. Doug Hellinger, diretor-executivo da Development GAP, uma organização que incentiva a justiça econômica no Sul em desenvolvimento, acusou as políticas do Banco de contribuírem com alguns dos problemas que afetam a África na atualidade.

“Historicamente, o Banco Mundial facilitou a corrupção do Norte industrializado ao modificar o ambiente político nestes países”, disse Hellinger à IPS. “Só o fato de o Banco insistir na aplicação absoluta dos Programas de Ajuste Estrutural e de condicionar os empréstimos à sua aplicação, e como esses programas beneficiaram as empresas do Norte, foi criado um ambiente de corrupção. É uma prática corrupta”, assegurou.

Os Programas de Ajuste Estrutural são usados para fomentar e aplicar políticas de livre mercado, desregulamentação, privatização e a liberalização das importações nos países que recebem empréstimos de instituições financeiras como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional. Hellinger culpa o Banco, entre outros, por contribuir para a ineficiência dos sistemas de saúde e educação nas nações subsaarianas porque “é a principal instituição a favor de reduzir os orçamentos” destes serviços.

A África é um dos principais objetivos dos ODM fixados pelos líderes mundiais na Cúpula do Milênio de 2000, na sede da ONU em Nova York. Entre outros, os objetivos incluem reduzir a pobreza e a mortalidade infantil e combater doenças como a aids, até 2015. Embora os países africanos estejam em diferentes etapas de desenvolvimento, muitos países subsaarianos ainda deixam muito a desejar em alguns indicadores fundamentais de desenvolvimento do Banco Mundial.

O produto interno bruto dos 47 países que integram a África subsaariana cresceu 5,1%, com Angola na liderança, com 14,8% e Botsuana em último lugar, com retrocesso de 1%. O Zimbábue tem a maior taxa de alfabetização adulta, com 91,2%, enquanto Mali e Burkina Faso têm as menores, com 28,7%. No Chade, apenas 9% da população tem acesso a instalações sanitárias, enquanto em Mauricio o número chega a 94%.

A matrícula escolar é mais baixa na Libéria, com 30,9%, enquanto em São Tomé e Príncipe tem a mais alta, com 97,1%. A mortalidade infantil também é um problema grave. Em Serra Leoa, 155 em cada mil crianças morrem antes de completar um ano, enquanto nas Ilhas Seychelles essa proporção cai para 12 para mil.

IPS/Envolverde

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