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Tunísia, muitas perguntas, poucas respostas


17/01/2011 – 16h45

A bela capital da Tunísia é o palco da tensa transição de gorverno no país.

Clóvis Rossi
Folha de São Paulo

Nota do D’Incao: sobre este assunto, ler posts anteriores acerca da tensão política na Tunísia e no Norte da África.

Confesso uma forte resistência a carimbar de “histórico” determinado acontecimento, como é o costume entre nós, jornalistas. Por isso, reluto em dar uma dimensão exagerada à derrubada do ditador tunisiano Ben Ali.
Mas não dá para negar pelo menos uma evidência, devidamente registrada por Ramy Khouri em artigo para o jornal “International Herald Tribune”, que vem a ser a edição internacional do “New York Times.
Khouri é editor do “Daily Star”, jornal libanês, diretor do Instituto para Políticas Públicas e Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute e um dos mais lúcidos analistas de Oriente Médio, com a vantagem adicional de ser menos apaixonado do que a esmagadora maioria dos que escrevem sobre a região.
Diz Khouri que o caso de Ben Ali “é o primeiro exemplo em uma geração de um líder árabe e seu sistema serem derrubados por uma ação popular”. Só por aí, já seria um fato digno do rótulo de histórico, certo?
Mas o analista arrisca-se a dizer que “marca o fim da complacência e da docilidade entre as massas de cidadãos comuns árabes”.
Khouri dá um passo além no atrevimento, ao imaginar que os acontecimentos da Tunisia “podem surgir na história árabe como o equivalente ao movimento Solidariedade, no estaleiro polonês de Gdansk”, aquele que deu origem a uma bola de neve no mundo comunista que, no limite, levou ao colapso da União Soviética.
Com todo o respeito por um analista tão competente, eu não consigo, ainda, ir tão longe.
É verdade que está havendo uma série de movimentos em vários países árabes, a partir do ocorrido na Tunisia. É também verdade que o caldo de cultura da crise é idêntico em praticamente toda a região, em que as queixas, escreve Khouri, “são a respeito de aumento de preços e de escassez de empregos, mas também sobre a mão pesada e a maneira displicente como as elites governantes árabes tratam seus cidadãos e lhes negam os mais básicos direitos humanos, de expressão, de representação crível, de participação política e de acesso equitativo aos recursos do Estado e às oportunidades do mercado livre”.
Tudo isso é verdade, mas, por enquanto, prefiro concordar com James M. Dorsey, ex-correspondente do Wall Street Journal”, para quem “é ainda cedo para concluir que os protestos sinalizam um marco após o que as populações do Oriente Médio não mais suportarão em silêncio a repressão e as carências econômicas, e passarão crescente e publicamente a desafiar seus líderes autoritários”.
Que a situação é complicada, basta lembrar um caso citado por Dorsey: há poucos dias, comentaristas esportivos egípcios especularam que o governo forçara um empate na partida entre os tradicionais rivais Al Ahly e Zamalek, para evitar que conflitos entre torcedores fanáticos se transformassem em manifestação política.
A primeira e mais importante pergunta que desperta o caso tunisiano é exatamente essa: é um episódio isolado ou o início da uma revolução no Oriente Médio?
Segunda pergunta, igualmente relevante: que papel desempenhará o Exército na nova situação da Tunisia? O jornal “El País” entrevistou, nesta segunda-feira, o ex-chefe do Estado-Maior dos Exércitos franceses, almirante Jacques Lanxade, que contou que o general Rachid Ammar, comandante do Exército tunisiano, se recusou a ordenar a seus homens que disparassem contra os manifestantes.
“Você está acabado”, teria dito Ammar ao então presidente Ben Ali, antes de lhe entregar a carta de demissão. O general foi reconduzido ao posto depois da fuga do presidente, o que indica seu poder.
A história -e não só do Oriente Médio – está repleta de exemplos de generais que adotam uma atitude humanitária e democrática e participam da queda de regimes autoritários apenas para se tornarem eles próprios, depois, os novos déspotas.
Enfim, há mais perguntas do que respostas nesse panorama, de todo modo eletrizante, o que torna ainda mais interessante a cúpula América do Sul/Países Árabes, marcada para o mês que vem em Lima, no que será a estréia de Dilma Rousseff no cenário multilateral.

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Governador do Amapá queria embolsar US$ 10 milhões, diz PF


15/09/2010

Má companhia: Sarney conversa com o governador do Amapá, agora preso.

Folha de São Paulo

O governador do Amapá e candidato à reeleição, Pedro Paulo Dias (PP), pretendia ficar com pelo menos US$ 10 milhões que uma empresa doaria para sua campanha. A informação, obtida pela Polícia Federal em 2009, consta do inquérito da Operação Mãos Limpas.
Dias e mais 17 pessoas foram presas temporariamente na sexta suspeitas de vários crimes, entre eles corrupção.
O dinheiro que o governador Dias negociava viria do grupo Salim, da Indonésia, que tem a intenção de investir no Brasil, segundo a PF.

Em novembro do ano passado, quando ainda era secretário de Saúde e vice-governador, Dias foi para o país asiático e de lá conversou com uma de suas assessoras, Lívia Gato de Mello. Ele revelou que a intenção era conseguir US$ 30 milhões para sua campanha deste ano.
Nas conversas com a assessora, Dias diz que o valor seria baixo para o grupo que pretende adquirir terras no Brasil para negócios na área de alimentação. No diálogo, Dias diz que gastaria US$ 20 milhões em sua campanha, revelando a intenção de ficar com o restante.
A Folha ligou para a advogada do governador, Patrícia Aguiar, que não respondeu.
PRISÃO
O ministro do Superior Tribunal de Justiça João Otávio de Noronha determinou ontem que Dias continue preso na sede da PF, em Brasília, onde está desde sexta-feira.
Além dele, foram mantidas as prisões do ex-governador Waldez Goes (PDT) e o presidente do Tribunal de Contas do Estado, José Julio de Miranda, do secretário de Segurança Pública, Aldo Alves Ferreira, da mulher do ex-governador, Marília Goes, e do empresário Alexandre Albuquerque.
O ministro Joaquim Barbosa, do STF (Supremo Tribunal Federal), já havia negado a revogação da prisão feito pelos advogados de Goes.
A PF encontrou ontem CDs escondidos durante blitz na secretaria de estadual Planejamento, um dos alvos da operação policial.
IMPEACHMENT
O presidente da Assembleia Legislativa do Amapá e candidato ao governo estadual, Jorge Amanajás (PSDB), encaminhará a uma comissão especial o pedido de impeachment Dias.
Seguindo o rito comum, a comissão ouvirá preliminarmente a defesa e fará um parecer sobre o afastamento ou não de Dias, que está detido em Brasília.

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Governo de SP gasta R$ 63 milhões em quadras malfeitas em escolas


09/08/2010

Goldman e Serra: dupla jogou 63 milhões no lixo com quadras que não funcionam.

Folha de S. Paulo
Sol e chuva em quadras, mesmo depois de cobertas, e risco de acidentes com alunos. Auditoria do Tribunal de Contas encontrou esses problemas num programa do governo de SP que prevê reforma nas escolas estaduais, segundo reportagem de Fábio Takahashi publicada na edição desta segunda-feira da Folha.
De acordo com o texto, o órgão analisou o projeto de cobertura de quadras da Secretaria da Educação, iniciado em 2007 e que consumiu no ano passado R$ 62,6 milhões (equivalente a metade do atual orçamento para informatização de colégios). Um dos principais problemas relatados foi a colocação de pilares (que sustentam o teto) muito próximos às linhas das quadras.
Técnicos visitaram no ano passado 56 dos 363 colégios que receberam a cobertura em 2009. Além do risco de acidentes, foi constatada ineficácia da obra na maioria dos casos, pois não há anteparos laterais na cobertura. O relatório critica também a condição do piso de diversas quadras, que está irregular; a pintura das linhas, que sai facilmente; e a má situação de traves e tabelas.
OUTRO LADO
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirma que adotou um modelo de obras compatível com o orçamento disponível, considerando o universo de cerca de 5.000 prédios da rede, “fornecendo a melhoria e o mesmo padrão para todos”.
Em nota, o órgão do governo estadual alerta para a “diferença entre construir um ginásio de esportes para poucas escolas ou a cobertura de quadra para quase todas as escolas públicas”.
A Secretaria da Educação nega que haja risco de choques, pois o projeto prevê recuo entre a quadra e os pilares. Diz, porém, que onde houve constatação de problemas os reparos já foram feitos ou estão em andamento.

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Adolescente faz o milagre de Santa Isabel


21/06/2010

Gilberto Dimenstein
Folha de S. Paulo

As olimpíadas de física e matemática são intiressantes fomentos de novos talentos e descobridoras de alunos com habilidades espaciais.

Um garoto de 18 anos chamado Marco Antônio Lopes, de família de baixo poder aquisitivo, está produzindo o milagre educacional em Santa Isabel –uma pequena cidade de 50 mil habitantes na região metropolitana de São Paulo. Apesar de ser pobre e com pouca população, a cidade está ganhando medalhas em olimpíadas de informática, matemática, física e astronomia –detalho melhor o caso no www.catracalivre.com.br.
Como ele teve apoio de uma entidade (Ismart) para estudar e entrar no ITA, resolveu retribuir e, há três anos, prepara estudantes de sua cidade para essas olimpíadas, encantando-os com suas aulas.
Há duas discussões aqui: perdemos muito dinheiro porque são poucos brasileiros com altas habilidades como Marco Antônio que são reconhecidos e apoiados. Calcula-se que tenhamos no Brasil cerca de 1,5 milhões de jovens com altas habilidades de aprendizagem.
A segunda discussão tem a ver com um dos problemas deste ano no país: faltam engenheiros, o que, certamente, dificulta nosso crescimento econômico. E isso ocorre, em parte, porque não se estimulam, no ensino público e privado, jovens a se encantarem pelas ciências exatas, como está fazendo o adolescente Marco Antônio.

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Usina de Belo Monte divide até tribo de índios no Pará


Aldeia decidiu se separar por divergências sobre a construção da hidrelétrica

Pequeno índio juruna nada enquanto a mãe lava roupas no rio Xingu.

E&N > Economia
sábado, 17 de abril de 2010
Publicado no Estado de S. Paulo
Aldeia decidiu se separar por divergências sobre a construção da hidrelétrica
Renée Pereira

ALTAMIRA (PA) – Protegida pelas águas turvas do Rio Xingu e por frondosas árvores nativas da Amazônia, a pequena aldeia Paquiçamba, dos índios juruna, é o retrato fiel do dilema que atinge o oeste do Pará. A tribo, de 83 pessoas, decidiu se separar fisicamente por causa de divergências sobre o projeto da Hidrelétrica de Belo Monte, prevista para ser leiloada terça-feira. Metade da aldeia, inclusive o cacique Manuel, de 70 anos, vê com bons olhos a construção da usina, de 11.233 megawatts (MW). A outra ala, um pouco mais jovem, não pode nem ouvir falar do empreendimento, que custará R$ 19 bilhões.

A briga começou quando o cacique, que no passado discordava do projeto, decidiu apoiar publicamente a hidrelétrica, sem consultar os demais integrantes da tribo, conta Ozimar Juruna, de 41 anos, contrário à construção. “Ele ficou iludido com as promessas feitas pelas empresas (responsáveis pelo projeto). Nós, que sabemos ler e falar português, entendemos que a obra será um desastre para a aldeia.”
Quinze famílias devem acompanhar o novo grupo, que terá outro cacique no comando. Será Giliarde, o sobrinho do atual chefe da tribo. No dia em que a reportagem do Estado visitou Paquiçamba, o cacique Manuel estava fora, colhendo castanhas na mata. Mas, com tanta polêmica, seu genro Claudio resolveu amenizar o discurso do sogro: “Ele não é contra nem a favor”.
A aldeia está localizada na Volta Grande do Xingu, a cerca de 40 quilômetros de Altamira. Com a construção da barragem e dos dois canais de derivação, a vazão do rio vai diminuir, podendo comprometer a única via de transporte das comunidades ribeirinhas até Altamira. É no município que eles vão a médicos, dentistas e fazem seus negócios, como a venda de peixes e castanhas.
“A vida já é difícil por aqui por causa da distância até a cidade e pode ficar ainda mais complicada com Belo Monte”, teme Ozimar, que tem oito filhos. Apesar das dificuldades e das recentes discussões, a tribo tem um dia a dia tranquilo. Os homens caçam, pescam e trabalham na roça, colhendo castanha, arroz, feijão e mandioca. As mulheres cuidam da casa e dos filhos, que ainda desfrutam das diversões que o Xingu lhes oferece. Enquanto as mães lavam a roupa na beira do rio, eles brincam dando cambalhotas na água.
Tristeza
Na outra margem do Xingu, mais uma aldeia vive atormentada pelas ameaças de Belo Monte. É a tribo Arara, que aproveita o momento delicado para recuperar as tradições dos antepassados, perdidas ao longo dos anos, como a adoção de nomes indígenas para as crianças. As lições vêm do índio mais velho da aldeia, Leoncio Ferreira Arara, de 72 anos. Ele é avô de José Carlos, o cacique da tribo, um dos mais ativos na luta contra Belo Monte.
Embora não saiba ler nem escrever, Leoncio é um homem sábio, de memória irreparável. Sabe de cor todos os períodos críticos do Rio Xingu, seja na seca ou na cheia. “Por isso digo que essa usina vai acabar com nossas vidas aqui. Belo Monte virou minha grande tristeza.” Sua esperança é que o neto, um índio calmo e muito bem articulado, consiga barrar a hidrelétrica.
Mas, se depender de alguns moradores de Altamira e região, os sonhos de Leoncio podem não se realizar. O movimento que apoia Belo Monte conta com empresários, políticos e moradores das cidades influenciadas pelo projeto. Para esse grupo, a usina é o único caminho para desenvolver a região.
Eles acreditam que muitos investidores virão para a cidade por causa do projeto. “Já há algumas sondagens no município. Mas a decisão de fechar negócio só vai ocorrer depois que o leilão for realizado”, diz o empresário Waldir Antonio Narzetti. Ele confessa, no entanto, que o grupo, batizado de Fort Xingu, anda meio nervoso com o movimento da oposição, que conta com apoio de personalidades estrangeiras – como o cineasta James Cameron e a atriz Sigourney Weaver, que visitaram as tribos indígenas semana passada.
Alheio ao glamour hollywoodiano, o pescador Raimundo dos Santos Martins, de 47 anos, só quer saber de uma decisão rápida para pôr em prática seus planos. Ele mora com a mulher e mais 11 filhos e netos numa pequena casa de madeira na zona rural de Vitória do Xingu. Sua moradia está bem no meio da área que será alagada pela hidrelétrica e, portanto, será removida.
Em troca, o projeto prevê a entrega de uma nova casa numa vila que será construída pelo vencedor do leilão ou a indenização. Martins já tomou sua decisão: “Quero receber o dinheiro para comprar uma chácara na beira do rio. Sou pescador há 37 anos. Não posso ficar longe da água”, diz ele, que é favorável à usina. “Cresci ouvindo falar de Belo Monte. Acredito que trará melhorias para o povo.”
Bem perto da casa de Martins, o pequeno Rômulo da Silva Costa, de 12 anos, não quer saber de vila nem de indenização. “Aqui tem vários lugares para brincar. Não quero ir para outro lugar”, diz o garoto, enquanto carrega madeira num carrinho de mão. Em cada comunidade, há opiniões para todos os gostos.
Há quem seja a favor, contra ou aqueles que apenas rezam para que ocorra o melhor, sem fazer grandes comentários. “Não tem como ser contra ou a favor. Eles vão fazer mesmo”, diz a capixaba Izete Celestino de Souza, que chegou à comunidade de Belo Monte há 20 anos, com sete filhos e o marido, num pau de arara. “Diziam que aqui era uma maravilha. Cheguei e não tinha nada. Quase matei meu marido.”
O rumo na vida de todas essas pessoas deverá ser definido terça-feira, 30 anos depois do primeiro estudo da usina. Isso se nenhuma nova liminar impedir o leilão.

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Belo Monte de equívocos


SEGUNDA-FEIRA, 19 DE ABRIL DE 2010

Autor: Célio Berman
da Folha de S. Paulo

O autor defende que Belo Monte será construída para abastecer usinas e mineradoras de grandes grupos empresariais.

Nota do D’Incao On Line:

O texto abaixo, publicado na Folha de São Paulo, contém argumentos convincentes contra a construção da polêmica usina de Belo Monte. Leiam também o texto relacionado do jornalista Zarcillo Barbosa, publicado no Jornal da Cidade de Bauru, há uma semana, e que contém argumentos favoráveis à construção da usina e, portanto, contrários aos ativistas ambientais.

A insistência do governo de levar adiante o projeto de Belo Monte mostra que a lógica técnica e econômica cedeu o lugar à obsessão. Com graves consequências que não se restringem às populações indígenas e comunidades ribeirinhas do rio Xingu. Elas serão também sentidas nos bolsos de todos nós, consumidores de eletricidade.

O espectro do “apagão” parece ser a única justificativa para a construção dessa usina. Entretanto, ela também aponta o modelo de desenvolvimento que se quer dar à região amazônica e ao nosso país. A energia a ser produzida pela usina não será utilizada para aliviar a pobreza e incorporar uma parcela da população que sempre esteve excluída das benesses do consumo.

Ela será destinada a satisfazer a demanda de grandes grupos mínero-metalúrgicos na perpetuação do modelo que se apropria dos recursos naturais e das águas dos rios da região para produzir bens de baixo valor agregado e de alto conteúdo energético para exportação. A isso chamam de desenvolvimento. E a que custos?

As tentativas de reduzir as consequências socioambientais da obra, com a operação a fio d’água, isto é, sem um grande reservatório capaz de regular a vazão, apenas trouxeram mais problemas e proporcionaram uma sucessão de equívocos, técnicos e econômicos.

Belo Monte foi superdimensionada. A capacidade de 11,2 mil MW só estará disponível durante três meses do ano. Nos meses de setembro e outubro, quando o rio Xingu fica naturalmente mais seco, a capacidade instalada aproveitável da hidrelétrica não será maior do que 1.088 MW médios.
O resultado é que a energia terá um preço elevado.

A definição pelo governo do preço-teto em R$ 83 por MWh, além de já ter afugentado potenciais investidores (Odebrecht e Camargo Corrêa, que constituíam um consórcio, já abandonaram a disputa do leilão), somente será assegurada por meio do aporte do Tesouro Nacional, isto é, de nós, contribuintes.

Outro equívoco: o custo do empreendimento passou dos iniciais R$ 4,5 bilhões para os atuais R$ 19 bilhões. As empresas envolvidas com as obras (empreiteiras e fabricantes de equipamentos), por sua vez, estimam um custo mínimo de R$ 30 bilhões. O BNDES se dispõe a financiar 80% do custo.

Ao mesmo tempo, o banco espera uma nova capitalização do Tesouro para assegurar essa participação. Assiste-se a um exercício de engenharia financeira para viabilizar a obra com toda sorte de renúncia fiscal e isenções que trarão aumento desproporcional da dívida pública.

Apesar de todas as críticas, levantadas de forma sistemática por um painel de especialistas constituído por diversos cientistas e professores de importantes universidades do país, a intenção de manter o leilão para a licitação na próxima semana demonstra que são apenas os interesses eleitoreiros que prevalecem.

É preciso reabrir o debate do modelo de desenvolvimento que queremos para o nosso país. Está na hora de rever a concepção dos projetos hidrelétricos na Amazônia. E abandonar aqueles que levam à destruição de seus rios e de culturas de seus habitantes.

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