17/05/2010 – 07h40
Publicado na Folha de São Paulo

Lula (Brasil), Ahmadinejad (Irã), Erdogan (Turquia) e o ministro dos negócios estrangeiros turco (Ahmet Davutoglu ), na assinatura do acordo.
Leia antes a nota do D’Incao Instituto de Ensino, por Luís Paulo Domingues e Carlos D’Incao:
Até a última hora, o mundo não acreditou na possibilidade de o Brasil sair com sucesso dessa intermediação entre o Irã e a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, que regula as questões nucleares no mundo). Não acreditava ou torcia contra, visto que os Estados Unidos querem bloquear o desenvolvimento do Irã em todos os setores, já que trata-se de uma nação opositora aos seus interesses econômicos e políticos na região. A direita brasileira, representada na imprensa principalmente pela revista Veja e pelos grandes jornais paulistas( Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo), quer um motivo para desqualificar o governo federal que, embora seja muito criticável em inúmeros aspectos, parece romper com a histórica posição de servilismo do país em relação às grandes questões internacionais.
O acordo foi assinado nesta madrugada (segunda, 17/05). Não deu tempo nem de comemorar a boa atuação da diplomacia brasileira (até o presidente russo disse que dava uns 30% de possibilidade de o acordo dar certo, o que representou dizer que Ahmadinejad não o assinaria em hipótese alguma), e a mesma imprensa já publica manchetes do tipo: Mundo vê acordo no Irã com ressalvas”.
O fato é que o acordo cumpre as exigências das normas da AIEA e do Conselho de Segurança da ONU. Com a participação da vizinha Turquia, um país considerado aliado pelos Estados Unidos, o Irã vai trocar urânio enriquecido em porcentagens estipuladas pela AIEA, porcentagens estas que não permitirão a produção da bomba atômica.
Então devemos refletir o porquê de as manchetes nacionais, além do Estado de Israel e os Estados Unidos verem o acordo com tantas ressalvas. No caso de Israel, parece óbvio: o sucesso do acordo fortalece o Irã e, indiretamente, a causa palestina. No caso dos Estados Unidos, o sucesso do acordo possibilita uma maior estabilidade para o Oriente Médio, estabilidade esta que não corresponde aos interesses imperialistas dos americanos. Na lógica imperialista, a divisão é a melhor forma para dominar. Por isso, os Estados Unidos não querem a paz e muito menos a estabilidade. Já a imprensa brasileira está preocupada com as eleições presidenciais no Brasil. O governo Lula, para eles, não pode ter nenhuma virtude e a atitude do Brasil em tentar interceder nessa questão deve ser vista como algo patético. O Brasil precisa ser pequeno e seu povo, menor ainda. Esse tem sido o projeto da direita no Brasil nos últimos 500 anos.
Publicado na Folha de S. Paulo On Line
Por Vahid Salemi/AP
O Irã assinou na manhã desta segunda-feira, ao lado de Brasil e Turquia, o acordo de troca de urânio pouco enriquecido por combustível nuclear negociado neste fim de semana.
O documento, um marco nas negociações sobre o controverso programa nuclear de Teerã, ainda é visto com ceticismo por Israel e pelas potências ocidentais.
Muitos duvidam que um país como Irã, que desafia as sanções do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e resiste a permitir examinadores internacionais em suas usinas nucleares, vai se ater aos termos do acordo.
Vahid Salemi/AP
Iraniano Mahmoud Ahmadinejad comemora assinatura de acordo nuclear com Luiz Inacio Lula da Silva, e o turco Recep ErdoganO ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou em Teerã que o acordo não foi discutido com as potências, mas cumpre as determinações da proposta mediada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em outubro passado, e que o Irã rejeitou.
O acordo determina que o Irã envie 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a 3,5%, em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% na Rússia ou França –suficiente para a produção de isótopos médicos em seus reatores e muito abaixo dos 90% necessários para uma bomba. O urânio enriquecido seria devolvido ao Irã no prazo de um ano.
A troca acontecerá na Turquia, país com proximidades com Ocidente e Irã, e sob supervisão da AIEA e vigilância iraniana e turca.
Os presidentes Mahmoud Ahmadinejad e Luiz Inácio Lula da Silva, e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, decidiram enviar a proposta no prazo de uma semana para a AIEA.
Israel analisa com ceticismo o acordo. Fontes oficiais israelenses disseram à agência de notícias Efe que o Irã já aceitara uma oferta muito parecida “e depois, na hora de passar à ação, a rejeitou. É preciso examinar isto, portanto, com ceticismo”.
“Pode ser que desta vez o Irã tenha decidido mudar sua política, ou que tenha manipulado a Turquia e o Brasil, explorando as boas intenções e a inexperiência diplomática brasileira em assuntos do Oriente Médio”, disseram as fontes.
Pela proposta das potências em outubro passado, o Irã embarcaria 70% do seu estoque de urânio baixamente enriquecido, que seria convertido na França ou Rússia em cápsulas de combustível compatíveis para produção de isótopos de uso médico.
Teerã recusou a proposta dizendo que o projeto de acordo não apresentava as garantias necessárias para a entrega do combustível. Depois disso, o país apresentou uma contraproposta para um intercâmbio gradual.
A classe política e, em particular o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, adverte do perigo que o Irã adquira capacidade de produzir armas nucleares e pede à comunidade internacional que tome medidas pela desnuclearização de Teerã.
Já o governo da Alemanha destacou nesta segunda-feira que nada pode substituir um acordo entre Teerã e a AIEA.
“Continua sendo importante que Irã e AIEA cheguem a um acordo”, declarou o porta-voz adjunto do governo da Alemanha, Christoph Steegmans. “Isto não pode ser substituído por um acordo com outros países”, completou.
Sanções
Amorim e seu colega turco, Ahmet Davutoglu, disseram nesta segunda-feira que o acordo nuclear fecha o caminho para a possibilidade que a comunidade internacional imponha novas sanções ao regime iraniano.
Com a paralisação das negociações no ano passado, o Irã anunciou que começou a enriquecer o urânio a 20% em fevereiro, mesmo diante da repreensão das potências. Desde então, os EUA lideram uma campanha por uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da ONU, à qual o Brasil se opõe.
Em entrevista coletiva em Teerã, Amorim assegurou que o compromisso adquirido pelas autoridades iranianas fecha a porta para novas sanções.
Além disso, o chefe da diplomacia brasileira acrescentou que este acordo representa o princípio para abordar outras questões sobre o conflito nuclear.
Amorim destacou que é a primeira vez que o Irã se compromete por escrito a enviar urânio ao exterior para recuperá-lo tempo depois, como já propuseram Rússia, Estados Unidos e Reino Unido em novembro do ano passado.
Nesta ocasião, explicou o ministro brasileiro, o Irã recebeu as garantias que pedia para fechar um acordo.
Lula está há dois dias em visita oficial no Irã e hoje participará da inauguração da 14ª Cúpula do G15 (grupo dos 15 países em desenvolvimento), na capital iraniana.
Com agências internacionais
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