Você que vai votar em outubro, fuja dos votos folclóricos, do tipo Maluf, Clodovil e companhia.

- Maluf: de defensor apaixonado da extrema direita à caricatura mais fiel do político ladrão – mesmo assim, atraindo votos.
Por Luís Paulo Domingues (D’Incao On Line)
Desde que eu era pequeno, só ouço o nome do Maluf envolvido em processos judiciais. As propagandas sobre suas grandes obras em São Paulo se esvaziam quando a imprensa noticia que foram exatamente essas obras as maiores causas de seus imbróglios na justiça. Nos últimos tempos, com a nossa polícia federal e o Ministério Público muito mais atuantes, a situação do Maluf piorou muito, a ponto de ter sido preso e mantido na cadeia por uns dias.
É claro que ele não tem a mínima intenção de fazer alguma coisa no Congresso, onde atualmente é deputado. O negócio do Maluf é o poder executivo. É como prefeito, governador e (batam na madeira três vezes) presidente que suas ambições doentias – ainda que muito bem planejadas – se cristalizam.
De uns tempo pra cá, Maluf tornou-se uma figura folclórica. As pessoas riem de suas aventuras e desventuras, torcem por ele ou por sua prisão, cerram fileiras em seu exército de seguidores ou no exército oposto, que vive de achincalhá-lo. E assim, nós eleitores vamos assistindo, aplaudindo, e sempre sendo coadjuvantes do nosso próprio espetáculo.
Existem muitos “Malufs” no Brasil. O Paulo é só um símbolo do coronelismo urbano paulista. Ele foi eleito com uma enxurrada de votos, mas desta vez os votos não vieram da ala do “rouba mas faz”. Essa espécie de eleitores, graças a Deus, está em franca extinção. Os votos vieram de sua peculiaridade folclórica. É nessas pessoas, que costumam “provocar barracos” em público, que os indecisos e os que nunca pensaram em se decidir acabam votando. E com este tipo de pensamento: “-Ah, se eu sou obrigado a votar, vai o Maluf que já tá aí na mídia mesmo.”
A prova disso é a eleição do finado Clodovil. É óbvio que entre Clodovil e Maluf há diferenças oceânicas. Maluf precisava do cargo por causa da imunidade parlamentar, já que é réu em “trocentos” processos; Clodovil precisava de um novo emprego. Clodovil é quem processava os outros, geralmente programas e redes de TV que usaram sua imagem e/ou ficaram lhe devendo na época em que trabalhava nessas empresas.
O salário de deputado federal é menor que o de um apresentador de TV, mas como Clodovil já havia passado por todas as emissoras e brigado com a direção de todas elas, não deixa de ser um grande quebra galho. O mais legal é que ele nunca fez questão de esconder isso (que fazia tudo pela grana). Uma vez, diante da recorrente pergunta “o dinheiro traz felicidade?”, Clodovil respondeu: “-Pode até não trazer, mas eu prefiro chorar dentro de uma Mercedes do que dentro de um ônibus lotado”.
Os eleitores que escolheram Clodovil e Maluf também o fizeram para protestar, como quando os cariocas votaram em um hipopótamo chamado Cacareco. Clodovil e Maluf são os Cacarecos da era das urnas eletrônicas. O problema é que Cacareco (o hipopótamo) foi impedido de tomar posse, mas Maluf assumiu seu cargo e está legislando – pelo menos é o que se supõe – sem problema algum.
Outros candidatos folclóricos, eleitos por suas ações e identidades pitorescas, foram Enéas (que também já passou desta pra melhor) e Frank Aguiar. Não é possível crer que o Enéas fez ou pretendia fazer alguma coisa pelo Brasil (algo que ultrapassasse sua contribuição quixotesca à indústria do entretenimento). É claro, portanto, que votar no Enéas é uma atitude de protesto.
E o “Cãozinho dos teclados”? Também foi eleito com votação recorde. Há alguns anos, Frank Aguiar foi acusado de bater em Renata Banhara, a “famosa” atriz, jurada e participante de games na TV. Além disso, e de sua contribuição duvidosa à música popular brasileira, quais são suas propostas? O que ele colocaria na pauta do Congresso? Depois de seus milhares de votos, “desencanou” de ser deputado e “virou” vice-prefeito de São Bernardo do Campo. Agora, anunciou (com reportagem na Veja e tudo) que quer ser presidente.
Esse tipo de “voto folclórico” é ruim para o país, mas uns são piores que outros. Gostaria que o Clodovil continuasse lá, pintando seu gabinete. É melhor que ver o Maluf pintando o sete.
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