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Protestos: Europa volta às ruas contra oligarquia financeira


População nas ruas na Europa: contra a tomada do Estado pelos bancos.

Le Monde Diplomatique


Manifestações na Grécia, Espanha, Bélgica e Portugal. União Europeia exige novos sacrifícios. Em Atenas, partidos no poder não querem eleições
A onda de grandes protestos sociais que percorreu boa parte da Europa em 2011 deu sinais de ressurgir nesta sexta-feira (10/2). Uma greve geral, que prossegue hoje, parou a Grécia e provocou os primeiros sinais de divisão no governo do primeiro-ministro não-eleito, Lucas Papademos. Centenas de participantes do movimento 15-M manifestaram-se na Puerta del Sol, em Madri, horas depois de o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy anunciar um decreto-lei que facilita demissões e permite rebaixas de salários. Em Lisboa, as centrais sindicais convocaram uma grande marcha para esta tarde. Um curioso enfrentamento entre bombeiros (nas ruas) e policiais marcou a tarde de ontem em Bruxelas. Há algo em comum, entre todas as mobilizações. Elas enfrentam novas tentativas de cortar direitos sociais para preservar os interesses da oligarquia financeira –uma prática que na União Europeia (UE) parece não ter fim, a assume dimensões cada vez mais dramáticas.
O caso mais extremo é, mais uma vez, o da Grécia. Na manhã de sexta-feira, uma reunião extraordinária de governo, que durou cinco horas, terminou com o anúncio de um corte de 22% no salário mínimo, demissão de mais 15 mil servidores públicos e redução suplementar das aposentadorias.

As medidas haviam sido exigidas na véspera, numa reunião de ministros das Finanças dos países da zona do euro. Em outubro, o bloco prometera à Grécia, em contrapartida a outra bateria de medidas de “austeridade”, um empréstimo de 115 bilhões de euros e a redução, em 50%, do total devido aos banqueiros privados. Mas nos últimos meses, as bases do acordo foram alteradas.
A redução dos créditos dos bancos tem caráter “voluntário”. Para aceitá-la, eles estão exigindo contrapartidas — aumento das taxas de juros e redução dos prazos de amortização, por exemplo — que, na prática, anulam a concessão. Como as contas não fecham, os ministros europeus requereram de Atenas que reduza despesas e serviços públicos, impondo novos sacrifícios à sociedade grega.

Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas contra tais medidas. Houve confrontos com a polícia. Entrevistado pelo New York Times, um arquiteto de 28 anos, que participava dos conflitos, afirmou: “Tenho pouco a perder. Cursei 6 anos de faculdade, mais um de serviço militar obrigatório, e nunca consegui um emprego”. Depois de cinco anos seguidos de recessão, os índices de desocupação chegaram a 20,9% — e a 48%, entre os jovens.
As novas medidas serão votadas pelo Parlamento em regime de rolo compressor. A União Europeia exige que sejam aprovadas até domingo, para liberar uma nova parcela do empréstimo de “resgate”. Num cenário já devastado pela crise, tal pressão provocou a demissão de cinco ministros. Mas os líderes dos dois principais partidos no poder — Pasok, “socialista”, e Nova Democracia, de direita — parecem estar construindo uma fórmula para se manterem no poder, a despeito das medidas impopulares. Cresceram os rumores de que negociam um acordo que postergaria para 2013 as eleições parlamentares, marcadas para abril próximo. Se o acerto se concretizar, o país continuará submetido a um governo não-eleito. O premiê Papademos, um antigo executivo de bancos internacionais, chegou ao posto em novembro de 2011, sem jamais ter obtido um voto. Ascendeu num acordo “de emergência” entre as duas agremiações, reivindicado e aplaudido pela UE.
Na Espanha, o ataque promovido pelos governos contra a democracia assumiu a forma do ocultamento de informações. Ontem à tarde, a vice-premiê Soraya Senz e a ministra do Trabalho, Fátima Báñez, anunciaram um pacote que altera leis trabalhistas estabelecidas há 50 anos, para tornar as demissões mais fáceis e menos custosas para as empresas. Mas na entrevista coletiva concedida à imprensa, omitiram um aspecto ainda mais duro do decreto-lei assinado pelo governo, para impor as medidas. O jornal El País revelou neste sábado, a partir de um exame mais detalhado do diário oficial espanhol, que cláusulas incluídas no documento permitem aos patrões reduzir unilateralmente o salário de seus empregados.
A brecha é aberta por um dispositivo denominado “quantia salarial”. Caso julgue necessário rebaixar os vencimentos de um trabalhador “por questões relacionadas à competitividade, produtividade ou organização técnica” da produção, o empresário poderá fazê-lo sem sequer preocupar-se em negociar. Bastará comunicar com antecedência de 15 dias, restando ao atingido pelo corte resignar-se ou se demitir. O Partido Popular do premiê Rajoy tem maioria absoluta no Parlamento, mas tomou uma precaução a mais para garantir a aprovação integral do pacote. Ao adotá-la por decreto-lei, impede que os parlamentares façam emendas no projeto — cabendo-lhes apenas aprová-lo ou rejeitá-lo in totum.

Em Madri, outra “novidade” indesejável de ontem foi a repressão policial. Por volta das 21h, a polícia investiu contra centenas de manifestantes que se concentravam na Puerta del Sol, alegando que seu protesto não havia sido notificado previamente. Nove pessoas foram presas e nove ficaram feridas.
No dominó de países que vão caindo, vítimas das políticas europeias de proteção aos privilégios da oligarquia financeira, Portugal pode ser a próxima pedra a desabar. Esta semana, o Tesouro do país foi obrigado a pagar juros entre 16,1% e 20,8% ao ano, para rolar sua dívida. Os credores exigem taxas cada vez maiores, porque julgam frágeis as finanças portuguesas. A situação poderia ser aliviada com um empréstimo do Banco Central Europeu (BCE), mas este recusa-se a fazê-lo. Não é por falta de meios: na virada do ano, o mesmo BCE liberou, sem reticências, cerca de 400 bilhões de euros, para bancos privados que se disseram afetados pela crise econômica. Mais uma vez, aceitou, como “garantias”, créditos podres em poder das instituições — levando ainda mais adiante o processo de transferência, à sociedade, dos prejuízos sofridos pelo sistema financeiro a partir de 2008.

Como há o risco de uma nova rodada de ataque aos direitos sociais, a Confederação Geral Portuguesa dos Trabalhadores (CGTP) antecipou-se e convocou para hoje, em Lisboa, uma manifestação de resistência. “Outra política é possível e necessária”, diz o cartaz que convida para o ato — em favor de Salários, Serviços Públicos, Direitos e Emprego.
Na jornada de mobilizações de ontem, a nota mais irreverente veio de Bruxelas. Os bombeiros estão promovendo manifestações contra a tentativa do governo eliminar alguns de seus direitos — elevando, por exemplo, a idade de aposentadoria. Para tentar restringir suas ações, foi convocada a tropa de choque, armada e paramentada.
Mas a guarnição que protestava mostrou-se digna da legendária bravura associada à imagem dos bombeiros.  Fez uso de seu instrumento de trabalho mais típico — a mangueira d’água de alta pressão — para apagar o fogo dos repressores. Vale a pena assistir a cena até o final, e esperar que também os governos dominados pela oligarquia financeira sejam constrangidos e encurralados pela pressão social por direitos e democracia…

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O inferno de Evo Morales


Segunda, 02 de Outubro de 2011, 03h06
Fonte: O Estado de São Paulo

De cabeça para baixo: governo de Evo Morales enfrenta crise em sua base de apoio.

Quando se lançou candidato à presidência da Bolívia em 2005, Evo Morales conseguiu atrair bolivianos de todos as bandeiras. Por mais que esse líder sindical de ascendência aimará ostentasse suas raízes sectárias, muita gente da elite boliviana – branca, urbana e abastada – apostou na sua destreza política e articulação social.

Se não morriam de amores por seus arroubos socialistas, pelo menos enxergavam nesse jovem e carismático líder um bálsamo para as profundas fendas sociais e raciais do convulsionado país andino. “Acreditava que ele, só ele, era capaz de promover a paz”, disse um ex-diretor de uma agência internacional de desenvolvimento com larga experiência na Bolívia.

Bons tempos, aqueles. Hoje a Bolívia está mais dividida que nunca. A divisão não é apenas o fosso milenar, entre brancos e índios ou ricos fazendeiros da baixada e pobres camponeses dos Andes. Na Bolívia de Evo, é o índio contra o mestiço, cocaleiros contra ambientalistas, governo contra governo, e todos contra a polícia.

A explosão social se desenha há anos, mas se potencializou nos últimos dias, com a polêmica sobre a construção de uma nova estrada que atravessará o seio do país, do norte ao sul. São 306 quilômetros apenas, uma obra modesta pelo padrão heroico da engenharia sul-americana. 

A OAS, construtora brasileira que toca a obra, já encarou empreitadas bem mais complexas. Mas a julgar pela convulsão que se criou, deve ser a maior encrenca por quilômetro do hemisfério. E, se o imbróglio se alastrar, pode acabar trincando ainda mais a quebradiça nação andina, fragilizando um governo já enfraquecido e ainda contaminando as relações entre a Bolívia e seu maior parceiro econômico, o Brasil. 

Lançada há dois anos, a rodovia ligará a pequena San Ignacio dos Moxos, no departamento amazônico do Beni, a Villa Tunari, em Cochabamba, ao custo de US$ 415 milhões. Apesar de cruzar terras remotas e pouco interessantes à economia brasileira, terá financiamento de US$ 322 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), pelo acordo celebrado com pompa pelos governos de Evo e Lula, com direito a juras fraternas e muita flor de coca, safra principal da região e matéria-prima da cocaína.

Sim, a estrada corta áreas protegidas, o Parque Nacional e Território Indígena Isiboro-Securé ( Tipnis), com impactos incertos sobre a fauna, flora e diversas comunidades nativas que lá moram. Mas tudo valia pela “integração nacional” e pelo resgate das preteridas etnias, artigos de fé da nova Bolívia, rebatizada ao sabor da Constituição de Evo de Estado Plurinacional.

Os indígenas do Tipnis tiveram outra ideia e, em agosto, começaram uma longa – e pacífica – caminhada de protesto rumo à La Paz. A caminho, o protesto engordou, com adesões de peso, de diversas comunidades indígenas, a nata do eleitorado de Evo.

O governo reagiu e, seguindo ordens que ninguém assume, enviou a tropa de choque à frente. Houve cassetetes, gás lacrimogêneo, tiros, dezenas de feridos e crianças desaparecidas. Agora vem o sismo político. Uma meia dúzia de ministros e autoridades do governo caíram e Evo leu um pedido de desculpas forçado à nação. 

A julgar pelo clima nas cordilheiras, foi pouco. O Movimento Sem Medo, ex-aliado de Evo e agora oposição ferrenha, abriu queixa no Ministério Público contra os responsáveis pela repressão. Sobrou ainda para OAS, acusada de superfaturar a estrada. A suspeita – sempre negada pela construtora – é antiga e já vazou até pelo WikiLeaks, mas ganhou nova vida no rescaldo da crise do Evo.

Corrupção, conflito e bravatas. A história política da Bolívia é a de um país com memória longa e pavio curto. Só na última década, irrupções sociais levaram a confrontos violentos, derrubando os presidentes Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2003, e Carlos Mesa, dois anos depois. Assim emergiu Evo, esperança das cinzas. Agora, arrisca-se acabar nelas.

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Obama apresenta plano de US$ 447 bi para gerar empregos nos EUA


08/09/2011 – 20h57

Obama explica medidas de recuperação de empregos ao Congresso americano: o problema é com o imposto dos ricos.


Folha de São Paulo

O presidente dos EUA, Barack Obama, apresentou nesta quinta-feira à noite ao Congresso o aguardado plano de geração de empregos e estímulo ao crescimento econômico. Embora não tenha mencionado em momento algum o valor total de investimentos necessários para implementar as medidas, detalhes divulgados pela Casa Branca mostram que o pacote custará US$ 447 bilhões aos cofres públicos.
Em seu quinto pronunciamento a uma sessão conjunta do Congresso, reunindo deputados e senadores, Obama apresentou detalhes de seu plano para acelerar a retomada do crescimento da economia americana, que ainda patina após a crise, com a atual taxa de desemprego em 9,1%.
Quando assumiu o poder, em 2008, Obama encontrou um país em recessão no período da crise financeira internacional, e desde então os índices econômicos americanos não tomaram uma rota estável de recuperação. A recessão de 2007 a 2009 durou 18 meses, a mais longa desde a Grande Depressão.
Durante o discurso o presidente mencionou a necessidade de reformas em escolas (mais de 35 mil devem receber investimentos) e infraestrutura.
Sinalizando as origens dos recursos necessários, Obama lançou uma provocação aos congressistas, sobretudo à oposição republicana, ao mencionar que o país poderia aumentar a taxação aos mais ricos.
A medida foi aplicada recentemente na França, em Portugal e na Itália, mas deve ser vetada pelos republicanos, tradicionalmente adeptos do “small government”, que dita regras de um Estado enxuto e aversão a altas cargas tributárias.
Obama, cujo plano de reeleição em 2012 depende de sua habilidade de reduzir a taxa de desemprego propôs estender o seguro-desemprego a um custo de US$ 49 bilhões, modernizar escolas com gasto de US$ 30 bilhões e investir mais US$ 50 bilhões em infraestutura de transporte.
Mas a maior parte do plano consiste em uma renúncia fiscal de US$ 240 bilhões, com a redução à metade de impostos sobre a contratação para empregadores no próximo ano e redução de impostos para empregados.
“Vocês deveriam aprovar isto [o plano] imediatamente”, repetiu Obama diversas vezes durante o discurso.
REELEIÇÃO
A recuperação econômica é crucial para Obama, que disputa a reeleição em 2012, e analistas relembram que desde Franklin Roosevelt, nenhum presidente americano conseguiu se reeleger com uma taxa de desemprego acima de 7,2%.
Uma pesquisa de opinião encomendada pelo jornal “Washington Post” e a emissora NBC mostrou que 60% dos entrevistados rejeita a maneira com que o presidente conduz a economia americana, a taxa mais baixa desde que ele assumiu o poder.
No entanto, o democrata pode ser bem sucedido se o plano apresentado nesta noite surtir um efeito semelhante ao que ocorreu na década de 40.
O historiador Robert Dallek disse ao “Washington Post” que vê um paralelo entre a estratégia de Truman e a de Obama, que mesmo enfraquecido pode se beneficiar de um cenário onde o Congresso vetaria seu plano.
Truman sabia que o Congresso não aprovaria seu plano, e no mês seguinte lançou um relatório deixando claro que os congressistas fracassaram. Embora ele tivesse poucas chances na corrida eleitoral, a estratégia lhe valheu a reeleição meses depois.
Em julho de 1948, o presidente Harry Truman discursou ao Congresso alertando para a necessidade de aprovar imediatamente medidas econômicas para evitar “outra Grande Depressão”, diz o “Washington Post”.
Obama alertou repetidamente o Congresso para que “aprove imediatamente” o plano e ameaçou que divulgará a responsabilidade dos parlamentares frente ao desafio aos “quatro cantos do país”.

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Bolsas europeias operam instáveis após anúncio de medidas anticrise


08/08/2011 – 07h13

Queda do Império: Estados Unidos puxa a crise econômica mundial, que marca o fim da Era de Ouro do capitalismo.

Nota do D’Incao

Luís Paulo Domingues

Um dos aspectos mais fascinantes da História é que algo que alguém fez há 30, 40 ou 50 anos vai se tornar o grande problema do presente. A grande crise econômica que puxa os Estados Unidos e a Europa para uma perigosa época de estagnação tem muitas causas. Certamente, as condições para que ela acontecesse agora começaram em 1973, com a crise do petróleo.

A crise – uma resposta dos países da OPEP às constantes intervenções americanas nos governos e na política do Oriente médio – marcou o fim do capitalismo industrial (pelo menos como motor da sociedade capitalista) e deu a largada para a farra que os republicanos e os banqueiros resolveram instaurar no mundo. Com o passar dos anos, o capitalismo financeiro e os interesses dos bancos, das bolsas de valores e da especulação tomou conta do capitalismo e dos governos dos países mais importantes do ocidente.

Os governos republicanos dos Estados Unidos, a partir de Ronald Reagan, foram atrelados de forma criminosa aos interesses de grupos financeiros que não produziam coisa alguma e apenas especulavam para ganhar fortunas no mercado de apostas da bolsa. Diversos Secretários do Tesouro dos Estados Unidos foram escolhidos entre os grandes executivos dos grandes bancos, fazendo uma gestão do dinheiro público americano que só privilegiava os muito ricos.

Num primeiro momento, puxados pela novidade da internet e dos novos negócios que a informatização do mundo permitiu, as economias do primeiro mundo cresceram vertiginosamente e puxaram o crescimento dos países emergentes.

Agora chegou a hora de pagar a conta da riqueza desmedida. As financeiras emprestaram dinheiro sem lastro, os americanos consumiram mais do que tinham e viveram (como nos sonhos hollywoodianos) uma fantasia elitista de consumo que acabou agora, definitivamente.

VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES

Folha de São Paulo

Após um vaivém inicial, as Bolsas europeias operam em queda nesta segunda-feira, primeiro dia útil após a decisão da agência Standard & Poor’s de rebaixar a nota de crédito dos EUA e após o Banco Central Europeu anunciar que poderia comprar títulos de Itália e Espanha para acalmar a pressão sobre os dois países. Na Ásia, os principais mercados acionário encerraram em baixa.
As Bolsas de Londres e Frankfurt abriram com baixa, subiram e por volta das 11h (7h do Brasil) estavam de novo em queda. Às 7h45 em Brasília, a Bolsa inglesa tinha queda de 1,85% e a alemã, de 2,55%. Já a Bolsa de Paris apresentava retração de 1,63%.
Analistas afirmam que o BCE de fato comprou títulos públicos de Itália e Espanha, o que deu alívio inicial. Papéis de 10 anos chegaram a pagar mais de 6% de juros ao ano na semana passada. O percentual é considerado insustentável a longo prazo (Portugal e Irlanda, por exemplo, tiveram que recorrer a empréstimo do BCE e do FMI quando pagavam 7%).
De manhã, os juros exigidos desses países estavam próximos de 5%.
Muitos temem que o dia de hoje seja mais um de enormes perdas nos mercados, após a semana passada ter registrado as maiores quedas desde o auge da crise econômica de 2008.
No final de semana, o BCE e os líderes das principais economias do mundo fizeram reuniões de emergência para definir que atitudes tomar. Em comunicados, tanto o BCE quando o G7 (grupo dos países ricos) indicaram que farão o que for necessário para manter a estabilidade mundial.
Além da questão da dívida de países europeus e dos EUA, há a expectativa de que a economia global pode enfrentar nova recessão.
ÁSIA
As principais Bolsas asiáticas fecharam esta segunda-feira em queda. O índice Nikkei da Bolsa de Tóquio encerrou as operações em queda de 2,18%, a 9.097,56 pontos.
A Bolsa de Seul, que chegou a cair 6,3% durante o dia, fechou esta segunda com baixa de 3,82%, a 1.869,45 pontos, seu menor nivel desde outubro de 2010.
A Bolsa de Xangai, que havia iniciada o dia com uma queda modesta de 0,82%, ampliou suas perdas durante as operações e fechou o dia com queda de 3,79%, a 2,526.82. Já o índice Hang Seng da Bolsa de Hong Kong encerrou em baixa de 2,17%, a 20,490.57 pontos.
“A atmosfera não poderia ser pior”, declarou durante a manhã na Ásia um analista do mercado à agência Dow Jones Newswires.
Os primeiros mercados a reagirem ao rebaixamento da nota americana foram os do Oriente Médio e Golfo Pérsico durante o fim de semana. A Bolsa de Israel fechou o domingo em queda de 7%, enquanto Abu Dhabi, Dubai, Bahrein e Omã caíram 2,53%, 3,69%, 0,33% e 2,08%, respectivamente. No sábado, a Bolsa saudita despencou 5%.

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Terceira greve geral da Grécia tem Ministério de Finanças destruído


Redação SRZD | Internacional | 15/06/2011

Revolta popular na Grécia: a prova da impossibilidade do capitalismo puro e simples.

Sidney Rezende
SRZD Internacional

Nesta quarta-feira, manifestantes gregos atacaram prédios que abrigam o Ministério das Finanças da Grécia, localizados na Praça Syntagma, em Atenas, durante protestos que marcam a terceira greve geral de 24 horas no país. 

Entre os ataques estavam o uso de bombas de gasolinas nos prédios. Todos foram reprimidos pela polícia. Ainda nesta quarta-feira, o Parlamento deve votar um novo e impopular pacote de medidas de austeridade. 

A greve, que foi convocada pelos sindicatos majoritários, paralisa os principais transportes urbanos, como trens e navios, além de afetar também a imprensa, já que os jornalistas também aderiram a paralisação. Serviços voltados ao público, como bancos, ministérios, creches e as empresas estatais em vias de privatização também estão fechados. 

Hospitais públicos informaram que apenas casos de emergências serão atendidos. E o comércio de Atenas fechará suas portas mais cedo. Nesta terceira paralisação, apenas as companhias aéreas e aeroportos estão funcionando normalmente, contribuindo para que o turismo não seja afetado. 

A manifestação da população da Grécia se opõe a implementação de um pacote adicional de medidas de austeridade, do qual o país depende para que continue recebendo ajuda da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para evitar a quebra. 

A Confederação Geral de Trabalhadores (GSEE), a União de Funcionários Públicos (Adedy) e o Movimento de Trabalhadores (Pame), filiado ao Partido Comunista, convidaram gregos para duas manifestações às 11h (5h de Brasília) no centro de Atenas. 

A greve acontece ao mesmo tempo que o movimento dos “indignados” gregos já acampam há mais de 20 dias na Praça Sintagma, como forma de protesto contra o Parlamento. 

Está previsto que comece a tramitar o novo acordo de medidas pactuado com a UE e o FMI, em que a Grécia espera de receber um quinto lance de ajuda, equivalente a 12 bilhões de euros, montante imprescindível para que o país não quebre no próximo mês. 

Com o último pacote de austeridade, no qual pretende-se acrescentar 78 bilhões de euros ao saldo das contas do Estado, para que diminua o déficit a 7,5% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano, estão previstos cortes salariais, fechamento de empresas públicas, privatizações e aumentos de impostos. 

O primeiro-ministro grego, Yorgos Papandreu, teme que o novo pacote de medidas não obtenha o apoio necessário de parte de seus grupo parlamentar, que conta com 156 das 300 cadeiras da Câmara.

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Premiê da Irlanda dissolverá Parlamento na terça-feira


28/01/2011 – 08h07

União Europeia proibiu impediu a falência dos bancos - uma tendência do capitalismo especulativo.

DA REUTERS, EM DUBLIN
Publicado na Folha de São Paulo

O primeiro-ministro da Irlanda, Brian Cowen, dissolverá o Parlamento na próxima terça-feira (1º) e anunciará uma nova data de novas eleições gerais, informou a emissora estatal RTE.
Cowen está sob intensa pressão dos partidos irlandeses para deixar o governo. Ele já renunciou, no sábado passado (22), à liderança do partido Fianna Fail –que deve ser derrotado no novo pleito.
Cowen esperava apenas a aprovação do Orçamento de 2011, o mais austero na história do país, para concretizar sua saída. O orçamento atende o plano quadrienal de ajuste que a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) exigiram como condição para a aprovação de um plano de resgate internacional para a Irlanda.
O projeto foi aprovado nesta quinta-feira na Câmara dos Deputados e seguirá para o Senado, onde deve ser aprovado no sábado.
Ele assumiu em 2008, quando os 13 anos de crescimento econômico irlandês (o país chegou a ser chamado de Tigre Celta) davam lugar a uma implosão do mercado de imóveis e crises bancárias.
No último ano, ele sobreviveu a diversos votos de confiança no Parlamento, mas sua popularidade despencou com o agravamento do deficit e do desemprego. O governo teve de negociar um resgate de 85 bilhões de euros com a União Europeia.
Na última semana, Cowen enfrentou uma renúncia em massa de cinco de seus 15 ministros. Enfraquecido, anunciou sua saída da liderança do Fianna Fail. Mas isso não acalmou os colegas de coalizão do Grupo dos Verdes, que renunciaram ao governo para forçar a antecipação das eleições e a queda de Cowen, cujo governo duraria até 2012.
Dois partidos de oposição devem vencer o pleito e formar uma coalizão: o Fine Gael (centro) e o Trabalhista (esquerda).

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Irlanda: o preço da felicidade, o custo da desgraça


Ambiente central em Dublin: a cultura e as artes são novamente a esperança dos irlandeses para dias melhores.

Especial para Revista Piauí

Em texto exclusivo para a piauí, o escritor irlandês narra a trajetória de seu país, da pobreza à prosperidade e de volta à pobreza, em apenas quinze anos
por Colm Tóibín

Nota do D’Incao: texto indicado para entender o crack econômico que se abateu sobre Irlanda e Grécia (Espanha e Portugal estão prevendo os mesmos problemas) na esteira da crise bancária de 2008 nos EUA. Indica-se também, sobre o mesmo assunto, o filme “Capitalismo, uma história de amor”, de Michael Moore e o post ao lado da Folha de São Paulo.

Devia ser o verão de 1965, ou talvez um ano antes, e estávamos na praia na costa leste da Irlanda. Eu tinha 9 ou 10 anos. Minha mãe e meus irmãos provavelmente tinham ido nadar e isso significa que eu estava deitado no tapete escutando a conversa do meu pai com a irmã da minha mãe. A irmã da minha mãe gostava de discutir grandes assuntos como religião e política. Agora ela estava perguntando a meu pai, que era um membro ativo do partido do governo, o Fianna Fáil – que desde 1932 esteve quase sempre no poder – se ele apoiava todas as políticas e decisões de seus correligionários. Meu pai disse que sim, e isso me pareceu certo, pois nunca imaginara que ele pudesse pensar de outro modo. Eu sabia a opinião dele sobre o outro partido – o Fine Gael, principal partido oposicionista – que era a de que você podia cumprimentar seus membros quando cruzava com eles na rua, mas se alguma vez votasse neles sua mão direita gangrenaria e seria amputada.

O pai do meu pai era um nacionalista irlandês e tinha lutado contra os britânicos. Participou da rebelião de 1916, que, mesmo sendo derrotada, tornou-se o início do fim do domínio britânico na Irlanda. Em 1922, quando finalmente se retiraram, os ingleses decidiram dividir a Irlanda, ficando com o norte do país, que tinha uma população protestante maior e não queria se separar da Grã-Bretanha. E homens como meu avô eram totalmente contrários a esse arranjo. Meu avô e seus amigos queriam tudo ou nada, uma república formada por toda a ilha; os da outra facção, até ali seus camaradas na luta contra o domínio britânico, queriam aceitar a proposta britânica de uma Irlanda dividida. As duas facções, incluindo irmãos, travaram uma feroz guerra civil. Noventa anos depois, os dois principais partidos – Fianna Fáil e Fine Gael – descendem dessa guerra.

A política de ambos os lados era nacionalista, anti-imperialista e não propriamente de esquerda. O ideário não ia além da vaga noção de uma Irlanda autossuficiente. A guerra que travaram não foi uma guerra de classes. Assim, enquanto alguns ingleses partiram e perderam suas propriedades, a burguesia irlandesa não foi afetada pela independência. Os proprietários rurais mantiveram suas terras; os lojistas, suas lojas; os banqueiros, seus bancos. E a revolução irlandesa foi também comandada principalmente por católicos. O fim da guerra civil viu crescer, ao sul da fronteira, um Estado católico insular profundamente conservador e, ao norte, numa imagem especular, um estado protestante insular profundamente conservador. O partido do meu avô, Fianna Fáil, do qual meu tio também era membro, e no qual meu pai logo ingressaria, tomou o poder no sul em 1932; tornou-se ainda mais conservador e mais católico do que o outro partido, Fine Gael. O Partido Trabalhista continuou pequeno, sempre a terceira força; o movimento sindical também era conservador, e quase não tinha influência.

O problema para o novo Estado irlandês era como proporcionar trabalho à população. Os melhores empregos eram no funcionalismo público. Quase não havia indústria; a Irlanda era ainda um país basicamente agrícola. Dos anos 20 em diante muitos jovens emigraram para a Grã-Bretanha e Estados Unidos em busca de trabalho. Em 1939 Seán Lemass, que se tornaria primeiro-ministro vinte anos mais tarde, disse que os problemas econômicos da Irlanda tinham “criado uma situação em que o desaparecimento da raça era uma possibilidade que não podia ser ignorada”. O isolamento do país se acentuou ainda mais por causa da posição de neutralidade que assumiu durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, enquanto a Europa era reconstruída com dinheiro do Plano Marshall, a Irlanda ficou, assim como a Espanha e Portugal, à margem da nova prosperidade.

Era, nos anos 50, um lugar atrasado, do qual era um alívio, quase um prazer, emigrar. Quatro em cada cinco crianças nascidas na Irlanda entre 1931 e 1941 emigraram. No final daquela década estava claro que era preciso fazer algo para modernizar o país. Em 1958 foi publicado o Primeiro Programa para a Expansão Econômica. A Irlanda tinha sido admitida no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional em 1957. A partir de 1958, o país se abriu para o investimento estrangeiro e para o capital externo, predominantemente americano.

A década de 60 foi, então, um tempo de mudanças na Irlanda. Não apenas o pensamento econômico se liberalizou, como também a influência da Igreja começou a declinar, sob pressão, por exemplo, do movimento feminista. O avanço da televisão e a suspensão da draconiana censura a livros contribuíram para a mudança. A Irlanda do Norte também começou a mudar com o avanço do movimento pelos direitos civis, que exigia maior igualdade para os católicos. Isso levou no norte à ascensão do IRA, que estava disposto a matar e mutilar pelo fim da divisão do país e pela derrubada do domínio britânico na região.

Meu pai morreu em 1967. Tinha apoiado integralmente a abertura da economia irlandesa, e eu muitas vezes me perguntei como ele teria reagido diante da violência na Irlanda do Norte. Homens da sua geração insistiam que queriam um único Estado na ilha, mas o que eles realmente queriam era estabilidade e progresso econômico ao sul da fronteira (a Irlanda foi declarada uma república em 1949). Assim, quando começou a década de 70, o sul decidiu ignorar a violência no norte e passou a olhar para fora. Queria ingressar na Comunidade Econômica Europeia ao mesmo tempo que a Grã-Bretanha. Depois de prolongadas negociações e de uma vitória esmagadora num referendo, a República da Irlanda entrou na CEE, como era então chamada, em 1973.

Foi aí que começou a verdadeira mudança. Os gastos públicos aumentaram em todas as áreas. A frequência escolar triplicou. A proibição da venda de anticoncepcionais foi declarada inconstitucional em 1973. O número de mulheres a integrar a força de trabalho duplicou em uma década. Com dinheiro europeu, novas estradas foram construídas, dando lugar a uma infraestrutura mais moderna.

Mas algumas coisas não mudaram. O político para o qual meu pai trabalhava em épocas de eleição tinha lutado na rebelião de 1916 e ainda era membro do Parlamento em 1969. Seu filho se tornou senador. Seu neto é, no momento, membro do Parlamento Europeu. Na Irlanda hoje, em 2011, o primeiro-ministro, o vice-primeiro-ministro, o ministro das Finanças e o líder da oposição, que se tornará o próximo primeiro-ministro, são todos filhos de políticos. Não tiveram que fazer quase nada, ou sequer pensar muito, antes de entrar na política. Era como se tivessem herdado dos pais os assentos no Parlamento e a filosofia política. Em outras áreas, como a carreira médica, a carreira jurídica ou a financeira, pouco mudou. Todos vêm de famílias da alta burguesia, estudaram em escolas de elite e nutrem o sentimento de que o poder lhes é devido, e isso nenhuma transformação social ou econômica parece abalar. Ao mesmo tempo em que a Irlanda mudava e cresciam as oportunidades, o país continuava curiosamente estagnado em termos sociais, e curiosamente conservador em termos políticos, com os dois partidos da guerra civil, ambos conservadores e convencionais, garantindo a estabilidade.

Era um pouco estranho viver aqui, um lugar que não teve Renascença, que quase não teve Reforma, nem Iluminismo, nem Revolução Industrial. Somente uma história de violência, pobreza e emigração. Um lugar governado até 1922 pelo Império Britânico, seguido de quatro décadas de estagnação cultural e econômica antes da integração ao império europeu, por assim dizer, em 1973. E, no entanto, havia também um surpreendente fascínio em torno da Irlanda, em especial de Dublin, onde o mundo da escrita – o poema, o romance, a peça de teatro, o artigo de jornal – era tratado com uma espécie de reverência e seriedade que só se encontra em sociedades nas quais faltam muitas outras coisas. Isso foi algo de que o governo se deu conta no final dos anos 60, compreendendo que a imagem da Irlanda era criada por escritores e cantores, e que essa imagem era tão importante quanto as políticas econômicas da Irlanda para atrair investimento estrangeiro. Subitamente, Yeats, Joyce e Beckett ficaram na moda, e a política governamental com relação à cultura se tornou esclarecida.

Foi Margaret Thatcher quem percebeu que, na verdade, a República da Irlanda não cobiçava territórios na Irlanda do Norte. Queríamos estabilidade ali, e o fim da violência, mais ainda do que queriam os britânicos. Então, a partir de 1985, e da assinatura do Acordo Anglo-Irlandês, os governos britânico e irlandês trabalharam juntos, e esse trabalho levou, uma década depois, ao fim da campanha do IRA no norte.

Nesse ínterim, a República da Irlanda se tornou uma economia aberta, dependendo cada vez menos da agricultura e cada vez mais do investimento estrangeiro. As multinacionais estavam satisfeitas conosco: nosso movimento sindical não era combativo; tínhamos uma mão de obra escolarizada e flexível; falávamos inglês; éramos membros da União Europeia; e nossa taxação sobre os seus lucros era mais baixa que a de qualquer outro país da UE.

Em 1984 comprei uma casa em Dublin. Foi difícil. Embora eu tivesse um emprego seguro, nenhum banco, em princípio, quis me dar um empréstimo. Notei o quanto os gerentes eram cautelosos, como se mostravam desconfiados diante de qualquer coisa fora do normal. A casa ficava numa área da cidade que na época não era considerada boa, e isso os deixava intrigados a meu respeito. Finalmente consegui o empréstimo. Os juros eram altos. Em dois anos o valor da casa tinha caído 20%. E então os preços começaram a subir, mas os gerentes de banco continuaram no caminho da prudência. Em 1997 quando decidi me mudar de novo, tive um bocado de dificuldade para conseguir um segundo empréstimo, embora tivesse quase terminado de pagar o primeiro.

No início do novo século, porém, com os preços das casas subindo por toda a Irlanda, descobri que os bancos irlandeses estavam jogando dinheiro na mão da gente. Os velhos gerentes tinham se aposentado; agora havia uma geração nova e impetuosa. Para meu espanto, consegui sem dificuldade um empréstimo para comprar uma casa na frente da praia. Quase não me fizeram perguntas. E houve ainda uma sugestão para que eu pegasse mais dinheiro emprestado para investir em novas propriedades; por pura preguiça não aceitei essa oferta.

A essa altura, a Irlanda estava integrada ao euro, introduzido em janeiro de 2002. Pelo fato de a moeda ser efetivamente controlada pela Alemanha, as taxas de juros estavam e permaneceriam baixas, assim como os índices de inflação. Fazer parte do euro me deixava orgulhoso. Me lembro que estava em Ibiza com amigos escoceses em 1º de janeiro de 2002 e usei meu cartão naquela manhã para sacar cédulas novinhas e me gabar de que a Irlanda, como membro do euro, era mais europeia que a Grã-Bretanha.

Se a gente não parasse para pensar, o euro parecia uma boa ideia. Oferecia estabilidade, e isso significava que a Europa poderia competir com os Estados Unidos, que o euro poderia se tornar uma moeda internacional mais poderosa que o dólar. Contribuía para o sentimento de que a Europa era agora um lugar sem barreiras, onde era possível ir de carro de Portugal até o leste da Alemanha e depois descer para a Itália sem trocar dinheiro e sem ser parado pela polícia em nenhuma fronteira.

O problema era que o euro era regulado pelo Banco Central Europeu, com sede em Frankfurt, mas cada Estado tinha sua própria política econômica, suas próprias forças e fraquezas. Ficou claro desde o começo que alguns países no sistema do euro – Alemanha, França, Holanda – tinham economias muito mais fortes do que outros – Irlanda, Espanha, Portugal, Grécia. Esperava-se que a regulação e a prosperidade crescente criassem aos poucos uma Europa mais equilibrada, e que o euro acelerasse esse processo.

No início, operaram-se maravilhas na Irlanda, com a ajuda de um aumento da atividade multinacional norte-americana. Atingimos pleno emprego. A todo momento eu via estatísticas demonstrando que a Irlanda tinha se tornado um país de sucesso, uma lição para o resto do mundo. Políticos, incluindo alguns dos maiores idiotas que a Irlanda já produziu, competiam entre si reivindicando o crédito pelo que ficaria conhecido como o Tigre Celta.

E naqueles mesmos anos outras mudanças estavam ocorrendo. Em 1988, a Corte Europeia de Direitos Humanos ordenou que o governo irlandês mudasse a lei contra o homossexualismo. Nos anos 90, a proibição do divórcio também foi retirada da Constituição. (A proibição do aborto, inserida nos anos 80, permaneceu.) E também teve início algo inimaginável. O Estado enfrentou a Igreja, que até então era todo-poderosa, sentindo-se acima da lei. Padres foram acusados, condenados e presos por abuso sexual de menores. No começo do novo século, apareceram muitos relatórios oficiais provando que o abuso e a violência selvagem cometidos por padres e membros das ordens religiosas contra aqueles sob sua guarda – frequentemente órfãos ou crianças pobres – tinham sido sistemáticos e encobertos com cuidado pelas autoridades eclesiásticas. As pessoas estavam furiosas com a Igreja. De repente, o poder da Igreja Católica na Irlanda virou coisa do passado.

Assim, à medida que a primeira década do século XXI avançava, as pessoas começaram a se perguntar se essa onda de prosperidade e secularização transformaria a Irlanda e afetaria, por exemplo, a literatura irlandesa, se nos faria produzir um tipo diferente de romance ou poema ou peça de teatro, se tornaria mais leve o nosso tom, ou mais comerciais as nossas obras. Já que tudo tinha se tornado comercial, por que não a cultura também?

Seria possível que a Irlanda fosse tão frágil que a chegada da prosperidade pudesse mudar fundamentalmente a sua cultura? Naqueles anos, eu fiquei à espreita dessa possibilidade. Vi como os novos-ricos se tornaram extravagantes e vulgares, e como o consumo ostensivo parecia adicionar uma aura de histeria à atmosfera do país. Mas isso era só na superfície, entre os poucos que podiam se dar ao luxo de ter helicópteros particulares ou motoristas. Para o resto do país, o dinheiro trouxe prazer e um certo conforto. Notei, ao viajar com frequência aos Estados Unidos, que os aviões estavam todos lotados, não de turistas americanos, nem de empresários irlandeses, mas de consumidores irlandeses com o bolso cheio de cartões de crédito na viagem de ida e sacolas cheias de compras reluzentes na viagem de volta. A maioria era gente irlandesa comum e notei o quanto eles se divertiam, como imediatamente, a exemplo dos imigrantes do passado, eles encontravam em Nova York um bar, um restaurante ou um hotelzinho, geralmente administrado por irlandeses, onde se sentiam à vontade.

Em casamentos e enterros, eu prestava atenção para ver se notava alguma diferença. As festas de casamento eram maiores, gastava-se mais, e a vida era melhor porque a maioria dos convidados morava na Irlanda, e não tinha que viajar da América ou da Grã-Bretanha ou da Austrália para estar presente. Mas os homens se encostavam no balcão do bar do mesmo jeito de sempre; a música continuava péssima, e os chapéus que algumas mulheres usavam talvez fossem mais caros, mas revelavam o mesmo mau gosto de sempre. As pessoas ficavam bêbadas do mesmo jeito. Isso ao menos não tinha mudado, ainda que agora bebessem mais vinho e menos Guinness.

Algumas das mudanças vinham de longa data. Desde o final dos anos 60, a frequência das missas semanais vinha caindo; continuou a cair. Desde o final da década de 60, os supermercados tinham mais produtos estrangeiros – mais massa, patês, azeite de oliva – e a dieta irlandesa continuava a se aproximar da dieta da França ou da Espanha. Nos enterros, especialmente na cidadezinha onde nasci e cresci, não parecia ter havido mudança alguma; as pessoas se comportavam nas pequenas comunidades exatamente da mesma maneira, com a mesma reverência pelo corpo, o mesmo zelo pelos parentes e amigos, a mesma seriedade diante da morte.

E ainda que as oportunidades de ganhar muito dinheiro aumentassem, a ideia de se tornar escritor, ator ou músico ainda merecia profundo respeito. Em 2006 fui indicado pelo governo para o Conselho das Artes e examinei todos os pedidos de subvenção. Era como se nada tivesse acontecido. Pequenas companhias teatrais ainda estavam sendo criadas, trabalhando não por dinheiro, nem sequer pela fama. Jovens músicos, tanto na música tradicional irlandesa quanto na clássica, continuavam a surgir. E o mais estranho, talvez, foi que a geração que chegou à idade adulta com essa nova prosperidade produziu um bom número de jovens escritores – Claire Keegan, Paul Murray, Kevin Barry, Clare Kilroy, Christian O’Reilly – que exploravam os mesmos temas de Joyce ou Beckett, Edna O’Brien e John Banville. Escreviam sobre famílias irlandesas e infância irlandesa, a escuridão e o isolamento da Irlanda. Usavam um idioma que haviam herdado; e escreviam principalmente para o seu próprio país e eram lidos avidamente.

Eu me perguntava então se o dinheiro que veio nos anos 90 e durou por uns quinze anos não teria servido apenas para tornar as pessoas mais felizes, dando a elas um pouco mais de segurança. Parecia que a prosperidade que chegou à Irlanda significava que pais e avós podiam ficar tranquilos sabendo que a nova geração permaneceria no país, encontraria trabalho, criaria raízes, e isso os deixava felizes. Além disso, neste país do norte com seus longos invernos e chuvosos verões, todos adoram viajar para o sul, e naqueles anos, nas manhãs de sábado, havia uma felicidade palpável no aeroporto, de onde famílias inteiras partiam para a Grécia, Portugal ou Espanha. Às vezes, porém, era tudo excessivo: os novos restaurantes, de preços abusivos e comida não muito boa, ficavam lotados todas as noites; as pessoas pareciam sentir prazer em atingir o limite de seus cartões de crédito; o preço das casas tornou-se tópico de intermináveis discussões; os irlandeses compravam apartamentos na Espanha e em Portugal sem se preocupar em aprender uma palavra da língua local.

Mas uma coisa fundamental não mudou. Entrando em qualquer bar de Dublin, via-se que continuavam as conversas e risadas, a sensação quase de performance, o modo caloroso e divertido como as pessoas se relacionavam umas com as outras – um clima muito diferente do comportamento frio num bar de Londres ou de Paris. Observando turistas irlandeses num aeroporto nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, via-se nos seus rostos uma profunda desconfiança em relação às autoridades constituídas, uma espécie de retraimento, uma falta de segurança. A música que se ouvia naqueles anos, os poemas e romances escritos, as peças encenadas, tudo isso era feito com a mesma sensação de que a palavra era importante. Também na Irlanda daqueles anos o esporte permaneceu no centro das coisas, incluindo os dois esportes nacionais amadores: o hurling[1] e o futebol gaélico. Era possível assistir a uma partida, mesmo em Dublin, e ter a impressão de ter voltado aos anos 50.

Em outras palavras, o dinheiro era só dinheiro, e ao mesmo tempo em que as pessoas gastavam muito, e viviam sem prudência, elas também usufruíam dessa prosperidade, da segurança que ela trazia, das viagens ao exterior, das reuniões familiares, das roupas vistosas, das refeições em restaurantes, das casas de férias, do sentimento vertiginoso de que a vida nunca tinha sido melhor. Mas quem examinasse com cuidado aqueles anos descobriria facilmente que a nova riqueza na Irlanda era quase ilusória e não duraria.

Em 2006 fui convidado a debater essa relação entre o milagre econômico irlandês e a cultura irlandesa num simpósio nos Estados Unidos. Decidi observar primeiro a anatomia do milagre econômico, e algumas coisas que descobri me chocaram. Eis o que escrevi na época: “Um grande volume de atividade econômica na Irlanda está concentrado não no comércio ou na consolidação da produção, mas na construção civil. A Irlanda é, de acordo com o Bank of Ireland, a segunda nação mais rica do mundo, atrás do Japão. E, observa o banco, um aspecto crucial dessa riqueza é que é riqueza de primeira geração, criada nos últimos dez anos. Se analisarmos a riqueza da Irlanda, veremos que não é como a riqueza em outros lugares. Os irlandeses estão gastando e tomando empréstimos à vontade, mas não investem em áreas como pesquisa e desenvolvimento, que criariam mais prosperidade no futuro, mas em imóveis, que dependem dos preços do mercado imobiliário para manter seu valor.”

Os irlandeses estavam viajando muito, mas poucos iam para a Alemanha, e pouquíssimos chegaram a compreender que a Alemanha tinha mudado, e que essa mudança seria prejudicial para o futuro da Irlanda quando a economia irlandesa entrasse em dificuldades. Os alemães do Leste ingressaram na UE ao mesmo tempo em que se integraram à Alemanha Ocidental. Diferentemente dos húngaros, digamos, ou dos tchecos, entraram na UE sem pensar duas vezes. Concentraram-se unicamente nos benefícios que a reunificação traria para eles. A Alemanha, por sua vez, concentrou-se em fazer a reunificação funcionar. De uma hora para outra, a Alemanha Ocidental ganhou uma nova população, em boa parte qualificada, e isso significava que os salários baixariam ou ficariam estáveis. O governo alemão tomou o cuidado de não superaquecer a economia; os impostos continuaram elevados. Os bancos alemães, apesar das baixas taxas de juros, não franquearam seus cofres aos investidores alemães. Eles emprestaram a outros bancos.

Naqueles anos, por todo o continente, a outrora poderosa ideia de que a Europa era uma cultura única e deveria se tornar cada vez mais uma economia única estava murchando. Acreditava-se que a diluição da soberania nacional tinha ocorrido rápido demais, sem debate suficiente. Havia uma visão de que a Europa era um superestado, mas não uma democracia, que sua burocracia de salários excessivos não prestava contas a ninguém, e que cada Estado nacional tinha direitos e tradições que mereciam ser protegidos. Na Alemanha, disseminou-se a opinião de que não era mais tarefa dos países ricos ajudar os países pobres.

Em 2008, quando o governo americano permitiu que o banco de investimentos Lehman Brothers falisse, o Banco Central Europeu decidiu que isso não aconteceria com os seus bancos. Os riscos eram grandes demais. Na Irlanda, um banco em especial – o Anglo Irish Bank – vinha crescendo muito, especialmente na área de crédito imobiliário. E devido à frouxa regulamentação na Irlanda e, ao que parece, a uma regulamentação quase inexistente por parte da UE, o Anglo Irish estava arriscando demais. Não obstante, os seus diretores eram tratados como príncipes num país sem realeza. Escrevia-se sobre eles como se fossem lordes. Dizia-se que eram eles que tinham a capacidade de levar a Irlanda para o futuro, onde se veria livre da pobreza e da emigração, livre de seu passado de colônia.

Assim, quando os banqueiros procuraram o governo em setembro de 2008 para dizer que precisavam desesperadamente de ajuda estatal, o governo tinha dois motivos para ouvi-los. Primeiro, o Banco Central Europeu tinha deixado claro que nenhum banco deveria falir, e os políticos irlandeses não tinham experiência alguma em finanças internacionais ou interesse algum em desafiar uma organização tão venerável, sediada na Alemanha. Segundo, os políticos gostavam dos banqueiros e os admiravam, e não desconfiaram que as cifras que lhes eram apresentadas estavam completamente erradas. Não sabiam que, se o Estado irlandês salvasse do naufrágio os seus bancos, os custos representariam o dobro da receita anual com impostos. E inocentemente se dispuseram a garantir os bancos.

Nesse ínterim, a bolha imobiliária tinha estourado. A receita governamental em 2009 foi de 35 bilhões, enquanto os gastos foram de 55 bilhões. A Irlanda precisaria pedir dinheiro emprestado em 2010 e nos três ou quatro anos seguintes. O país estava vulnerável porque o custo de salvar os bancos era inimaginável; os políticos pareciam temer divulgar a cifra e os banqueiros obviamente também não a revelavam. (Os banqueiros agora tinham caído em desgraça. Segundo consta, nem em partida de golfe alguém queria ser visto ao lado deles.)

Num ataque especulativo ao euro, a Irlanda era o elo mais fraco. A Grécia já tinha sido salva do naufrágio, para grande consternação do contribuinte alemão. E logo, parecia, tanto a Espanha como Portugal iriam precisar de ajuda. Os bancos irlandeses estavam sobrevivendo com dinheiro do Banco Central Europeu; a Comissão Europeia também tinha um fundo para ajudar países necessitados, mas isso traria consigo o Fundo Monetário Internacional, como ocorrera na Grécia, e a ajuda só seria fornecida sob as mais severas condições. A chegada da Comissão e do FMI significaria que a Irlanda, poucos anos antes um dos países mais ricos do mundo, era agora uma economia moribunda.

Os políticos continuavam a se comportar como se fossem competentes. Estavam dia e noite no rádio e na televisão, exalando controle e uma estranha certeza de que ainda tinham legitimidade para comandar. Lentamente, a população despertou para o que estava acontecendo. A ira contra o Fianna Fáil, o partido de meu pai e meu avô, não é corriqueira. Quando a eleição vier, o partido será dizimado. Porque representavam, desde os anos 60, tanto o patriotismo como o pragmatismo, e porque fracassaram em ambos os campos. Eles se tornaram alvo fácil depois de cederem a soberania da Irlanda ao FMI, uma soberania pela qual lutaram os nossos antepassados.

Enquanto isso, a emigração recomeçou, e os jovens estão se mudando para a Grã-Bretanha, a Austrália e o Canadá. Estamos perdendo mais uma geração. Mas estamos também perplexos, com um misto de choque e vergonha. Como pudemos acreditar que um pequeno país como a Irlanda, com uma história de pobreza e fracasso, pudesse ser rico e permanecer rico? Por que compramos casas que custavam tão caro e agora valem tão pouco? Como confiamos que a Europa viria nos salvar, sem pensar que viria também nos punir por nossa insensatez? Como confiamos no Fianna Fáil, cujos ministros não sabem coisa alguma de economia, e entraram na política só por causa de suas famílias?

As noites escuras do inverno serão um bom momento para romancistas, dramaturgos e poetas. É fácil deixar a televisão e o rádio desligados. Já ouvimos o bastante; conhecemos as más notícias. No início dos anos 1890, quando a Irlanda também estava de
joelhos, e os padres e políticos também tinham feito o que há de pior, o poeta W. B. Yeats viu o futuro da Irlanda como cera mole, um lugar que podia ser moldado, no qual a vida da imaginação poderia vir a assumir o primeiro plano. Talvez isso seja possível de novo, talvez nossos romances, peças e poemas passem a importar mais, já que não há nada aqui, exceto preocupação, desespero e riso soturno. Essa abertura para a imaginação poderia parecer, em momentos de devaneio, uma coisa boa. Mas é um alto preço a pagar pelo que foi feito ao nosso país, ou pelo que o país fez a si mesmo. Embora o estrago, ao que me parece, esteja na superfície, e afetará apenas o nosso orgulho e o nosso bolso; o espírito das coisas aqui continua o mesmo, a cultura da Irlanda não mudou nos anos do boom e não mudará agora que temos diante de nós uma década de relativa pobreza.
[1] Hurling: literalmente, arremesso. Jogo tradicional irlandês semelhante ao hóquei (N.T.).

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Em reação aos EUA e Seul, China começa cinco dias de exercícios militares aéreos


03/08/2010
Em reação aos EUA e Seul, China começa cinco dias de exercícios militares aéreos
DA REUTERS, EM PEQUIM
Folha de São Paulo

Submarino americano na costa da Coreia: China manobra exércitos como retaliação.

A China iniciou nesta terça-feira cinco dias de exercícios aéreos, mobilizando caças e milhares de soldados em meio a um cenário de crescente tensão diplomática e militar com os Estados Unidos.
O exercício “Vanguarda 2010″ ocorre nas Províncias de Henan (centro) e Shandong (leste), próximas ao Mar Amarelo, segundo a agência estatal de notícias Xinhua. Outra agência, a China News Service, disse que mais de 100 aeronaves do Exército, Aeronáutica e Marinha participam da atividade, disparando mísseis reais para simular a defesa de Pequim contra um ataque aéreo.
As manobras militares da China são interpretadas por analistas internacionais como uma clara reação aos exercícios conduzidos por Washington e Seul na península coreana, encerrados na última quarta-feira (28).
A operação “Espírito Invencível” foi centrada em ações antissubmarinos e contou com a participação do porta-aviões nuclear americano USS George Washington, 20 navios de guerra, 200 aviões de combate e 8.000 soldados.
Pequim queixou-se publicamente a respeito do exercício patrocinado pelos EUA e também manifestou-se contra os comentários de Washington sobre uma disputa territorial no Mar do Sul da China.
O Exército chinês, no entanto, negou que as manobras estejam relacionadas com qualquer manifestação de apoio ao regime da Coreia do Norte (aliado chinês) ou às tensões regionais provocadas pela movimentação EUA-Coreia do Sul.
“O objetivo é elevar as capacidades de combate nesta região militar e tornar efetivos os preparativos para o combate militar”, disse o general Zhao Zongqi, um dos responsáveis pela atividade, ao China News Service.
SEM ENSAIO
Segundo a agência, o exercício ocorre sem ensaio prévio, para que seja o mais realista possível, e envolverá sete tipos de aeronaves, inclusive helicópteros e aviões espiões.
A China tem ampliado os investimentos na sua Força Aérea, que agora está equipada com caças de origem russa Su-30 e Su-27, superiores aos F-16 usados por Taiwan, ilha autônoma que Pequim considera ser uma “província rebelde” da China e que insiste que tem de se unificar com a China continental, à força, se necessário.
A imprensa chinesa tem anunciado vários exercícios militares nas últimas semanas, inclusive de forças navais, fatos normalmente sigilosos.
A publicação Semanário Militar disse que, embora os exercícios sejam normais e a China não tenha intenção de “buscar hegemonia”, ela reagirá a eventuais agressões contra seus interesses.
“Embora os exercícios da China sejam discretos, eles passam um recado”, disse o artigo. “Se outras pessoas ameaçarem os nossos interesses, temos suficientes meios militares e métodos tecnológicos para contê-los.”
No mês passado, Pequim demonstrou indignação contra o exercício EUA-Coreia do Sul no Mar Amarelo (que também banha a China). A maior parte das manobras acabou sendo transferida para o Mar do Japão.
A China alegava que as manobras ameaçariam sua segurança e a estabilidade regional. Washington e Seul afirmavam que o objetivo dos exercícios era dissuadir a Coreia do Norte de eventuais agressões.
EUA-COREIA DO SUL
As manobras entre Seul e Washington foram encerradas na última quarta-feira (28), e foram uma “grande demonstração de força” para a Coreia do Norte, disse à imprensa uma autoridade do Estado-Maior Conjunto de Seul.
“Praticamos bem juntos e o Exército [sul-coreano] acredita que poderá dissuadir e derrotar uma agressão da Coreia do Norte em qualquer momento, graças a sua aliança com os Estados Unidos”, acrescentou.
Apesar das ameaças de represálias com seu poder nuclear por parte de Pyongyang, os exercícios foram realizados sem informações sobre qualquer incidente.
A Coreia do Sul e os Estados Unidos, baseando-se nos resultados de uma investigação internacional, acusam Pyongyang de ter afundado um navio de guerra sul-coreano, o “Cheonan”, no dia 26 de março próximo da fronteira marítima entre as duas Coreias, no Mar Amarelo. Quarenta e seis marinheiros sul-coreanos morreram. Pyongyang nega o ataque.
Coreia do Sul e EUA asseguraram que estas operações são de caráter defensivo, e informaram que devem realizar mais manobras conjuntas nos próximos meses na península coreana.
Segundo fontes militares da Coreia do Sul, os próximos exercícios conjuntos acontecerão em setembro no Mar Ocidental (Mar Amarelo).
REAÇÕES
Nos dias que antecederam as manobras entre Seul e Washington a China protestou criticando a introdução de equipamentos militares em larga escala no Mar Amarelo.
A Comissão Nacional de Defesa da Coreia do Norte prometeu lançar uma “guerra sagrada” contra os Estados Unidos e a Coreia do Sul a “qualquer momento que se faça necessário” em resposta às manobras e o país também ameaçou responder aos exercícios conjuntos no Sul por meio de uma “potente dissuasão nuclear”.

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Gordon Brown renuncia ao cargo de primeiro-ministro no Reino Unido


Anúncio é forte indício de que liberais democratas e conservadores firmaram aliança de governo
11 de maio de 2010 | 15h 21

Publicado no Estadão On Line

Alternância de poder: Gordon Brown sai e deixa espaço para uma aliança entre conservadores e liberais democratas.

Stefan Wermuth/Reuters
LONDRES – O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, anunciou nesta terça-feira, 11, sua renúncia ao cargo. O anúncio é um forte indício de que os líderes do partido Conservador, David Cameron, e Liberal Democrata, Nick Clegg, firmaram um acordo para um governo de coalizão.
Em discurso em frente à sua residência oficial, o premiê anunciou sua intenção de comunicar a saída do cargo à Rainha Elizabeth II, que aceitou o pedido. ”Comuniquei a secretaria particular da Rainha que tenho intenção de apresentar minha renúncia à soberana. Caso a Rainha aceite, aconselharei que convide o líder da oposição para buscar a melhor forma de governo”, disse Brown sem citar Cameron. “Desejo boa sorte ao próximo primeiro-ministro quando for tomar decisões importantes no futuro”, finalizou o trabalhista, que se disse honrado por ter servido o país. Mais cedo, a imprensa britânica havia anunciado que as negociações entre trabalhistas e liberais democratas haviam “fracassado”.

Antes de fazer seu anúncio, Brown consultou sua mulher, Sarah, e aliados próximos como Lord Mandelson, Douglas Alexander, Ed Balls e Ed Miliband, todos membros importantes do partido. Ele também conversou com Tony Blair, seu antecessor, por telefone. O Comitê Nacional Executivo trabalhista anunciou que um novo líder será escolhido o mais rápido possível, provavelmente no fim de julho.
Em seu discurso de renúncia, o trabalhista dise estar encerrando um ciclo de 13 anos de seu partido no poder. O período teve início com Blair, que assumiu a chefia do governo em 1997 e permaneceu no cargo até 2007. Antes de se tornar premiê, Brown foi Ministro das Finanças e, posteriormente, chanceler. Ele também renunciou ao posto de líder do Partido Trabalhista, que ocupava desde 2007.
Brown prometeu fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ter certeza de que um governo forte se forme. Ele também disse ter aprendido muito sobre a natureza dos seres humanos como primeiro-ministro, tanto o lado bom quanto o ruim.
Brown disse amar seu trabalho, mas não pelo poder e pelas cerimônias. “Amei meu trabalho por seu potencial, para fazer esse país que amo um lugar mais justo, mais tolerante, mais verde, mais democrático, mais próspero – um verdadeiro Reino Unido melhor”, disse o premiê visivelmente emocionado.
Coalizão
A provável coalizão entre conservadores e liberais democratas deve apontar Cameron como primeiro-ministro e Clegg como seu vice. Ainda não se sabe os termos negociados entre os dois partidos, mas os liberais democratas exigiam uma reforma eleitoral como condição para qualquer acordo.
Os conservadores conseguiram o maior número de membros do Parlamento após as eleições do dia 6 de maio, mas não obtiveram maioria absoluta, e por isso tiveram de recorrer aos liberais democratas para formar uma aliança e garantir a governabilidade.
Durante o dia, a equipe de negociadores de Clegg conversou com delegações dos trabalhistas e dos conservadores e reservou a parte da tarde para uma assembleia interna que decidiria com qual partido seria feito um acordo.
Logo após serem anunciados os resultados das eleições, Clegg anunciou que daria preferência a negociações com os conservadores, uma vez que tinham obtido o maior número de representantes no Parlamento. Segundo os resultados oficiais, os conservadores conseguiram 306 assentos, contra 258 dos trabalhistas e 57 dos liberais democratas.

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GRÉCIA: Protestos contra austeridade deixam três mortos


Passeata reuniu dezenas de milhares de pessoas contrárias às propostas do governo

Lefteris Papadimas e Renee Maltezou
Agência Reuters
Publicado no Bom Dia Bauru On Line

Manifestantes enfrentam a polícia nas ruas de Atenas.

Três pessoas morreram nesta quarta-feira num incêndio provocado por manifestantes durante uma passeata no centro de Atenas contra as medidas de austeridade do governo, segundo autoridades.
“Encontramos três pessoas mortas num edifício que está em chamas”, disseram os bombeiros em nota.
A passeata até o Parlamento reuniu dezenas de milhares de pessoas, contrárias às propostas do governo para realizar cortes profundos no orçamento, em troca de um bilionário pacote de ajuda da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional.
Nos incidentes mais graves desde o início do atual governo socialista, em outubro, centenas de grevistas atiraram pedras, pedaços de mármore e garrafas na polícia, incendiaram lixeiras e tentaram repetidamente invadir o Parlamento, logo antes de os parlamentares iniciarem um debate sobre as medidas de arrocho fiscal.
A tropa de choque repeliu os manifestantes usando gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral. A fumaça tomou conta de vários quarteirões no centro da capital.
Aos gritos de “Assassinos” e “Queimem o Parlamento”, jovens mascarados atiraram bombas incendiárias e quebraram vitrines, refletindo a indignação popular com os dolorosos cortes de salários e aposentadorias que o governo pretende fazer.
Na avenida Stadiou, no centro da capital, uma grande coluna de fumaça se erguia aos céus por causa de um incêndio em um prédio de dois andares onde funciona uma agência do banco Marfin. As autoridades dizem que dois outros edifícios centrais foram incendiados durante o protesto.
A polícia estimou que havia 27 mil pessoas na passeata, mas testemunhas afirmaram que havia pelo menos 40 mil – de longe o maior protesto desde o início da crise da dívida grega, no final de 2009.
O funcionalismo público e privado realiza atualmente a sua terceira greve conjunta neste ano, o que paralisa voos, comércio e transportes públicos.
“Essas medidas são horríveis”, disse a comerciante Maria Tzivara, de 54 anos. “Tenho medo de ser demitida ou que meu salário seja cortado. Vai ser muito duro.”
O primeiro-ministro George Papandreou submeteu na terça-feira o programa de austeridade ao Parlamento, com a previsão de uma economia de 30 bilhões de euros (US$ 40 bilhões) resultante das reduções de salários e pensões e da elevação do IVA (imposto sobre mercadorias e serviços).
A oposição conservadora promete votar contra a lei, tornando mais improvável um consenso político nacional sobre as medidas. O governo, no entanto, tem ampla maioria parlamentar e deve aprovar o projeto nesta semana.
Até agora, as manifestações eram em geral pacíficas, e os incidentes de quarta-feira remetem aos distúrbios que sacudiram a Grécia em 2008, depois de um adolescente ser morto pela polícia.

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